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Conheça o Contra Mão

Reportagem completa sobre curta-metragem que retrata tortura durante ditadura militar, produzido por oficina de cinema da Baixada Santista
Por André Azenha, editor (09/07/2009) // 3 comentários

Fotos: Divulgação

Nos anos 70, o lema punk “faça você mesmo” deu chance a muitas pessoas que sonhavam ter uma banda de rock, mas que não possuíam os mecanismos (background, técnica, instrumentos, gravadora) necessários para adentrar o universo da música, tornassem reais os seus desejos. As décadas se passaram, esses mecanismos foram ficando mais acessíveis, e com a cereja do bolo, a internet, atualmente a garotada tem chance de divulgar seus trabalhos de forma praticamente profissional.

No cinema, os custos são maiores e o número de gente necessária para dar vida a um filme, mesmo que seja um curta-metragem, é maior. Conseguir grana, então, para produzir uma obra cinematográfica, nem se fala. Mas tem muita gente à margem do mainstream que não espera uma oportunidade cair do céu. Um exemplo claro acontece na Baixada Santista, onde foi criada uma oficina de cinema, cujo primeiro trabalho, o curta-metragem “Contra Mão”, possui a urgência de uma obra feita de forma independente, porém com resultado final extremamente profissional.

O filme tem seis minutos angustiantes, claustrofóbicos, que não passam incólumes a alguém que tenha um pingo de sensibilidade. Nele assistimos uma série de pessoas interrogadas e torturadas por sujeitos da ditadura militar. Ao mesmo tempo em que as vítimas soam desconhecidas aos nossos olhos, quando perguntadas como se chamam, proclamam nomes de figuras importantes da cultura brasileira, que ou foram presas, ou tiveram suas obras censuradas naquele período.

Produzido, filmado e lançado em 2008, “Contra Mão” foi escrito e dirigido pelo cineasta Adriano Lírio, que havia sido convidado para ministrar uma oficina em Santos, durante o Festival Santista de Curtas-Metragens daquele ano. “A turma foi montada através do Curta Santos 2008. Foi uma turma bem concorrida, a qual resultou em 18 integrantes dos quase 80 currículos analisados. Quando recebi todos os currículos fiquei um pouco surpreso, pois tinha muita gente boa de todas as idades”, conta o diretor.

Se o resultado impressiona, com boa direção, parte técnica correta e ótimas interpretações do elenco, a surpresa é maior ainda quando sabemos que da idéia inicial à finalização do projeto, se passaram apenas cinco dias. Adriano explica: “O Toninho (Dantas, organizador do festival), me disse que gostaria de exibir no encerramento do festival algo que fosse produzido pela oficina… Mas isso era muito delicado, pois as condições, a qualidade, a turma, tudo dependia de uma boa dose de equilíbrio. Porém, a decisão foi conjunta, como todo o processo. O objetivo do curso era bem simples. Nos primeiros dois dias de aula todos os conceitos básicos de produção foram passados, exemplificados, repassados e discutidos. O terceiro dia foi usado para poder pré-produzir a idéia escolhida, no quarto dia foi rodada a idéia, e no quinto, realizada a edição. Paralelamente fizemos uma parceria com uma oficina de interpretação. Assim com o elenco disponível a encarar a proposta, nasceu o curta”.

O diretor e roteirista Adriano Lírio

Carlos Oliveira, um dos produtores do filme, e com experiência na direção de outros curtas, fala do processo que resultou na formação da equipe que deu vida à obra. “Recebemos uma ligação do Júnior (Brassaloti, coordenador do Curta Santos e grande incentivador e realizador cultural na cidade) e achei sensacional poder participar de uma Oficina de Cinema em Santos. Uma oportunidade rara, coisa que geralmente só vemos em São Paulo. Nem tinha como não aceitar fazer”, afirma.

Os poucos dias para a concepção do projeto exigiram sacrifícios da direção, da equipe técnica e do elenco. “A gente ficava lá desde manhã até o fim da tarde”, comenta Madeleine Alves, que ajudou no roteiro e na produção. Carlos continua: “Ele (Adriano) nos mostrava trechos de filmes, e aí ofereceu pra gente fazer um curta, pois percebeu que o pessoal tinha capacidade de produzir. Aí perguntou: Vamos fazer um curta-metragem em três dias e exibi-lo no festival?”.

Apesar do assunto “ditadura” poder soar datado, a obra também serve de paralelo à primeira década do século XXI, onde muitas pessoas foram presas e torturadas simplesmente por terem “nascido no local errado”. Tempos de Bush e companhia que ainda deixam seus reflexos, mesmo após a eleição de Obama para a presidência dos EUA. Trata-se de um grito de liberdade atemporal e universal. Carlos explica a escolha do tema: “Ele nos sugeriu palavras que tinham a ver com a ditadura militar e a pressão política naquele período. Mas no começo fiquei receoso em lidar com este assunto, porque ninguém quer lembrar deste período. As pessoas que viveram aqueles anos não têm boas recordações. Mas como o festival estava comemorando a liberdade alcançada e o fim da ditadura, aí pesquisamos na internet as personalidades que podíamos colocar ali, pois a idéia era mostrar pessoas que foram torturadas. Só que nem todas as pessoas que foram presas sofreram tortura. E nem todas as pessoas que tiveram suas obras censuradas ou proibidas foram torturadas. Então a gente tinha uma lista de personalidades, em sua maioria artistas, autores, e aí ficou a critério do Adriano determinar os nomes que entrariam no filme e repassou aos atores”.

Não faltou pesquisa para criar o clima necessário de tensão e realismo que conduz o trabalho. “Pesquisamos formas de torturas, e com base em nossas idéias, o Adriano fez o roteiro”, diz Madeleine. “E o interessante é a forma simbólica do resultado final. Cada ator cita uma personalidade, como por exemplo, Tom Zé, e nem todas essas personalidades foram torturadas, mas tiveram suas obras censuradas. Então de alguma forma a gente simbolizou e prestou homenagem a todas essas figuras que sofreram com a ditadura. Também não precisamos um ano exato. Quisemos abranger todo o período da ditadura”, explica Carlos. O intuito foi se aproximar ao máximo do que acontecia nos cubículos onde tantas pessoas foram caladas ou proibidas de exercerem seus direitos de pensar e criar. Carlos detalha: “Pesquisamos letras de músicas emblemáticas daqueles tempos, e as biografias dessas pessoas citadas no curta, especialmente as que foram torturadas. Queríamos conhecer melhor quem eram essas pessoas. Muitas delas, por sinal, foram mortas e até hoje os parentes não encontraram os corpos”.

Os atores, segundo Madeleine, além das interpretações viscerais, também colaboraram para o resultado final do roteiro. “A Deolinda, por exemplo, trouxe um personagem que ela já havia interpretado em outros trabalhos, sobre uma mulher que sofreu tortura e anos depois encontrou seu torturador num aeroporto, que logicamente disse que não era ele”. Madeleine lembra que alguns dos intérpretes, após as filmagens, ficaram sem forças, tamanha entrega aos personagens.

A química entre equipe técnica e elenco foi tanta, que foi possível perceber esse clima de camaradagem nos bastidores quando o CineZen marcou a entrevista com eles. Todos os participantes na concepção do curta foram chamados para a entrevista por Carlos, com quem o site fez contato. E Adriano, por estar no Rio, respondeu as perguntas para a matéria, sem demora, por email. E fez questão de elogiar todos os integrantes do filme. “Essa turma me deu muito orgulho… E o ‘Contra Mão’, que é uma idéia simples e bem executada num curto espaço de tempo, favoreceu um aprendizado em conjunto… Não foi apenas um diretor/produtor ministrando uma oficina, foi uma troca de vontades, de experiências, de sugestões e críticas. Conheci grandes pessoas, bons técnicos… Gente com grande potencialidade e espero, sempre que possível, poder uni-los aos meus novos empreendimentos”.

Ele explica os elementos que resultaram numa obra que parece ter sido realizada por pessoas com anos de experiência no cinema. “O pessoal se dedicou e fez um trabalho fechando um ciclo, exercitando de forma prática um experimento em conjunto, porque cinema se faz em parceria, em testes e em riscos, levando informação, emoção e entretenimento, por isso esse trabalho resultante de oficina é tão profissional quanto qualquer outro trabalho que tive o prazer de dirigir e produzir”.                             

Não à toa, após o Curta Santos, a obra seguiu carreira em outros festivais, tendo, inclusive, sido selecionada para a mostra final do Cineme-se 2009. “Mesmo com a precariedade do curto espaço de tempo, o resultado ficou acima do esperado e achei que tal proposta não poderia ficar limitada apenas ao encerramento do festival (Curta Santos), por isso o curta acabou sendo exibido também em outros festivais de cinema pelo país (MG, GO, PI, BA e RJ). Um grupo de organizadores do Festival Universitário de Havana acabou levando uma cópia em DVD e em recente contato eles mencionaram que o curta fora exibido numa das sessões por lá, a qual provocou um rico debate”, empolga-se o cineasta. Adriano recentemente também produziu o longa  “Tudo que Deus Criou” (de André da Costa Pinto), com Guta Stresser, Paulo Vespúcio, Claudio Jaborandy, Maria Gladys e Letícia Spiller no elenco, previsto para 2010. “Neste filme tive grande satisfação de poder contar no SET com três integrantes do ‘Contra Mão’: Tatiana Santi, Danilo Pimentel e Gabriel Múglia”.

Recentemente ele também dirigiu o curta “Quase Ator”, com Emilio Orciolo Neto, Cavi Borges, Thiago de Los Reys e Felipe Abi, entre outros, segue rodando o curta-metragem “Obrigada” dirigido pelo estreante Giancarlo di Tommaso, e está em fase de captação para sua estréia como diretor de longas, também inicialmente prevista para o ano que vem.

Já o pessoal da oficina – que faz reuniões semanais e aceita novos membros (interessados devem enviar currículo para contra.mao2008@gmail.com) - está na fase de finalização do curta “Os Não Sentidos”, dirigido por Carlos Oliveira. Ficamos no aguardo para novas surpresas cinematográficas oriundas do litoral.

CONTRA MÃO
Direção e roteiro: Adriano Lírio.
Elenco: Ary Portela, Cristhian Fernandes, Daniel Meirelis, Deolinda Patrício, Edmilson Santos, Gabriel Muglia, Gigi Fernandes, Manuela Abussafi, Méa Matheus, Natasha Goulart, Renato Penco, Rogério Barsan, Rose Laine Avlis. Produção: Adriano Oliveira, Amanda Amorim Pereira, Carlos Oliveira, Cleyton Cavalcanti, Cristhian Fernandes, Danilo Pimentel, Eliane Almeida, Fabiano Vidigal, Leonardo Calasans, Leonardo Frutuoso Guedes, Madeleine Alves, Marco Rodrigues, Miriam Léa Juliani, Rodrigo Zafra, Tadeu Nunes, Tatiana Santi, Thomaz Junior. Drama.
06 minutos.
(Cor / PB).

 

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André Azenha é jornalista, editor dos sites CineZen e CulturalMente Santista, autor do livro Poesia a Quatro Mãos, feito em parceria com sua mãe, a poetisa Regina Azenha. Trabalhou com o crítico de cinema Rubens Ewald Filho, escreveu para a revista Época São Paulo e colabora com veículos de imprensa de vários estados. Em 2011, mediou o ciclo Documentários Comentados, no SESC Santos. É assessor de imprensa e realiza encontros culturais, a maior parte de caráter beneficente.


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3 Comentários
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  1. Caros Todos, Fico extremamente contente com os elogios à qualidade da produção, à qualidade técnica, do empenho do elenco e direção, do produto final construído com esmero e dedicação, e da projeção nacional e internacional que se desenha para o “Contra Mão”. Parabéns a Todos! Victor Paulo Assis D’Antonio (O Orgulhoso Pai da Tatiana Santi Guimarães Assis D’Antonio).

  2. …caros amigos…Conheci a Tati Santi Guimaraes D’Antonio ainda na barriga da mãe….e agora já é uma artista….que delicia escrever isso. Tati, essa é do tio Mafia, da tia Regina e da Bianca, beijos e sucesso.

  3. Nós que a conhecemos de há muito, não sabiamos da sua vocação para o cinema. Era o que estava faltando na família. Parabens…. Tios Miro e Maria Alice. Bjs. aí…..

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