A Literatura em Perigo

Se você, meu leitor, gosta de observar o mundo e os acontecimentos que se passam por aí, talvez concorde que, há algum tempo, o pensamento da moda é classificar e rotular toda e qualquer forma de ser e não-ser que exista por estats paragens terráqueas — e até fora delas. O objetivo? Explicar cada vez mais a vida e suas implicações de modo racional e com resultados satisfatórios (lucrativos, de preferência). Dessa forma, a corda pende mais para o lado dos “tementes ao desconhecido” e todos dormem em paz.
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
E, se teve o privilégio de frequentar uma escola de ensino regular, talvez se lembre daquelas intermináveis aulas de literatura — nas quais desfilam em grupo especial as muitas escolas literárias —, que se preocupam muito mais em comunicar que o Romantismo no Brasil começou em 1836 com a publicação de Suspiros Poéticos e Saudades, de Gonçalves de Magalhães, do que em incitar os suspiros das jovens estudantes que, porventura, lessem tal livro de poemas.
Assim, se você sempre se perguntou neuroticamente o porquê disso tudo, uma ótima dica de leitura é A Literatura em Perigo, do teórico e crítico literário Tzvetan Todorov. Calma, leitor: não é este mais um daqueles compêndios nos quais uma criatura se sente escolhida pelo destino para ditar o certo e o errado. Muito pelo contrário: nele, podemos constatar que no peito dos críticos também bate um coração.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Mesclando uma autobiografia na qual relata sua trajetória enquanto um búlgaro que foi para a França expandir seus estudos para além das fronteiras comunistas do seu país de origem, lá pelos idos da década de 1960, a uma reflexão sobre o porquê de o gosto pela leitura e, por sua vez, pela literatura estar cada vez menos em voga, o livro desvela um homem que se preocupa muito com os rumos que os estudos estruturalistas tomaram para as pessoas no decorrer dos anos.
Voltemos, então, às décadas de 1960 e 1970, nas quais a teoria do estruturalismo era o hit do momento. Para entender, de maneira simplista, o centro desse pensamento, é só pensar na construção dos prédios: exige diversos materiais e pode ter os mais diversos formatos, tamanhos e estilos — mas todos têm alicerce. Imaginou? Pois bem: analisando desde mitologia até rituais de preparação de alimentos, o Estruturalismo busca encontrar, dentro de uma manifestação cultural contextualizada, todos os elementos que se repetem e compõem a construção de um determinado costume/modo de pensar.
Todorov é um dos grandes nomes da Narratologia, ciência que estuda as narrativas de ficção e não-ficcionais e que nasceu como um ramo de estudo do pensamento estruturalista. Em A Literatura em Perigo, o autor expressa, agora em 2009, a sua preocupação acerca do que fizeram com o conhecimento produzido por esses estudos ao utilizá-los na educação regular como um cabresto inicial no contato com os textos literários, ao invés de despertar nos alunos as emoções e paixões que podem provocar as boas histórias. Em um dos trechos, ele reflete: “Hoje, se pergunto por que amo a literatura, a resposta que me vem espontaneamente à cabeça é: porque ela me ajuda a viver. Não é mais o caso de pedir a ela, como ocorria da adolescência, que me preservasse das feridas que eu poderia sofrer nos encontros com pessoas reais; em lugar de excluir as experiências vividas, ela me faz descobrir mundos que se colocam em continuidade com essas experiências e me permite melhor compreendê-las.”
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de cossenos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
E mais uma vez, caro leitor, o problema não é o “que”. É o “como”. Saber se Clarice Lispector, por exemplo, pertence realmente à 3ª Geração do Modernismo ou não é um questionamento muito reducionista perto da profundidade com que essa escritora vasculha os cantos insuspeitáveis da subjetividade humana em seu fazer. Significa, apenas, classificar, rotular e colar de modo eficaz, em uma prateleira qualquer, o que mata o questionamento, a inquietação, a criticidade. E todos dormem em paz.
É nessas e em muitas outras coisas que A Literatura em Perigo nos faz pensar… E não estranhe se, após ler o livro, você sentir na boca do seu paladar de leitor um gosto de “Poética”, poema de Manuel Bandeira cujos trechos foram aqui utilizados:
- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
Autor: Tzvetan Todorov
Tradução: Caio Meira
Editora: Difel
96 páginas
