Um Porto para King Kong
Por: Alessandro Atanes
King Kong (Idem, 2005, EUA). Direção: Peter Jackson. Roteiro: Fran Walsh, Philippa Boyens e Peter Jackson, baseado em estória de Merian C. Cooper e Edgar Wallace . Elenco: Naomi Watts; Jack Black; Adrien Brody; Andy Serkis; Thomas Kretschmann; Colin Hanks; Kyle Chandler; Jamie Bell; Evan Parke; Lobo Chan; John Sumner; Craig Hall. Aventura. 187 min. (Cor).
Por: Alessandro Atanes
Texto publicado originalmente no site PortoGente
Nesta semana Porto Literário se transforma em Porto Cinematográfico e o título da coluna já adianta o motivo: o filme que traz nova roupagem para a história do gorila gigante que se apaixona por uma atriz. Superprodução que é, “King Kong” já teve seu espaço de críticas e comentários na imprensa: efeitos especiais, qualidade das atuações, debate sobre a necessidade de uma nova versão, etc. O que interessa à coluna, como sempre, é o porto da ficção.
E que porto é esse de “King Kong”? É o de Nova York nos anos 30 do século passado, tempo de depressão econômica. A partir desse dado, pode-se ver a história por outro lado, não a do amor impossível entre a bela e a fera, mas a do civilizado que busca do outro lado do mundo um troféu do mundo selvagem, enquanto a civilização não se recupera. Assim, “King Kong” nada mais é que uma variação do safári africano.
O “civilizado” da história é cineasta Carl Denham, interpretado por Jack Black (“Escola de Rock”). Apertado por executivos que acabam por decidir por sua demissão, Denham foge com os rolos do filme e marca um encontro com sua equipe nas docas de Nova York, de onde parte para o encontro com o gigante primata. Sem recursos, só sobra a Denham abrigar sua equipe em um navio de transporte de animais capturados para zoológicos ou colecionadores, o vapor Venture. Ao lado dele, um transatlântico apita os minutos finais do embarque para um passeio de luxo. O contraste entre as duas naves representa também o contraste dos destinos de cada uma.

O oposto de Nova York é a Ilha da Caveira, cravada no meio do oceano e constantemente em meio à neblina, onde nativos – todos de pele escura, por sinal – oferecem mulheres à fera, sacrifício para a manutenção da precária sociedade. Se na “Grande Maçã” o cais é a porta para o mundo, a ilha, por sua vez, não tem porta alguma. Lá o Venture não aporta, fica preso entre pedras durante uma tempestade e dali só sai na próxima maré cheia.
Fronteiras e metáforas – Franco Moretti, autor já destacado algumas vezes neste espaço, escreve – na obra que trata da geografia dos romances europeus do século XIX – que as fronteiras, não só as físicas, mas também as simbólicas, são locais das narrativas em que se multiplicam as metáforas, isto é, o uso de expressões, imagens ou apenas uma palavra para identificar determinado objeto. No caso, o cinema é metáfora para civilização, enquanto o próprio Kong é puro instinto, metáfora do selvagem que já não somos mais (embora o noticiário teime em contradizer essa afirmação).
No filme, é o porto a fronteira de onde partem não só navios, mas também as metáforas com as quais tentamos identificar o desconhecido. Talvez seja por isso que podemos considerar a fronteira também como uma máquina narrativa, um lugar que gera histórias:

“(…) a fronteira é o lugar da aventura: cruzamos a linha e estamos frente a frente com o desconhecido, frequentemente com o inimigo; a história penetra num espaço de perigo, de surpresa, de suspense”.
“King Kong” nos dá a chance de retomar afirmações de Moretti que balizam algumas das idéias que surgem nesse espaço sobre as relações da literatura com os portos, quais sejam.
- Determinado tipo de história precisa de determinados tipos de lugares para acontecer (“sem um certo tipo de espaço, um certo tipo de história é simplesmente impossível”);
- O espaço é onde o enredo da história se organiza e ao qual se adapta;
- Os percursos dos personagens pela ficção são eles mesmos também geradores de novas histórias (tanto a história que se pesquisa quanto às da ficção).
Bem, poucos (talvez ninguém) verá o filme para descobrir como é o porto de “King Kong”, mas fica o registro de mais um espaço portuário da ficção.
Referências:
Franco Moretti. Atlas do romance europeu (1800-1900). Boitempo. São Paulo, 2003.
Leia também:
