Gran Torino

O bom e velho Clint Eastwood mantém a forma na direção em filme que versa sobre racismo e novas amizades
Por Ricardo Prado * (21/03/2009) // Comente

grantorino_Gran Torino (Idem, EUA, 2008). Direção: Clint Eastwood. Roteiro: Nick Schenk, baseado em estória de Dave Johannson e Nick Schenk. Elenco: Clint Eastwood, Christopher Carley, Bee Vang, Ahney Her, Brian Haley, Geraldine Hughes, Dreama Walker. Drama. 116 min. (Cor).

Dirty Harry está de volta. Não de forma muito explícita, mas certamente era a intenção. Clint Eastwood, aos 78 anos, está mais do que craque na arte da direção (lançou na mesma temporada o bonito “A Troca”) e sabe dessas coisas. Quando o espectador o vê empunhando uma arma de cara fechada, logo lembram do policial politicamente incorreto dos anos 70. A história em “Gran Torino” pouco tem a ver com as andanças de Harry, mas acompanhe. A temática aqui é o racismo, e como nós vivemos com ele. Eastwood é Walt Kowalski (voltando a atuar desde 2004, quando esteve em “Menina de Ouro”), um ex-combatente da Guerra da Coréia e montador de carros aposentado que passa seus dias na porta de casa vendo o movimento da rua, tomando cerveja e xingando seus vizinhos Hmong, grupo étnico da região do sudeste Asiático (que lutou ao lado dos Estados Unidos na Guerra da Coréia). Quando Thao, um jovem Hmong, tenta roubar seu estimado carro Gran Torino de 1972, Kowalski fica irado, aponta uma arma para o garoto e por pouco não o mata.

Em seguida, a família Hmong faz questão que o jovem trabalhe para Walt como forma de penitência. Durante esse trabalho, Walt transformaria o rapaz em um homem de verdade.

O bairro em que vivem Walt e os Hmong vive sob a constante ameaça de gângsteres, que não só querem atrair Thao para seu grupo como também foram responsáveis por induzi-lo a roubar o Gran Torino. Os embates entre eles e Walt são os momentos mais icônicos do filme. É aí que entra o lado Dirty Harry da coisa, e de como Clint Eastwood sabe manipular a imagem da forma que deseja. Ele sabe que, quando o espectador o vê de cara fechada, com ódio mesmo, tende a se lembrar do personagem dos anos 70. Walt não leva desaforo para casa, e consegue impor sua moral, mesmo tendo quase 80 anos, com o grupo de jovens inconseqüentes. “Gran Torino” fica nesse meio: ao mesmo tempo em que mostra um Walt sem medo de tirar sangue dos outros, também é um retrato do racismo, já que em nenhum momento ele esconde seu desprezo pelos vizinhos. Isso, claro, até Thao começar a cativá-lo. É uma evolução interessante, mas ainda assim, o melhor do filme é mesmo os momentos durões e machões de Walt Kowalski.

Com relação ao trabalho de elenco, é importante ressaltar que os atores que formam a família oriental estão quase todos em seu primeiro filme. A produção buscou autenticidade, e a conseguiu, mas infelizmente também fez das cenas com os Hmong as mais mal-interpretadas do cinema recente. O contraste com Clint Eastwood (e Christopher Carley, que faz um padre que busca a “redenção” de Walt) é gritante. Eastwood, aliás, está fenomenal.

Nota do editor: A canção que leva o título do filme foi indicada ao Globo de Ouro, e durante os créditos finais surge sendo cantada por Clint Eastwood e Jamie Cullum – a versão original, indicada ao prêmio, foi interpretada por Don Runner.

7,5

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