Foi Apenas um Sonho

foi apenas um sonhoFoi Apenas um Sonho (Revolutionary Road, EUA, 2008). Direção: Sam Mendes. Roteiro: Justin Haythe, baseado na obra de Richard Yates. Elenco: Kate Winslet, Leonardo DiCaprio, Kathy Bates, Richard Easton, Michael Shannon. Drama. 119 min. (Cor).

Você leva a vida que sonhou? É feliz onde trabalha? Ama a pessoa com quem vive? Ama seus filhos? Seria infeliz se deixasse seus desejos de lado para trabalhar em algo que detestasse para poder alimentá-los? Foi Apenas Um Sonho, dirigido por Sam Mendes, e com roteiro adaptado por Justin Haythe (Refém de Uma Vida, 04) a partir do romance escrito por Richard Yates, levanta essas questões e ao fim da projeção pode deixar um gosto amargo na boca do espectador. Não é um filme fácil. E sim um retrato denso do que acontece quando o amor entre um casal acaba. Tem o mérito de gerar reflexão a quem o assiste e conta com uma atriz talentosa em interpretação intensa.

Com Beleza Americana (1999), sua estréia no cinema, Sam, que até então era diretor de teatro, levou o Oscar pelo filme que despia o estilo de vida suburbano americano e a relação corroída de um casal de meia idade, cujas frustrações acumuladas com o passar do tempo serviram de estopim para a destruição da família aparentemente perfeita. Seu novo trabalho tem certas semelhanças com o longa de uma década atrás, mas saem a ironia e o cinismo, para darem lugar à desesperança.

Pela primeira vez o cineasta trabalhou com sua esposa, a atriz Kate Winslet, que voltou a contracenar após 12 anos com o astro Leonardo DiCaprio. Porém, diferente do romance hollywoodiano de Titanic, para a frustração daqueles que esperavam o final feliz que não houve naquela produção, os atores vivem duas pessoas que ao invés de lutarem pelo amor eterno, brigam para poderem suportar suas vidas. Não é um conto de fadas, mas a realidade nua de crua, e por isso indigesta.

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A trama retrata Frank (DiCaprio) e sua esposa April (Kate Winslet) desde o primeiro encontro. Narrado de forma não-linear durante a sua primeira metade, o filme vai apresentando os personagens principais e os que orbitam ao redor de sua casa, na Revolutionary Road do título original, subúrbio de Nova York.

Tudo parece perfeito. A casa é grande e bonita. A vizinhança tranquila. Recebem com certa frequência a visita de um casal de vizinhos que os invejam e admiram, e da corretora de imóveis (Kathy Bates) que lhes vendeu a casa e que vai à residência com o marido (Richard Easton) e o filho com problemas mentais (Michael Shannon). Uma bela vizinhança, silenciosa, numa certeira metáfora para a forma como as pessoas mantém as aparências.

E é por esse “vazio desesperançoso da vida” (que inclusive os leva à traição), como dizem os protagonistas, que Frank e April decidem se mudar para Paris, onde ela trabalharia como secretária em algum órgão do governo americano e ele ficaria livre para estudar, viver e encontrar algo que o agrade em vez de ficar enfurnado em um cubículo de um trabalho que odeia e encara apenas para garantir o pão de cada dia.

Só que a vida não é um conto de fadas e uma série de fatos faz com que os dois se afastem cada vez mais. Ambos até tentam em certos momentos o entendimento. Mas o estrago está feito.

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Mendes vai direto ao ponto e mergulha a platéia na relação que vai se definhando. Os diálogos são de uma verossimilhança que muita gente pode lembrar algum fato vivido. E não estranhe quando, em determinadas cenas, o mais improvável personagem parecer a única pessoa sã no meio das outras “normais”.

Foi Apenas Um Sonho conseguiu três indicações ao Oscar – Figurino, Direção de Arte e Ator Coadjuvante, para Michael Shannon, que aos poucos vai galgando importantes degraus em sua carreira (já havia se destacado no bom suspense Possuídos). E o longa poderia ter recebido mais uma indicação, não fosse Kate Winslet indicada por O Leitor para Melhor Atriz.

Sua interpretação intensa catalisa as atenções enquanto está em cena. Vencedora do Globo de Ouro de Atriz  por sua atuação nesse longa, a inglesa há tempos merece o reconhecimento das grandes premiações. Não é uma produção perfeita (DiCaprio continua parecendo jovem demais ao lado de Kate), e nem fácil de encarar – há quem irá reclamar que o casal se queixa de barriga cheia.

E sabe aquelas perguntas do início desse texto? O filme não responde exatamente a nenhuma delas. Mas por conseguir gerar discussões, fazer refletir, e contar com atores competentes, é um longa que merece a sua chance, goste você do que irá ver/lembrar  ou não.

9,0

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André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

One thought on “Foi Apenas um Sonho

  1. Não vi, mas quero ver.
    Talvez a única objeção para assistir o filme, é de não vê-lo ao lado de sua esposa ou mesmo possível companheira, pois esta realidade pode levá-la a pensar que os homens querem dizer algo com o enredo mostrado. Sabe como são as mulheres. Então, como disse, verei o filme e imagino que, para os casados, é melhor ver cada um na sua, sem essa de chegar em casa, dizendo: “Amor, olha só o filme que aluguei”. Mas esta é a pura imaginação masculina fluindo neste momento…rs.
    Ótima descrição do filme André.

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