Nova York, Liverpool, Marlon Brando, Beatles e os portos

A relação entre o clássico "Sindicato dos Ladrões" e o musical "Across The Universe" com a vida portuária é analisada pelo jornalista Alessandro Atanes
Por Alessandro Atanes (22/05/2009) // Comente

Por: Alessandro Atanes

Texto originalmente publicado no site PortoGente

1

sindicato1Sindicato dos Ladrões (On the Waterfront, EUA, 1954). Direção: Elia Kazan. Roteiro: Budd Schulberg, baseado em estória de Budd Schulberg. Elenco: Marlon Brando, Karl Malden, Lee J. Cobb, Rod Steiger, Eva Marie Saint. Drama. 108 min. (PB).

Além de suas qualidades estéticas, dois filmes que por coincidência vi no mesmo domingo parecem, para mim pelo menos, uma boa oportunidade para tratar mais uma vez das relações entre história e ficção por meio dos espaços portuários: “Sindicato dos Ladrões”, no qual o sindicato dos estivadores é comandado por criminosos, e “Across The Universe”, em que canções dos Beatles contam o século XX.

O nome do filme pode fazer com que o espectador portuário não se sinta atraído, mas não foi o diretor que traduziu “On The Waterfront” para “Sindicato dos Ladrões” para o público de nosso País. Um tradutor nascido em porto brasileiro quem sabe teria transcriado o título para “À Beira-mar”, “Na Orla” ou ainda “No Estuário”, nomes mais próximos do original e que, assim como ele, sugerem a ligação das pessoas a um determinado espaço, ao qual pertencem. É aí que está a força desse filme de 1954 dirigido por Elia Kazan. O título brasileiro, que nos limita ao componente ligado ao crime, dificulta essa forma de ver o filme. Incrível o que uma tradução mal feita pode fazer.

Logo no início, pouco tempo depois do assassinato da abertura, um dos estivadores comenta que o porto é um espaço à parte: é “como se fosse fora do país”. Essa é questão do filme: não é a covardia, mas o isolamento do espaço portuário que impede os estivadores de buscar a proteção das autoridades, que, por sua vez, criminaliza a todos. Na primeira oportunidade, contudo, os estivadores buscam a reação, quando, chamado a agir pela irmã do homem assassinado, o padre local convoca uma reunião. Sua enunciação é a de quem se vincula ao espaço:

– Esta é a minha paróquia!

sindicatodois

É o pertencimento ao porto, e não à cidade, que explica o pacto de silêncio que permite à máfia tomar aquele lugar. E só um aliado interno, no caso o padre da paróquia, que consegue romper a inércia. Outro componente narrativo que estimula a ação vem do campo do melodrama: é o amor do personagem de Marlon Brando pela irmã do amigo que havia morrido. Só nessa situação ele nota que o irmão mafioso a quem sempre protegeu deveria ser arrancado do sindicato.

A partir daí, a história caminha para um desfecho em que a mudança da configuração interna do espaço portuário segue em direção ao clímax e desfecho. Um tipo parecido de isolamento percebemos no enredo do romance “Navios Iluminados” (Ranulpho Prata, 1937), no qual os personagens mal deixam o bairro portuário do Macuco, saindo dali apenas em ocasiões especiais, como quando o portuário protagonista se desloca à casa de um figurão para pleitear uma vaga na estiva. Nesse romance, assim como no filme, o bairro portuário se configura mais como um apêndice do cais do que uma parte efetiva da cidade.

Em “Sindicato dos Ladrões”, o porto está por todos os lados. Notamos isso nas cenas que ocorrem nos telhados dos prédios pobres da área portuária, em que personagens cuidam de pombos, ou quando um grupo de estivadores foge pelos telhados após a reunião na igreja da qual são perseguidos por mafiosos.

Bem, será que a pessoa que determinou o título no Brasil pisou na bola por descuido, por preconceito de classe ou por motivação ideológica contra os grupos sindicais? Apesar de suas próprias decisões éticas, Kazan não fez o filme para que as pessoas tivessem a oportunidade de repetir as coisas que já acham do mundo, como o preconceituoso:

– Tá vendo? Sindicato só tem ladrão mesmo!

Ou o famigerado:

– É culpa do sistema!

O filme é um espetáculo de imagens de forte impacto que confirma aquele postulado de Franco Moretti de que cada espaço encoraja seus próprios tipos de histórias. O componente histórico do filme se encontra justamente nesta apresentação que faz de um local de trabalho isolado por suas características próprias de regime de trabalho que promovem, em razão disso, uma específica cultura e modos de estar no mundo.

2

acrossAcross The Universe (Idem, EUA, 2007). Direção: Julie Taymor. Roteiro: Dick Clement e Ian La Fresnais, baseado em estória de Julie Taymor, Dick Clement e Ian La Fresnais. Elenco: Jim Sturgess, Evan Rachel Wood, Joe Anderson, Salma Hayek, Dana Fuchs, Bono Vox, Joe Cocker. Musical. 131 min. (Cor).

Para quem a música dos Beatles é sempre um bom programa, “Across The Universe” já vale a locação. Qualquer um pode não gostar de uma ou outra música (eu não gostei de “Helter Skelter”, por exemplo), mas a qualidade das versões é indiscutível e grande parte delas é muito inventiva. Para completar, somos brindados ainda com participações especiais de Joe Cocker, Bono Vox e Eddie Izzard. Os dois últimos encarnam personagens como Dr. Robert, canção de George Harrison, do álbum “Revolver”, de 1966; ou Mister Kite de “Being for the benefit of Mr Kite”, de John Lennon, do “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, de 1967.

Já os protagonistas, no caminho inverso, encarnam os títulos: Jude, um doce jovem estivador de Liverpool, e Lucy, a ativista sonhadora, formam o casal que se apaixona na Nova York da década de 60. Temos ainda a cantora Sadie – de “Sexy Sadie”, de Lennon, do chamado “Álbum Branco” – e Rita, de Paul McCartney, da canção “Lovely Rita”, também do “Sgt Pepper’s”. E as referências continuam por todo o filme…

Mas em “Across The Universe” o porto desempenha uma função narrativa diferente da que exerce em “Sindicato dos ladrões”. No musical, Liverpool é ponto de partida de Jude, assim como foi para os próprios Beatles (eles tocaram por muito tempo também nos bares do porto de Hamburgo, na Alemanha), e a viagem de Jude, além de uma jornada pessoal, é também uma viagem por parte da história do século XX.

acrossporto

O motivo de viajar embarcado até o continente americano é que Jude tem uma origem comum a muitos dos garotos que formariam aquelas bandas nos anos 60, isto é, foram concebidos em encontros entre soldados aliados e jovens inglesas durante a Segunda Guerra. Jude parte para encontrar seu pai, um ex-soldado dos Estados Unidos. É a sua geração, a dos filhos da guerra, que promove o que o historiador Eric Hobsbawn chamou de revolução cultural dos anos 60. Assim, e com o apoio narrativo das canções, o filme consegue traçar uma relação direta entre jornada individual e sucessão histórica dos fatos. E ao dar nomes de canções aos personagens, o filme ainda promove uma pequena história do trabalho artístico de John, Paul, George e Ringo Starr, uma espécie de almanaque afetivo.

Epílogo
Em comum nos dois casos, a manifestação de como por meio do uso que fazem dos espaços portuários, os filmes conseguem trazer as questões históricas para o espectador sem que este precise ser lembrado que a história é “baseada em fatos reais”, uma verdadeira praga que faz com que a colaboração da ficção para o conhecimento das coisas do mundo fique limitada à confirmação dos fatos. Cabe ao cinema, bem como à literatura e artes em geral, propor reflexões que, por meio da expressão estética, só o campo da ficção pode oferecer à sociedade. É o que fazem estes dois filmes portuários.

Leia também

Os Cinco Rapazes de Liverpool (Por: Alessandro Atanes)

Across The Universe (Por: André Azenha)

Help!

Conteúdo relacionado:



Entre LençóisO Corajoso Ratinho Despereaux

Escreva seu comentário

Campos obrigatórios