Dúvida
Por: Ricardo Prado

Dúvida (Doubt, EUA, 2008). Direção: John Patrick Shanley. Roteiro: John Patrick Shanley, baseado em espetáculo também escrito por ele. Elenco: Meryl Streep, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Viola Davis, Lloyd Clay Brown, Joseph Foster, Bridget Megan Clark, Lydia Jordan, Paulie Litt, Matthew Marvin, Evan Lewis. Drama. 104 min. (Cor).
9,0
“Dúvida” condensa opostos de forma bem competente: é um grande filme pequeno. Não tem um vasto número de personagens, nem séries de reviravoltas. Conta, sim, com um elenco de primeira linha (Meryl Streep, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams e até Viola Davis, que aparece pouco, mas marca o filme), cenários claustrofóbicos mas acolhedores e um dilema final a lá Capitu em “Dom Casmurro”, o longa-metragem não gera dúvidas sobre sua qualidade. Um dos melhores trabalhos a sair em 2008 nos Estados Unidos, o filme relembra também tempos em que cinema era só isso: ritmo próprio, interpretações poderosas e uma história provocante.
John Patrick Shanley escreveu a peça “Doubt: A Parable” (”Dúvida: Uma Parábola”) em 2004, um espetáculo off-Broadway inicialmente mas que depois tornou-se in-Broadway, por assim dizer. Como já trabalhava como diretor também, tomou para si o cargo de diretor e roteirista desta adaptação para o cinema da peça. A imersão é total. O espectador fica dentro daquele colégio católico, das missas, da vida das freiras e dos padres. Nesse cenário, vive a jovem irmã James (Amy Adams). Inocente, busca fazer com que os alunos aprendam sem ter que recorrer ao recurso do medo, como faz a temida diretora, irmã Aloysius (Meryl Streep). Adams está perfeita no papel, já que ela própria emana essa idéia de inocência e ingenuidade. E Meryl Streep encarna uma criatura mais temível do que Miranda Priestly (de “O Diabo Veste Prada”, que lhe rendeu indicações a diversos prêmios), mas deixa de ser unidimensional a partir do momento que começa a se preocupar com o relacionamento do padre Flynn (Philip Seymour Hoffman, que já pode considerar seu trabalho bem feito a partir do momento em que causa simpatia no público, confundindo-o sobre seu caráter) com um jovem negro (”Dúvida” é ambientado em 1964, época me que as questões raciais ainda não haviam sido bem resolvidas nos Estados Unidos).
Vá assistir a “Dúvida” com a certeza de que é um excelente espetáculo como um todo. Os atores estão no seu melhor, assim como a parte técnica. Raros são os filmes que proporcionam ao espectador uma imersão tão completa. Após o término do filme, é possível que você ainda sinta que está dentro daquela igreja do Bronx.