Tony Manero

Filme chileno é indigesto, mas é um trabalho ímpar. O diretor Pablo Larrain resiste à tentação de reproduzir o clichê de um sonhador com defeitos
Por André Azenha, editor (18/04/2009) // Comente

Por: Ricardo Prado

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Tony Manero (Idem, Chile, 2008). Direção: Pablo Larrain. Roteiro: Pablo Larrain, Alfredo Castro, Mateo Iribarren. Elenco: Alfredo Castro, Paola Lattus, Hector Morales, Amparo Noguera, Elsa Poblete. Drama. 97 min. (Cor).

8,0

“Tony Manero” não é um filme fácil. Ele exige que o espectador vença a enorme barreira de um personagem nem um pouco carismático, que faz coisas moralmente condenáveis, mas que tem um sonho. Nem se trata do “adorável amoral”, arquétipo visto em vários outros filmes. Aqui, nem adorável ele é. O protagonista, Raúl Peralta, obcecado pelo personagem de John Travolta em “Os Embalos de Sábado à Noite” (1977), é muito facilmente detestado. E o filme exige que vençamos isso.

Raúl aspira participar de um concurso de sósias de Tony Manero em um programa de televisão local, nos moldes do “Show de Calouros” que tínhamos no Brasil. Ambientado no Chile do final dos anos 70, o clima é de tensão, já que qualquer desvio de conduta é visto como uma ameaça ao regime de Augusto Pinochet. Raúl se apresenta como Tony Manero em uma lanchonete pobre, em um bairro pobre. A direção de arte dá um ar documental ao filme, além de reforçar suas duras verdades.

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Logo durante os primeiros minutos do filme, já dá para se perceber que Raúl não é boa coisa. Depois de amparar uma idosa que foi assaltada, leva-a até em casa, onde a espanca e rouba sua televisão em cores. Enquanto vai encontrando maneiras de reproduzir a discoteca do filme na lanchonete onde se apresenta e imita o modo de falar e agir de Travolta assistindo ao filme várias vezes em uma sala vazia, o público se deprime. Dá para se rir da obsessão de Raúl, mas até que ponto?

“Tony Manero” é um filme indigesto, mas é um trabalho ímpar. O diretor Pablo Larrain resiste à tentação de reproduzir o clichê de um sonhador com defeitos e retrata de uma vez um ser detestável sob qualquer ponto de vista. Isso demanda coragem, mas é também o que mais deve afastar espectadores de sessões do longa.

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André Azenha é jornalista, editor dos sites CineZen e CulturalMente Santista, autor do livro Poesia a Quatro Mãos, feito em parceria com sua mãe, a poetisa Regina Azenha. Trabalhou com o crítico de cinema Rubens Ewald Filho, escreveu para a revista Época São Paulo e colabora com veículos de imprensa de vários estados. Em 2011, mediou o ciclo Documentários Comentados, no SESC Santos. É assessor de imprensa e realiza encontros culturais, a maior parte de caráter beneficente.


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