O Gabinete do Dr. Caligari
O Gabinete do Dr. Caligari (Das Cabinet des Dr. Caligari, Alemanha, 1920). Direção: Robert Wiene. Roteiro: Hans Janowitz, Carl Mayer. Elenco: Werner Krauss, Conrad Veidt, Friedrich Feher, Lil Dagover. Terror / Suspense. 71 min. (PB).
Tanto “O Gabinete do Dr. Caligari” quanto “Nosferatu” geralmente se qualificam como exemplos freqüentes quando a discussão é o expressionismo alemão. “Caligari”, porém, é o que mais condensa a idéia da influência de um movimento artístico na tela do cinema. A direção de arte, a iluminação, os cenários e a fotografia fazem do filme todo um autêntico pesadelo. Um clássico entre os clássicos, “O Gabinete do Dr. Caligari” também contém um dos mais antigos registros de uma técnica facilmente encontrada no cinema de hoje: a reviravolta no final.
Num pequeno vilarejo da fronteira da Alemanha com a Holanda, um misterioso hipnotizador, Doutor Caligari (Werner Krauss), chega acompanhado do “sonâmbulo” Cesare (Conrad Veidit) que, supostamente, estaria adormecido por 23 anos. À noite, Cesare perambula pela cidade, concretizando as previsões funestas do seu mestre, o Dr. Caliga
ri: mortes.
A Primeira Guerra Mundial havia acabado de terminar, e os escritores Hans Janowitz e Carl Mayer se reuniram com a patriótica missão de mostrar para o mundo que a Alemanha enfim havia se tornado pacífica. E nada melhor do que a arte, e a arte bem feita, para passar essa mensagem. Os dois viam o cinema como uma forma de unir diversas artes, desde o escrito até o visual.
A inspiração para a história do horripilante Doutor Caligari e seu show de hipnose veio de experiências pessoais dos autores. Os dois supostamente visitaram uma feira na qual um homem hipnotizava alguém do público, que passava a fazer previsões do futuro e mostrar força sobre-humana. Em seis semanas, concluíram a história. Por meio do produtor Erich Pommer, Janowitz e Mayer conseguiram um acordo com um estúdio modesto, mas que acabou sendo responsável pela identidade de “O Gabinete do Dr. Caligari”: seu estilo expressionista também era uma excelente forma de cortar custos com iluminação.
Entre dezembro de 1919 e janeiro de 1920, “O Gabinete do Dr. Caligari” foi filmado, sob a direção de Robert Wiene. A idéia era chamar o consagrado cineasta alemão Fritz Lang (diretor de “Metropólis”, de 1929), mas ele estava ocupado com outro projeto. A direção ficou a cargo de Wiene, que teria para sempre “O Gabinete do Dr. Caligari” como o seu filme mais famoso e aclamado.
É irônico que uma das primeiras reviravoltas de final da história do cinema não tenha sido obra de um roteirista, mas dos produtores. Eles foram responsáveis por modificar completamente o enredo. A história do Doutor Caligari é contada pelo personagem Francis no início do filme. O Doutor e seu “sonâmbulo”, Cesare, eram responsáveis por diversos assassinatos ocorridos na cidade. Os produtores acharam a idéia muito sinistra, e optaram por transformar tudo em ilusão. Tudo não passa de uma fantasia de Francis, revelada no final com a pista visual de mostrá-lo dentro de um hospício.

Entre os anos 30 e 40, houve várias tentativas de se refazer o filme com som, já na era do cinema falado, uma delas até trazendo o ator Bela Lugosi (de “Drácula”) como Doutor Caligari. Nenhuma se concretizou, porém. Em 1991, saiu “The Cabinet of Dr. Ramirez”, com Joan Cusack, Peter Gallagher e Peter Sellars na direção. Anos antes, em 1962, chegou a ser lançado um “The Cabinet of Caligari”, mas que só fazia referência ao filme de Wiene no título. Em 2005, foi lançado um remake de forma independente, e com falas. Algumas das cenas, inclusive, foram feitas para reproduzir com exatidão aquelas do filme original. Dirigido por David Lee Fisher, ganhou três prêmios no ScreamFest Film Festival.
“O Gabinete do Dr. Caligari” é um espetáculo para todos os sentidos. Como se não bastasse sua história horripilante, até o cenário também tinha que ser. Feito no auge do movimento expressionista na Alemanha, é um instante de genialidade de várias mentes imortalizada para sempre.
10,0 é pouco

Nota do editor: A influência é imensurável, e entre os longas que se inspiraram neste clássico, está “Batman – O Retorno” (1992), de Tim Burton. Desde o Pingüim, interpretado por Danny DeVito, à atmosfera e o visual da produção, remetem ao filme alemão.
“impressionismo alemão”? :O