Esquadrão Relâmpago Changeman


Lá pelos idos de 1989, época em que eu cursava a terceira série, havia um garoto da classe meio recluso que, por crueldade de alguns colegas, era chamado de Gyodai, numa daquelas brincadeiras de criança que podem afetar profundamente quem é o alvo das piadinhas. Gyodai (ou guiodai) pra quem não lembra, era o monstrinho irracional do seriado Changeman que possuia um olho dentro da boca e gritava o próprio nome (“Guiodaiaiaiai!”) antes de transformar, com um raio, vilões recém-falecidos em criaturas gigantescas.

Esse tipo de lembrança deve acontecer com muito marmanjo atual que foi criança ou adolescente no final dos anos 80, auge dos seriados japoneses transmitidos no Brasil pela extinta emissora de televisão carioca Rede Manchete. E não é coisa rara, vide vários “revivals” (baladas com músicas da década retrasada) que ocorrem por aí. Nesse sentido, para a alegria desse pessoal, tal qual ocorreu recentemente com “Jaspion”, chega ao Brasil, em DVD, os 55 episódios do “Esquadrão Relâmpago Changeman”, série que revolucionou a franquia dos Super Sentais, seriados nipônicos de supergrupos formados por cinco pessoas, geralmente três homens e duas mulheres, como Google V e Maskman.

changemanumExibido originalmente na terra do sol nascente entre 2 de fevereiro de 1985 e 22 de janeiro de 1986, pela TV Asahi (com produção da Toei Company), Changeman sucedeu Bioman e antecedeu Flashman  – que também fez sucesso por aqui – entre os Super Sentais. No Brasil, a série pôde ser conferida primeiramente em vídeo, graças a cópias distribuídas pela então Everest Vídeo (depois Tikara Filmes) e somente em 1988 chegou à televisão pela Manchete (posteriormente Record e Gazeta transmitiram as aventuras do grupo). Virou febre. Álbum de figurinha, bonecos, máscaras, peça teatral encenada dentro de um circo, e uma infinidade de produtos fizeram a alegria da garotada, que sabia de cor gritos como “Change Dragon” ou simplesmente “Esquadrão relâmpago… Changeman!”.

A saga dos cinco combatentes do crime não é tão diferente de outras do gênero – uma ameaça alienígena pairava sobre a Terra. No caso, o bandidão era Bazoo, que junto com seu império Gozma criou o caos ajudado por monstros, guerreiros e os medonhos soldados hidler. E os escolhidos pela misteriosa “força terrena” para combater o mal foram cinco jovens militares.

Os roteiros praticamente se repetiam a cada capítulo. Os Changeman (Dragon, Grifphon, Pegasus, Mermaid e Fênix) enfrentavam um vilão enviado por Bazoo e o derrotavam com a Power Bazooca. Aí surgia Gyodai, que transformava o defunto em um ser gigantesco. Os heróis convocavam o Change-Robô e o pau comia novamente. Cada história trazia uma mensagem sobre amizade, esperança, mesclando aventura, ação e comédia – perto de seu desfecho, o seriado ganhou tons dramáticos, com a morte de alguns vilões, em tom quase shakespereano.

Alguns personagens tornaram-se célebres, em especial os vilões. Além de Gyodai, que de tão deslocado e maltratado pelos próprios colegas de vilania, causava simpatia no público (ele chega a virar amigo dos heróis nos últimos episódios), havia o Pirata Espacial Buba, espécie de versão tosca do Predador, e Shiima, que, vítima de uma maldição, passou boa parte da série com voz de homem (muita gente que pegou o bonde andando, na época, achou que fosse defeito da dublagem!), obtendo a voz feminina somente perto do final.

“Changeman” ainda serviu para acrescentar algumas novidades aos seriados Super Sentai.  Foi a primeira série do gênero em que as integrantes femininas fugiam ao padrão de vestir rosa ou amarelo (Change Mermaid usava uniforme branco), a ter um aumentador de monstros, e a precursora a contar com uma arma de fogo para destruir os inimigos: a já citada Power Bazooka.

O sucesso e sua influência foram tão grandes que depois outros seriados pegariam emprestadas todas essas inovações. Gyodai, por exemplo, pode ser considerado ancestral de criaturas como Medusan, em “Flashman”, e Okelamp, de “Maskman”. As armas de fogo superpoderosas também seriam marca registrada de outras equipes e até o Ocidente pegou carona no filão, mas de forma muito mais tosca: os Power Ranges que o digam.

Ah, sobre aquele meu colega de escola, ele cresceu e, ainda bem, parece não carregar traumas daquela época. Ótimo box ainda traz trailers e galeria de fotos.

PS: Este jornalista é um desses marmanjos saudosistas…

ESQUADRÃO RELÂMPAGO CHANGEMAN
(Dengeki sentai Chenjiman, Japão, 1985-86).
Direção: Minoru Yamada. Roteiro: Hirohisa Soda.
Elenco: Haruki Hamada, Kazuoki Takahashi, Shirô Izumi, Hiroko Nishimoto, Mai Ooishi, Kana Fujieda, Masaru Fujimaki, Yoshinori Okamoto, Shôhei Yamamoto.
Ação / Fantasia / Aventura.
616 min.
Áud: Dolby Digital 2.0 (Ing e Port); Leg: Port.

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André Azenha
André Azenha

Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora quinzenalmente com a Rádio CBN Santos e assina o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. É membro da Abraccine - Associação Brasileira dos Críticos de Cinema. Ministra cursos e palestras sobre crítica de cinema e jornalismo cultural. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos.