Entrevista

Papo exclusivo com Eduardo Ricci

Coordenador do Cineclube Lanterna Mágica e Diretor do Cineme-se adiantou com exclusividade novos eventos sobre cinema no litoral paulista e contou sua trajetória, entre outros assuntos
Por André Azenha, editor (11/04/2009) // Comente

Fotos: Raimundo Rosa

eduardoriccitres

Além daqueles nomes que sempre lemos nos jornais e escutamos na televisão, existem muitas pessoas que trabalham com cinema e realizam um trabalho importantíssimo, que ajuda a despertar o interesse em tantos outros pela sétima arte. Em Santos, mais exatamente na Unisanta, um jornalista de 32 anos coordena um dos espaços mais importantes da cidade voltados à sétima arte. Trata-se de Eduardo Ricci, Coordenador do Cineclube Lanterna Mágica, que em março completou dez anos de existência, e Diretor do Cineme-se, evento que acontece anualmente e trabalha a interatividade no universo cinematográfico e exibe curtas-metragens.

Em entrevista exclusiva ao CineZen, Ricci, santista de nascimento e time de futebol, também professor e organizador de eventos como a Mostra Francesa de Cinema e cursos que mesclam filmes e gastronomia, e admirador de Pedro Almodovar, contou como nasceu seu interesse pelo cinema, narrou a criação do Lanterna Mágica e do Cineme-se, e adiantou alguns eventos que irão acontecer em breve, como um bate-papo com a diretora Daniela Thomas (“Linha de Passe”), que comparece à Unisanta no próximo dia 27, e a Mostra sobre o ator Marcello Mastroianni, previamente marcada para a segunda quinzena de maio.

Fora isso, tratou de revelar uma mudança na estrutura do Cineclube, que deverá se tornar uma espécie de lounge interativo, e opinou sobre a produção de curtas realizados na região. “Antes você pegava muitos grupos teatrais fazendo os filmes, utilizando a linguagem teatral e levando-a para o cinema. Então tinha muito teatro nos curtas, e pouco cinema. Cada área tem sua importância. Não estou tirando a importância do teatro, obviamente que não. E em 2007 e 2008 as pessoas passaram a realizar os curtas com a linguagem do audiovisual”, diz ele.

O ótimo bate-papo aconteceu no próprio Cineclube e revelou algumas opiniões do jornalista. Eduardo não é contra o dowload de filmes pela internet (“Sou contra alguém baixar os filmes e ganhar dinheiro com isso”), assiste cerca de quatro longas por semana e tem um objetivo com todos os seus projetos: tornar-se cineasta. Ele ainda listou cinco filmes para assistir e outros cinco para evitar, entre outros assuntos. Quem se interessar em participar da programação do Cineclube ou do Cineme-se (cujas inscrições acabam no próximo dia 24), basta acessar www.unisanta.br/cineclube ou ligar para  (13) 3202-7100 , ramal 357. Abaixo, a entrevista completa.

Quando começou seu interesse pelo cinema?
Eduardo Ricci - Minhas memórias mais antigas na área do cinema remetem a uma tia, que chegava em casa falando sobre os filmes, ela gostava muito de assistir aqueles filmes de romance, lia muito aqueles livros, como “Júlia”, e até hoje ela os lê. E ela chegava falando sobre o cinema e eu ficava imaginando. Como que é esse espaço? Como é o cinema? E pra ir à casa dela – eu morava na divisa (de Santos com São Vicente) – a gente pegava um ônibus que passava pelo Gonzaga (bairro de Santos), em frente ao Iporanga e pelo Roxy (cinemas de rua da cidade santista), e tinham aquelas placas enormes, que hoje já não têm mais, que eram pintadas, e tinham aquelas luminárias, então pra mim parecia a Cinelândia. Era pra mim um universo muito mágico, passar por ali. Então eu ficava esperando o ônibus chegar, eu sabia quando passava pela Praça Independência estava próximo do cinema e eu já ficava olhando por ali. Foi assim que começou e depois passei a recortar cartazes, que saíam n’A Tribuna (jornal santista). Antigamente saíam os cartazes dos filmes, fotos de tudo quanto era filme, essas coisas todas, e comecei a colecionar revistas e alguns livros de cinema. Aí depois eu acabei entrando num grupo de teatro, que era um grupo bem sério, que você tinha que pagar mensalidade, tinha questão de horário…

De que cidade era o grupo?
ER -
Vicente de Carvalho (distrito de Guarujá), eu sempre morei no Guarujá e depois uma época em Vicente de Carvalho, aí eu comecei a trabalhar teatro porque eu queria tentar trabalhar com cinema e conhecer o mundo artístico. No sentido de você reproduzir o real e trabalhar esse “real” na pessoa também. E depois do teatro, onde fiquei quase seis anos, eu aprendi muito com vários autores e com isso, nesse intermédio todo, eu criei um fã clube chamado Cinema News, uma influência bem americana. Foi até engraçado que eu trabalhava numa contabilidade no Centro, tinha uns 14 anos, e lá eles faziam muito carimbo pra tudo, e eu fiz um para o fã clube: “Agora fica oficial o fã clube porque tem um carimbo”. Então eu trocava cartas com vários cinéfilos do Brasil inteiro e tinha essa paixão de falar de cinema. Não havia internet nessa época. A web surgiu no Brasil praticamente em 1995 e isso (a época do fã clube) era no início da década de 90. E eu enviava carta pra vários lugares, para as revistas. Saiu carta minha publicada na SET falando de filmes, dando dicas, sugestões, críticas, que as vezes saíam na página de Leitores. Então era essa coisa bem de cinéfilo. Mas eu nunca fui nerd, nerd, de ficar vidrado em datas de cinema e tudo. Eu não sou contra isso, mas eu tinha um lado mais assim: quero falar da vida a partir do cinema. Aí  surgiu toda essa paixão. Em 1995 eu fiz a minha primeira exposição, que foi uma homenagem aos cem anos do cinema. Fiz em Vicente de Carvalho e aqui em Santos, na Cadeia Velha, que foi onde tive o primeiro contato com o Maurice (Legeard), mas não falei com ele. Ele estava lá presente, num evento de cineastas paulistas, alguma coisa do gênero. E desde então fiz vários eventos. De 95 pra cá fiquei trabalhando direto. E em 1997 entrei para a faculdade de jornalismo porque não tinha cinema aqui. Tentei a USP duas vezes, por pouco não passei e depois entrei em Jornalismo, porque tem a ver com cinema.

eduardoriccitorero

Foi uma forma de continuar relacionado ao cinema…
ER - Para trabalhar com jornalismo. Pelo que é o universo do jornalismo mesmo. Foi o meu caminho, mas o foco era o cinema. Ou seja: quero trabalhar com jornalismo, só que pela imagem, o audiovisual. Televisão, mas não para aparecer, mas para poder pegar a câmera na mão e captar imagens.

Não escolheu o jornalismo para se tornar um crítico…
ER - Também, mas era mais pegar a câmera e fazer o produto audiovisual. Aí depois, dentro da faculdade, fiz um evento onde falávamos da influência do cinema na cidade de Santos. Nós colocamos que o Clube de Cinema de Santos tinha sido criado em 1948 e ali em 1998 estava completando 50 anos e queríamos fazer essa homenagem ao cinema da cidade. Aí havia nomes como Patrícia Galvão, Plínio Marcos, e outras pessoas, e naquele ano alguns ainda estavam vivos, como o Gilberto Mendes, e nós entrevistamos esse pessoal que esteve presente na inauguração do Clube de Cinema de Santos. O Maurice não estava nesse dia da inauguração. Ele só entrou em 1950. Mas nós vimos que o Maurice era um grande personagem, e o colocamos como a principal figura no evento. Porque ele foi além, em relação ao cinema, do que esse pessoal. Ele acabou fazendo da própria casa dele a Cinemateca da cidade. Nós fizemos um documentário sobre isso, tínhamos pouca experiência, acabamos não conversando com os professores e fazendo por conta própria, daí nasceu o 1º Encontro de Cinema. Foram a reitora, a presidente da Unisanta, e elas gostaram, e daí surgiu a idéia. Falei com meus colegas de jornalismo: Vamos fazer o Cineclube. Eles toparam no início, e depois acabaram debandando, dizendo: “é debate sobre filmes e eu quero fazer cinema, etc”. E eu acabei me apaixonando cada vez mais por esse lado do cineclubismo e fui desenvolvendo esse trajeto todo do Cineclube. Fundei o Cineclube Lanterna Mágica em 24 de março de 1999.

E nesses dez anos quais foram os momentos mais marcantes que você presenciou no Cineclube?
ER - Acho difícil dizer, até porque eu não quis de certa forma fazer essa retrospectiva (dos dez anos de Cineclube). Até acho legal pra você aprender com algumas coisas. Então na comemoração dos dez anos, procuramos colocar assim: “Qual a essência do Lanterna Mágica?” E trabalhar essa questão da interatividade do espectador de cinema, de quebrar, as vezes, essa magia e fazer com que o espectador se torne um protagonista. Então essa é a proposta do Cineclube, e a gente quis trabalhar com isso. Mas passaram pela minha cabeça várias coisas, como o bate-papo com o Beto Brant (diretor de “O Invasor” e “Crime Delicado”, entre outros), a abertura do Cineme-se no Sesc, exibições que nós tivemos aqui, de filmes com a presença do diretor, como com o Sérgio Bianchi (“Quanto Vale Ou É Por Quilo?”), que foi muito legal. É um cineasta que é super polêmico, e os filmes dele trabalham com esse universo da polêmica, de quebrar paradigmas. Momentos assim foram marcantes. Tivemos outros bate-papos, em que as pessoas, após o filme, se emocionaram. Quando trouxemos o José Roberto Torero, a sala recebeu mais de 90 pessoas, ficou lotada. Tem também a Sessão Lanterninha, que nós fazemos com crianças de 7 a 10 anos. E você vê a alegria da criança, e quando você sai, pois eu os levo até o elevador quando acaba a sessão, e eles saem te abraçando, parece que você deu um doce pra eles. As vezes a gente até dá pipoca, inclusive pipoca doce. Mas parece que você deu alguma coisa que eles não estão acostumados e fazemos uma sessão lúdica com eles. Aí tem sessões muito bonitas, que talvez por eu ficar mais envolvido na organização, não consiga observar a importância que tem isso. Fico muito na adrenalina da coisa. Como na sessão Sem Olhar, que é para cegos, e que nós fazemos com áudio-descrição e devemos fazer uma nova em maio. E pretendemos ampliá-la. Professores que desejarem participar da áudio-descrição poderão passar por essa experiência, e saber detalhes, para a partir disso, poderem pesquisar e desenvolver sua própria técnica.

eduardoriccium

Quem se interessar como deve entrar em contato?
ER - Fazemos uma divulgação, mandamos cartaz, divulgamos pela internet e produzimos convites também. A pessoa que deseja participar, ou liga para saber a programação do mês, ou deixa email. É gratuita, a pessoa pode vir e participar da sessão, sentar no horário. Agora, se for um grupo, aí liga e faz um agendamento. O telefone é  (13) 3202-7100 , ramal 357, aí fala comigo, e eu ou um estagiário fazemos o agendamento. Normalmente com a Sessão Lanterninha entramos em contato com a instituição e a convidamos. Até porque essa sessão não tem uma periodicidade exata, como por exemplo, toda quinta-feira. Convidamos o Lar das Moças Cegas…

E as dificuldades nesse trajeto?
ER - A maior dificuldade é a mobilização. Fazer as pessoas participarem. A gente vive num mundo onde as mídias estão convergindo cada vez mais. De repente você tem um celular, que tem televisão, o antigo walkman, tudo acontecendo ao mesmo tempo. Então nossa maior dificuldade é fazer a pessoa sair da sua casa, deixar de assistir a novela, e vir aqui numa quarta-feira, que é o dia que mais exibimos filme. A gente tem essa dificuldade, mas também tem um pessoal que vem, umas senhoras, e que nos presenteiam. E o presente realmente pra mim, sem demagogia, é a pessoa estar presente no dia, e fazer parte do debate. Ou estar presente escutando o bate-papo. E tem gente que traz caixa de bombom, etc. É como se fosse um agradecimento, tipo: “Obrigado por abrir esse espaço para que eu possa participar”.

E o Cineme-se surge como nessa história?
ER - O Cineme-se surgiu em 2004 e sempre foi realizado aqui (Unisanta) e no Sesc (Santos), e é onde nós queríamos trabalhar e discutir a interatividade no cinema. Por isso o nome Cineme-se, como se fosse “programe-se”, “seja” a partir do cinema, ou a partir de si. Então a idéia é que o espectador esteja por inteiro na sessão, fazer com que a pessoa sinta-se fazendo parte do próprio filme. No Cineme-se desse ano estamos pretendendo trazer um cara, que ele tem um longa de ficção, e que ele vai colando as cenas e vai interagindo ao vivo. Ele monta o filme ao vivo. Então vamos ver como é, ele mandou essa proposta, achei bem legal. A idéia tem tudo a ver com o evento, que é isso mesmo, as pessoas se envolverem, se sentirem envolvidas com o cinema. A gente não está inventando a roda com isso, mas pra Santos sim, é algo inovador. Como a Sessão Lanterninha. Lógico que outros lugares já fizeram esse tipo de sessão, mas como fazemos é algo único, com a parte lúdica, o teatro de sombras, as brincadeiras, os jogos, etc. Então o Cineme-se é isso. Essas sessões especiais surgiram a partir do evento. Por exemplo, em algumas sessões, as crianças recortam bonecos e criam historinhas a partir do filme, das músicas, etc. O Cineme-se surgiu em 2004. Na primeira edição falamos sobre a intertextualidade do cinema com as outras áreas. O que o cinema bebe do teatro? Tem muitas peças do teatro que utilizam a linguagem do cinema e nós discutimos isso. E tinha lá cinema e arquitetura, cinema e literatura, cinema e escultura. Trouxemos a Denise Fraga no primeiro evento. Depois nós falamos sobre animação, e consequentemente cada edição teve um tema relacionando-o com o cinema. Na sequencia tivemos “O Som no Cinema”, e em 2008 “A Cor no Cinema”. E este ano será sobre o Figurino. O Cineme-se 2009 acontece entre 21 e 26 de julho. As inscrições se encerram no próximo dia 24 de abril. Quem quiser se inscrever é só acessar o site www.unisanta.br/cineclube.

Falando no Cineme-se, que também mostra curtas-metragens. Como você tem encarado a produção dos curtas aqui na região? Qual o nível dessas produções?
ER – Eu vejo que alguns curtas conseguem ter uma qualidade boa, mas a grande maioria… Uma coisa que realmente me preocupa… Bom, em 2007 e 2008 deu uma melhorada, com o pessoal utilizando a linguagem do audiovisual, mais do que a do teatro. Antes você pegava muitos grupos teatrais fazendo os filmes, utilizando a linguagem teatral e levando-a para o cinema. Então tinha muito teatro nos curtas, e pouco cinema. Cada área tem sua importância. Não estou tirando a importância do teatro, obviamente que não. Mas você pegar o teatro e levá-lo para o audiovisual, quebra completamente… A não ser que seja uma proposta e isto deve estar claro. Eu achava fraco nesse sentido. Muitos curtas ainda têm esse problema. Alguns grupos de teatro que fazem alguma peça que não teve muita pesquisa, e de repente você pega o curta que não teve tanta pesquisa. Parece que você está repetindo os erros do movimento teatral. Você vê, de um montante de 40 peças, num bom número faltou mais pesquisa. Você até percebe que a idéia é boa, os atores são bons, conseguem segurar o público em algum momento, têm presença de cena, mas faltou uma ligação no todo. E nos curtas isso se  repete. Mas nos últimos anos melhorou bastante, as pessoas começam a utilizar a linguagem do cinema, brincam com a questão da imagem, dividem a tela, aí fica mais cinema do que teatro.

Algum novo projeto pra este ano?
ER – Temos. Vamos mexer na sala aqui e transformá-la num ambiente multimídia. A gente quer criar um ambiente onde num dia você possa ter uma pessoa tocando violão, com voz, e a gente vai formar uma espécie de um lounge, mas não vai ser sempre, apenas em alguns momentos. Vamos tirar as cadeiras, e vai ficar esse ambiente com a exibição de filmes, onde as pessoas poderão participar. E a idéia é fazer esse ambiente mais envolvente. E a nossa idéia também é tornar o Cineclube mais interativo. Aí está nossa dificuldade. A gente vai estar se juntando com o pessoal de multimídia e estudaremos como poderá ser essa interatividade. Por exemplo, em maio teremos uma mostra sobre o Marcello Mastrioanni. Então de repente vamos pegar cenas dele e dar uma editada, contextualizá-las e depois fazer umas brincadeiras sobre o que foi exibido. Isso requer um planejamento. Não vamos apenas exibir algo e depois realizar um debate, que já é a essência do cineclubismo. Mas a gente quer trabalhar até com sinestesia, como fazemos na Sessão Sem Olhar. As pessoas não enxergam, ou quem enxerga coloca uma venda, e elas escutam o que eu estou descrevendo sobre o que acontece na cena, e também em alguns momentos marcados no filme elas tocam algum objeto pra trabalhar a sinestesia. Se é uma cena áspera, de briga, vai tocar algo áspero. E o que desejamos inovar é esse lado interativo. Não sei se dará tempo já para essa mostra sobre o Mastroianni, mas é nosso intuito. Quem sabe fazer um “quiz” no final, como antigamente já se fazia, mas de uma forma diferente, brincando com o ambiente audiovisual.

eduardoriccicinco

Quando exatamente acontece a Mostra?
ER – Não definimos a data certa, mas é após o dia 8 de maio. Segunda quinzena de maio.

Qual sua opinião sobre o cinema brasileiro atual? Há um crescimento e uma melhora nos filmes?
ER - O cinema brasileiro tem demonstrado cada vez mais uma certa força, mas ainda está distante de ser uma indústria de cinema. Mas tem muito o que crescer. O governo atual sabe que o cinema é uma área estratégica, para mostrar a força do povo, como o Brasil pode ser visto de uma forma diferente, não apenas o Brasil visto pela Globo. O DOC TV, feito pelo Ministério da Cultural, é bem legal. Eles pegam várias regiões do país e gravam documentários. Tem várias áreas do audiovisual nacional que estão dando espaço pra quem não tem o sobrenome Barreto ou não tem amizade com o Daniel Filho, esse pessoal que já tem uma estrutura, que dão um suporte para os filmes fazerem sucesso, como “Se Eu Fosse Você 1” e “2”, “O Menino da Porteira”, esses filmes todos, que ganham o espaço na Globo e que a Globo como empresa defende o seu produto. Mas eu vejo que independente da Globo, dessa coisa toda, dessa divulgação que fica limitada aos filmes da Globo Filmes, tem muita gente produzindo. Há um audiovisual em ebulição. O Brasil, como os EUA e outros países, acaba começando a contar cada vez mais sua história, revendo e revisitando sua história, pelo audiovisual.

Qual filme recente brasileiro destacaria?
ER – Um que eu lembro e eu gostei, e vou trazer a diretora, é o “Linha de Passe” (co-dirigido por Daniela Thomas e Walter Salles). A Daniela virá dia 27 de abril, às 19h30. Tem gente que reclama dos atores do filme, mas a proposta era essa, usar novos atores. É um filme forte. O que eu não gostei foi o “Última Parada – 174”, achei o filme fraco…

Que é bem inferior ao documentário “Ônibus 174”…
ER – Sem dúvida alguma. Não há nem como comparar. Ali é uma ficção, que na verdade tentou seguir a força do documentário dirigido pelo José Padilha (diretor de “Tropa de Elite”), mas não chegou a 10%. E o documentário foi muito criticado, falaram que tentaram colocar como “bonzinho” o Sandro Nascimento (criminoso que sequestrou um ônibus no Rio de Janeiro e é retratado em ambos os longas), e no filme do Barreto o personagem do Sandro simplesmente não consegue acontecer, não tem força. A grande força do documentário é que o Sandro Nascimento, parece ficcional, um baita personagem. E eu o considero um dos melhores documentários já feitos no Brasil.

Com seu conhecimento sobre cinema, nunca pensou em se tornar cineasta?
ER – Todos esses projetos são para um dia poder dirigir, atuar como cineasta.

Pra encerrar. Quais cinco filmes você indicaria para o leitor assistir, e outros cinco para evitar?
ER – Vou tentar citar filmes de diferentes épocas. Pra assistir: “Lavoura Arcaica”, “Glória Feita de Sangue”, “Tudo Sobre Minha Mãe”, “O Curioso Caso de Benjamin Button” e “Beleza Americana”. Para evitar: “Jogos Mortais”, “Jason x Freddy”, “Super Xuxa Contra o Baixo Astral”, “Didi – O Fantasma Trapalhão” e um que até é um bom filme tecnicamente, mas pela forma como foi abordado, o “Paixão de Cristo”, do Mel Gibson.

Gostaria de deixar algum recado?
ER – Quando o Torero esteve aqui, a sala estava lotada, aí teve um garoto que ficou compenetrado durante todo o bate-papo, e em determinado levantou a mão para fazer uma pergunta. Pediu ao Torero dicas para fazer cinema e o Torero, de forma sucinta e inteligente, disse: Volte sempre. Uma frase curta e simples que simboliza o desejo pelo conhecimento, pela vida, pelo cinema, então repito: Volte sempre.

Conteúdo relacionado:

André Azenha é jornalista, editor dos sites CineZen e CulturalMente Santista, autor do livro Poesia a Quatro Mãos, feito em parceria com sua mãe, a poetisa Regina Azenha. Trabalhou com o crítico de cinema Rubens Ewald Filho, escreveu para a revista Época São Paulo e colabora com veículos de imprensa de vários estados. Em 2011, mediou o ciclo Documentários Comentados, no SESC Santos. É assessor de imprensa e realiza encontros culturais, a maior parte de caráter beneficente.


Maus HábitosMadrugada dos Mortos

Escreva seu comentário

Campos obrigatórios