Entrevista – Valsa Binária

Por: André Azenha

Fotos: Divulgação/Arquivo Valsa Binária

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                                                                          Capa do EP que tem quatro músicas

Gardenais, banda de rock mineira, foi um dos destaques do cenário independente roqueiro brasileiro nos últimos anos, tendo colocado na praça um dos discos mais belos na década, “Lindo Triste Mundo”, coleção de canções bem arranjadas, com melodias e letras bacanas – destaque para o hit “Ele Não Pensa em Mais Nada”. Mas o quarteto deu um tempo nas atividades e o guitarrista Leonardo Alencar de Moraes, ou simplesmente Leo Moraes – que também é produtor – não tardou em se envolver em outros projetos musicais. Entre eles, está a Valsa Binária, banda formada por ele e Rodrigo Valente (bateria), Gustavo Saiani (guitarra, trombone, flauta, teclado) mais Alex Reuter (baixo). Este ano, os quatro soltaram na praça um EP com quatro ótimas canções, que podem ser conferidas nas páginas da nova banda tanto do MySpace como do Trama Virtual.

Além da guitarra, Leo também agora atua no vocal e faz as letras. As faixas unem melodias memoráveis, com riffs e arranjos certeiros, entre elas a divertida e acelerada “Tiramisu” e a pungente “A Mais Bonita”.

Curiosamente, Leo, hoje com 37 anos músico desde os 15, acabou seguindo o caminho profissional em virtude de uma especialização em acústica, feita após ter se formado em arquitetura. Atualmente ele realiza projetos de estúdios, auditórios e outros locais que ambientam o universo musical. Sobre suas preferências artísticas, comenta: “Minhas primeiras influências foram as coisas que minha mãe escutava quando eu era pequeno, Beatles, Chico Buarque, Simon and Garfunkel, Bob Dylan, Frank Sinatra. Nos anos 80, quando comecei a tocar, o que eu ouvia eram as bandas de sucesso da época, The Cure, U2, Titãs, Paralamas, Dire Straits e também ‘descobri’ um lado da MPB diferente do que minha mãe curtia, como Caetano, Lô Borges, Novos Baianos… No geral, gosto de melodias. Aquelas músicas que são bonitas mesmo sem qualquer acompanhamento, tirando todos os arranjos, efeitos e firulas. Burt Bacarach é um mestre nisso”, diz ele.

Em conversa exclusiva com o CineZen, Leo falou do nascimento da Valsa Binária, previsão para o lançamento do CD e o processo para compor as faixas do EP, que mantém as melodias assobiáveis e as guitarras dos Gardenais, mas difere-se ao incluir outros instrumentos, cortesia da versatilidade de Gustavo Saiani. “Eu não diria que tive a preocupação de não soar parecido com Gardenais, até porque acho natural que algumas coisas possam se parecer e não é a intenção do Valsa Binária ser uma ruptura sonora com os Gardenais. Mas até pelo fato de eu estar cantando, e de em várias músicas a guitarra principal ficar por conta do Gustavo, acho o som do Valsa bem diferente. Inclusive algumas das músicas acabaram não entrando no repertório dos Gardenais por serem de fato incompatíveis com a proposta da banda”, explica Leo.

Leonardo ainda comentou o cenário musical independente brasileiro, seu trabalho frente ao estúdio Pato Muldimídia, que o possibilita viver da música, e reverenciou o Little Joy, de Rodrigo Amarante. “É um cara que poderia entrar no palco sempre com o jogo ganho e optou por fazer um disco em inglês e uma turnê nos Estados Unidos com estrutura de banda independente, tocando pra um público que não o conhece. Isso além do disco ser lindo, com canções singelas e uma sonoridade muito particular”, diz o guitarrista. Abaixo, a conversa completa.

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                                     Leo se divide entre a Valsa Binária, seu estúdio e outros projetos musicais

Como surgiu a idéia de formar o Valsa Binária?
Leo Moraes – m dia encontrei em um bar com o Alex Reuter (baixista) e o Rodrigo Valente (baterista). A banda deles (Carol nas Nuvens) tinha acabado de se dissolver e eles estavam planejando chamar outras pessoas para tocar. Eu estava começando a estudar trompete e me voluntariei para entrar como trompetista. Marcamos um ensaio, os três, e eu levei também minha guitarra. Acabamos tocando umas músicas que eu tinha composto havia tempo, mas que não se encaixavam na proposta dos Gardenais. Ficamos um tempo procurando vocalista, e enquanto isso eu mesmo ia cantando. Depois fomos sentindo a necessidade de ter outro integrante, e chamei o Gustavo Saiani para a banda. A versatilidade dele, que toca guitarra, teclado, trombone e flauta, deu à banda possibilidades bem legais de variações sonoras. A possibilidade de cantar, e o clima aberto e divertido dos ensaios me motivou a compôr mais, e em pouco tempo tínhamos várias músicas ensaiadas.

O Valsa Binária é um projeto definitivo? Você pretende seguir em frente tanto com a banda, como com o Gardenais?
L – “Definitivo” é uma palavra meio forte, mas estamos terminando a gravação do CD, vamos participar da coletânea “Membrana Música”, a ser lançada em agosto e temos nosso primeiro show marcado para junho. Por enquanto estamos nos divertindo e não temos planos de parar. Todos temos outros projetos, eu com os Gardenais (que estão de férias coletivas, Caio e Bruno às voltas com a big band Continental), com o Flávio Bertola e os Noctívagos, com o Sérgio Manto, e com o estúdio, o Valente também toca com uma banda chamada “Sinatras” e o Gustavo, além de ter um trabalho solo de jazz, é artista plástico (www.gustavosaiani.com), inclusive a pintura da capa é dele. É uma tendência saudável a coisa de “banda é igual casamento” estar acabando. Quando se tem liberdade de tocar com outras pessoas, fazer outras coisas, a pressão sobre a banda diminuí e a coisa acaba fluindo de forma mais natural. Um caso legal é o do pessoal da Orquestra Imperial, todos ali têm diversos trabalhos paralelos, e o convívio que tive com eles me fez abrir a cabeça e ter uma visão diferente do que é ser um profissional da música.

Já existem quatro músicas do EP. Quando poderemos ouvir um álbum completo da banda?
L – Bem, como o Gustavo mora no Rio, as gravações estão sujeitas à possibilidade dele vir a Belo Horizonte. Além das quatro que já estão rodando temos mais oito músicas bem adiantadas e a expectativa é de lançarmos o CD na sequência da coletânea “Membrana Música”. Acredito que em setembro o CD completo esteja no site.

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                                                               Gustavo toca guitarra, flauta, trombone e teclado

Você também comanda um estúdio. Como conciliar tantos projetos?
L – Meu estúdio, o Pato Multimídia (www.patomultimidia.com.br), é a concretização do meu sonho de viver de música. Além de trabalhar diariamente com o que mais gosto, o estúdio me possibilita uma liberdade de criação muito grande. E lá trabalhamos (eu, Sérgio Ribeiro , Cassiano Rabelo e Bruno Ducca) também com vídeo, design, editoração, etc. Quanto a conciliar vários projetos ao mesmo tempo, eu acho que a gente sempre acha tempo pra fazer o que gosta. Quando eu trabalhava em escritório de arquitetura eu não me importava de ensaiar até tarde da noite, por mais cansado que estivesse, eu até relaxava e tirava a cabeça dos problemas do cotidiano. Agora é um pouco diferente, pois eu passo, por exemplo, o dia todo mixando ou gravando uma banda e depois do “expediente” ainda vou gravar e mixar a minha banda. É tipo uma jornada dupla. Mas eu não trocaria isso por nenhum outro trabalho.

Qual foi o processo para compor as canções do EP? As influências, a preocupação para não soar parecido com o Gardenais…
L – Como eu disse anteriormente, algumas músicas eu já tinha guardadas e outras eu fui fazendo embalado pelos companheiros de banda. Eu fazia uma parte, mostrava pro pessoal e a gente ia mexendo, experimentando. O que mais gosto de trabalhar em conjunto é como as pessoas apresentam soluções completamente diferente do que imaginamos e, mesmo que a princípio achemos estranho, depois aquilo acaba se mostrando melhor do que a idéia inicial. Quanto a influências, eu sempre acho difícil definir, porque nunca fazemos nada pensando “vou fazer uma música tipo aquela”, mas tudo o que ouvimos acaba sendo absorvido e de uma forma ou de outra aparece no trabalho. Eu não diria que tive a preocupação de não soar parecido com Gardenais, até porque acho natural que algumas coisas possam se parecer e não é a intenção do Valsa Binária ser uma ruptura sonora com os Gardenais. Mas até pelo fato de eu estar cantando, e de em várias músicas a guitarra principal ficar por conta do Gustavo, acho o som do Valsa bem diferente. Inclusive algumas das músicas acabaram não entrando no repertório dos Gardenais por serem de fato incompatíveis com a proposta da banda.

Qual sua opinião sobre o cenário independente musical no país atualmente? E em Minas Gerais?
L – Acho que a liberdade hoje é muito grande e a organização que faltava está começando a ser vista em iniciativas que pipocam pelo país. Ainda existem muitos mitos que precisam ser quebrados sobre a indústria fonográfica, o home studio, a divulgação online, etc, mas a medida em que mais e mais artistas se profissionalizam e passam a encarar a carreira como uma profissão séria, sem delírios de estrelato, a coisa vai ficando melhor pra todo mundo. Aqui em Minas temos o exemplo do BH Indie, que abriu espaço para centenas de bandas tocarem e interagirem. A coletânea “Membrana Música”, que estamos produzindo, vai lançar nacionalmente nove bandas: Velásquez, Valsa Binária, SkivaZae, Sinatras, Sérgio Manto, Paz-Me, Bertola e os Noctívagos, Antenafobia e Advogados de Havana. São artistas com trabalhos consistentes e que esperamos que com o “empurrão” de um lançamento de porte consigam consolidar suas carreiras e alcançar um público maior.

Cite um artista um disco preferidos.
L – Nossa, são tantos… Vou falar o Little Joy, pela ousadia do Rodrigo Amarante. É um cara que poderia entrar no palco sempre com o jogo ganho e optou por fazer um disco em inglês e uma turnê nos Estados Unidos com estrutura de banda independente, tocando pra um público que não o conhece. Isso além do disco ser lindo, com canções singelas e uma sonoridade muito particular.

Quais os projetos para o resto do ano?
L –
Valsa Binária, Membrana e Pato Multimídia. Pretendo também tentar tirar uma semaninha pra ficar na praia de papo pro ar.

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Entrevista com Caio Ducca, dos Gardenais

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

3 thoughts on “Entrevista – Valsa Binária

  1. Parabéns pela matéria, estamos ansiosos por Agosto. Valeu!!!

  2. Grande Léo! Antenado em novidades desde criança, Léo sempre foi uma pessoa que traz a vanguarda aos felizardos que lhe cercam. Me apresentou o Macintosh assim que chegou dos EUA, e voltei a estudar inglês por sua influência. Grande abraço de Curitiba, caro amigo!

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