Fiel – O Filme

Dirigido e escrito por corinthianos, documentário é eficiente ao conseguir emocionar seu público alvo
Por André Azenha, editor (26/04/2009) // 6 comentários

Por: André Azenha

Antes de tudo, é bom avisar que o autor deste texto é corinthiano. Não um torcedor cego, que deixa de viver por causa do futebol. Mas um torcedor apaixonado. Então não esperem um texto 100% isento, pois assim como aqueles representados no documentário, eis aqui um ser humano extremamente passional.

fiel

Fiel – O Filme (Idem, Brasil, 2009). Direção: Andrea Pasquini. Roteiro: Serginho Groisman e Marcelo Rubens Paiva. Documentário. 92 min. (Cor).

10,0

No início da projeção o expectador é informado: “Um filme oficial do Sport Club Corinthians Paulista”, o que já defini o seu público alvo. Dirigido e escrito por corinthianos fanáticos, “Fiel – O Filme” é extremamente eficaz perante sua finalidade: emocionar o corinthiano.

No primeiro final de semana em cartaz no país, o longa arrecadou mais que outro documentário sobre futebol, “Pelé Eterno”.  Esse fator ganha maior projeção devido o fato da obra cinematográfica não ser um veículo para o apreciador do futebol em âmbito geral, como acontecia com o antigo Canal 100, mas um registro primoroso da relação religiosa e intensa de pessoas de todas as classes sociais para uma agremiação fundada por operários, num tempo em que o futebol era esporte de gente rica.

Em 2010, o Sport Club Corinthians Paulista comemora o seu centenário, e “Fiel” foi a largada para uma série de documentários que irão mostrar eventos importantes da trajetória do clube – quem produziu foi a mesma empresa que realizou o DVD (leia bem, DVD, nem chegou perto de passar nos cinemas) de um certo time do Morumbi.

“Fiel – O Filme”, cujo título define bem o perfil do torcedor corinthiano, não tem a intenção de recontar a história do Corinthians, e é focado num momento crucial para sua torcida: o período entre o rebaixamento do time para a Segunda Divisão do Campeonato Brasileiro, e o retorno no ano seguinte à Divisão principal do futebol nacional.

Porém, não deixa de citar marcos importantes destes cem anos de paixão, como o título do Campeonato Paulista de 1977, que foi a quebra do jejum de 22 anos sem conquistas no Paulistão; o primeiro título Brasileiro, em 1990, e a vitória no Mundial de Clubes da Fifa, dez anos depois. E ainda são lembradas as duas “invasões” corinthianas ao Maracanã, no Rio de janeiro. A primeira contra o Fluminense, pela semifinal do Brasileirão de 1976, quando entre 70 e 80 mil “fiéis” dividiram a arquibancada com a torcida local; e a final do Mundial em 2000, contra o Vasco, jogo que recebeu cerca de 30 mil corinthianos.  Tudo isso sem precisar recorrer a imagens desses jogos, narrado pelos torcedores entrevistados de maneira nostálgica e emocionada.

E essas pessoas, de diferentes etnias e classes sociais (o que representa bem a abrangência da “nação” corinthiana, que possui mais de 22 milhões de pessoas e talvez seja a torcida que melhor represente a diversidade do povo brasileiro), são flagradas com câmera na mão pela diretora, experiente no gênero documentário (fez o premiado “Os Melhores Anos de Nossas Vidas”).

Dessa forma, nos deparamos com suas (nossas) alegrias, o sofrimento e manias (como o garoto que não deixa mais o pai ir ao banheiro durante a transmissão dos jogos, porque em outras ocasiões essa ida ao sanitário aconteceu enquanto ocorreram gols de times adversários), fato que faz a platéia ora ficar com os olhos lacrimejados, ora dar risadas. O torcedor que está assistindo o longa se identifica na hora com o que está sendo mostrado na tela.

Alguns jogadores também foram entrevistados: Dentinho, Lulinha, Douglas, Chicão, entre outros, mas sempre narrando o diferencial de jogar em um time cuja torcida é especial, diferente em relação a qualquer outra, e que sempre acompanha o time onde ele vai.

Não é uma produção realizada por corinthianos para o Corinthians. Mas sim um presente do clube para sua maravilhosa e toda poderosa torcida.

PS: E pra você amigo corinthiano. Vamos combinar. Mesmo sem um estádio com capacidade para receber grandes públicos, e mesmo sem Libertadores, cá entre nós – os dois maiores clichês  – e sem graça – usados pelos torcedores rivais na hora da tiração de sarro. Sabemos que somos mais felizes que todos eles. ;o)-

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André Azenha é jornalista, editor dos sites CineZen e CulturalMente Santista, autor do livro Poesia a Quatro Mãos, feito em parceria com sua mãe, a poetisa Regina Azenha. Trabalhou com o crítico de cinema Rubens Ewald Filho, escreveu para a revista Época São Paulo e colabora com veículos de imprensa de vários estados. Em 2011, mediou o ciclo Documentários Comentados, no SESC Santos. É assessor de imprensa e realiza encontros culturais, a maior parte de caráter beneficente.


Por AmorPrazeres Mortais

6 Comentários
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  1. Vim deixar minha opinião, com base no que li e no video que estou vendo.
    Não torço para o Corinthians, mas uma verdade há que ser dita: a Fiel torcida realmente abala as estruturas.Torcedor do Corinthians, já nasce “corinthiano”, não se deixa influenciar por ninguém, e isso eu digo com certeza absoluta, por ser mãe de um.
    Gostei demais da matéria.
    beijos

  2. Lacrimejei ao ver o cartaz do filme. Achei que expressou de forma grandiosa a importância de nossa torcida. E tem três coisas que queria compartilhar. 1a: Como o autor, sou corinthiano, orgulhoso de nossa torcida e de nosso time, que, mais do que raça, joga com amor. 2a: É lógico que o filme sobre o Corinthians ia chamar mais atenção que o do Pelé. Ele pode ser o rei, mas o reinado ainda é nosso (prova disso foi a vila se curvar ao seu novo rei no domingo). 3a: “És grande no esporte bretão/ o passado ilumina sua história/ ciente da sua missão/ vitória, vitória/ vitória/ corinthians do meu coração/ tu és religião de janeiro a janeiro/ ser corinthiano é ir além de ser ou não ser o primeiro/ ser corinthiano é ser também/ um pouco mais brasileiro”, já diria Toquinho.

  3. Duas colocações: 1- Mostrar Corinthians e sua torcida não é nenhuma novidade. Basta ligar em qualquer canal da TV (aberta ou fechada), que se percebe a “imparcialidade” em relação a este time (e alguns outros, como o Flamengo). É muito mais aceitável quando uma emissora ou um “jornalista” se declara torcedor de qualquer time que seja! Chega de falsas neutralidades! E lembrem-se, mesmo as maiores torcidas são percentualmente insignificantes no total de telespectadores do país.
    2- O documentário “Pelé eterno”, evitado de forma ridícula por muitos torcedores não santistas, traz conteúdo de épocas mais remotas e portanto difíceis de terem documentação audiovisual. É um filme que envolveu grande pesquisa e foi co-roteirizado por um verdadeiro cineasta, o conterrâneo José Roberto Torero. Além do mais, é óbvio que cobre mais o Pelé no Santos, mas também tem ele na Seleção Brasileira; não seria pelo menos um motivo para torcedores de outros times assistirem o filme? Fica aqui o meu desafio aos que ainda duvidam que ele “jogava bem” (e tem gente, principalmente os mais novos…), assistam!
    E eu pensei que este era um blog de cinema…

  4. Olá Marcelo, primeiro de tudo obrigado por visitar o CineZen

    no caso do texto sobre “Fiel – O Filme” a intenção não foi criar uma discussão futebolística fútil e ridícula, mas apenas fazer uma homenagem à torcida corinthiana, já que o filme é voltado para este público exclusivamente, ainda que na divulgação do longa não haja nenhuma frase do tipo “um filme feito só para corinthianos”

    quanto ao “Pelé Eterno”, trata-se de um bom documentário, e duvidar que o Pelé não jogava bem seria sem sentido. Este filme (“Pelé Eterno”) sim, não é voltado apenas à torcida do Santos, mas ao público geral, e por isso mesmo, o fato de “Fiel – O Filme” ter arrecadado mais que “Pelé Eterno” é prova da força mercadológica do primeiro (e o texto no CineZen apenas cita o fato, não desmerece “Pelé Eterno”, utiliza tal dado de forma factual)

    quanto ao Torero, com certeza trata-se de um grande cineasta. “Como Fazer Um Filme de Amor” é um filme divertidíssimo e inteligente. E o talento dele, ou de qualquer outro cineasta que revele seu time de coração, é muito maior e mais importante do que qualquer torcida futebolística.

    Pra encerrar, realmente este não é um blog de cinema, mas um SITE de cinema – o blog do editor (www.cinezencultural.com.br) está linkado na home.

    Obrigado pelo page view e assim que for feito um documentário sobre a torcida do Santos (se for feito), com certeza haverá um texto no site.

    saudações de um time campeão invicto de forma muito justa e que o futebol seja apenas encarado como o que ele é: um esporte que não é mais importante para nossas vidas do que tantos outros fatores

    André – editor do CineZen

  5. A paixão, em todas as suas expressões, é essencialmente arrebatadora. A torcida do Corinthias tem milhares. Milhares de rostos que expressam a intensa paixão que transborda de seus corações e derrama no sangue da Fiel. E como todo amor incodicional, na alegria e na tristeza, sua leal torcida não deixa de se manter presente jurando sentimento mais que devoto até a morte. Adorei saber que tanto amor foi registrado para homenagiar essa poderosa torcida. E toda Linguagem que expressa amor deve ser tratada com grande respeito.

    Dé, ótimo texto!

    Te amo amigo!

  6. André,
    A minha crítica principal é em relação às TVs e aos jornalistas “imparciais”, coisa que torcedores do Santos e da maioria dos outros times estão fartos! E, por conseguinte, o documentário “Fiel” não é uma “novidade” tão grande quanto alguns alardearam. Portanto, qualquer documentário feito sobre o Corinthians (e serão feitos outros) dará aquela audiência ou bilheteria certeira (mas, por outro lado, limitada). A discussão do futebol nas TVs vai muito além e não cabe aqui.
    Minhas colocações sobre o “Pelé eterno” não se referem só ao texto, mas também aos comentários dos participantes…
    E existem sim algumas pessoas despeitadas que duvidam do Pelé. Como falei, geralmente pessoas abaixo dos trinta e poucos anos, que só viveram em função da TV e não se interessam em saber das verdades, da história, dos fatos, não só em relação ao futebol, obviamente. A cultura está muito baixa! Neste ambiente, hoje em dia, com muito pouco se vira ídolo…

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