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Ex-presidente americano é poupado em cinebiografia dirigida por Oliver Stone
Por André Azenha, editor (23/05/2009) // Comente

Por: André Azenha

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W (Idem, EUA, 2008). Direção: Oliver Stone. Roteiro: Stanley Weiser. Elenco: Josh Brolin, Elizabeth Banks, Thandie Newton, James Cromwell, Ellen Burstyn, Ioan Gruffudd, Jeffrey Wright. Drama biográfico. 129 min. (Cor).

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Nos textos do amigo e jornalista Eduardo Abrantes aqui no CineZen, sobre filmes que retratam a Segunda Guerra Mundial, ele questiona, de forma inteligente, se é possível evitar que uma figura pública detestável seja retratada num filme de forma caricata ou ao modo de um “demônio”. Pois em “Hitler – A Ascensão do Mal”, há momentos da infância do ditador nazista que beiram o nonsense – naquela produção, o führer já possuía uma feição “maligna” desde a infância, como se fosse o garotinho de “A Profecia”. O equívoco não foi repetido em “A Queda – As Últimas Horas de Hitler”, onde o antigo chanceler ganha um caráter mais… hum… humano (e que fique claro, entenda-se “humano” pessoas falíveis, serenos, loucos, inocentes, assassinos, etc).

Em “W”, filme que narra a vida de George W. Bush, o diretor Oliver Stone parece ter tentado, de alguma forma, evitar com que uma das figuras públicas mais odiadas, desprezíveis e execráveis deste século fosse mostrada como Hitler em “A Ascensão do Mal”. Pelo contrário, o que encontramos é um filho incompreendido, carente, marido apaixonado, político devotado em “criar” um mundo sem violência, que somente derrapa devido ao vício em álcool, e à incompetência para administrar negócios da família.
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Acontece que Hitler teve décadas e décadas para personificar o diabo e ser mostrado repetidamente, no cinema, como o demo em pessoa, algo que virou clichê. Bush Jr. não. Ele ainda é carne-fresca e o mal feito por ele aos EUA e o resto do mundo continua refletindo no planeta. E é normal que a platéia (incluindo este jornalista) deseje ver na tela denunciados os oito anos de crimes e sujeiras comandados por ele. Por isso, chega a ser broxante assistir “W”.

Se anteriormente Oliver Stone criticou a mídia, no ótimo“Assassinos Por Natureza”, e esmiuçou a morte de John Kennedy, em “JFK – A Pergunta Que Não Quer Calar”, aqui ele fica anos-luz aquém da força de seus trabalhos anteriores, contentando-se em mostrar de forma quase afável o político americano, utilizando o manjado método de alternar cenas do presente e do passado. No caso, uma reunião entre Bush Jr., já presidente, junto à sua corja (Condoleezza Rice, Dick Cheney, Donald Rumsfeld, Karl Rove, Colin Powell, George Tenet e Paul Wolfowitz), com a trajetória do personagem (seu relacionamento tempestuoso com o pai, de quem desejava sair da sombra, o alcoolismo, etc), tudo sem maior aprofundamento ou questionamento – e para quem conferiu o documentário “Fahrenheit 11 de Setembro”, de Michael Moore, que chegava a abordar o envolvimento da família Bush com o comércio armamentista, a sensação de frustração, em “W”, será ainda a maior.

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O filme não chega a ser uma bomba completa, é superior ao último trabalho de Stone, o chato “Torres Gêmeas”, recria com esmero a ambientação de algumas passagens históricas (como discursos e gafes cometidas nestes instantes), e o elenco é esforçado. Josh Brolin (“Onde Os Fracos Não Têm Vez”, “O Gângster” e “Milk”) incorpora os trejeitos do político, enquanto Thandie Newton (“Crash – No Limite”) e Jeffrey Wright (dos dois últimos “007″) são praticamente respectivas clones de  Condoleezza Rice e Colin Powell. Ela, por sinal, encarna quase perfeitamente a secretária de estado dos EUA. Elizabeth Banks (“Três Vezes Amor” e “O Virgem de 40 Anos”)  e Toby Jones (“O Despertar de Uma Paixão“, “O Nevoeiro” e “Confidencial“) também não comprometem nos papéis de Laura Bush e do conselheiro Karl Rove.

Mas a obra falha enquanto cinebiografia. Na falta de detalhes dos bastidores do governo e da vida íntima de Bush Filho, o roteiro trata de “imaginar” o que teria ocorrido em alguns momentos-chave da história do W., mas fica difícil se envolver. O maior problema em acreditar no protagonista – e acreditar não é gostar ou detestar, mas crer no que o personagem tenta passar ao espectador – são fatos recém-ocorridos, latentes na mente de bilhões de pessoas ao redor do globo, que dificilmente simpatizam com o ex-presidente americano.

E sem querer soar didático ou panfletário, o lugar de George W. Bush, na história da humanidade, é ao lado de figuras como Hitler, Idi Amin, e outros doentes e lunáticos que levaram o caos (no pior sentido da palavra) à sociedade. Se incontáveis famílias de judeus sofreram horrores nas mãos do nazista, com certeza os parentes de civis afegães e iraquianos, mortos durante as invasões americanas nestas duas nações do Oriente Médio, não possuem um sentimento muito diferente daqueles que perderam familiares durante o Holocausto. A diferença é que Bush soube criar um disfarce melhor, e por enquanto, o melhor filme que aborda este ser desprezível, continua sendo “Fahrenheit 11 de Setembro”.

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André Azenha é jornalista, editor dos sites CineZen e CulturalMente Santista, autor do livro Poesia a Quatro Mãos, feito em parceria com sua mãe, a poetisa Regina Azenha. Trabalhou com o crítico de cinema Rubens Ewald Filho, escreveu para a revista Época São Paulo e colabora com veículos de imprensa de vários estados. Em 2011, mediou o ciclo Documentários Comentados, no SESC Santos. É assessor de imprensa e realiza encontros culturais, a maior parte de caráter beneficente.


Lutador, ONoite no Museu 2, Uma

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