Tropa de Elite é hit do cinema brasileiro contemporâneo


Desde o premiado “Cidade de Deus” não se ouviu tanta falação em torno de uma produção brasileira. “Tropa de Elite” já nasceu polêmico. O longa inicialmente seria um documentário, o segundo do cineasta José Padilha, do ótimo e tão comemorado “Ônibus 174”. Só que policiais ficaram receosos de dar a cara à tapa e sofrerem retaliações do tráfico e dos próprios chefões da polícia. Então veio a ficção. Ficção calcada numa realidade repulsiva em que bandidos estão inseridos no cotidiano do brasileiro e a polícia “comum”, ou faz parte da corja, ou faz vistas grossas, ou vai “pra guerra”, como o personagem de Wagner Moura conta em determinado momento da projeção.

MAIS SOBRE “TROPA DE ELITE”

A CRÍTICA DE “TROPA DE ELITE 2”

Para realizar a produção, foram necessários dois anos de investigações com a colaboração do Batalhão de Operações Especiais, o BOPE, psiquiatras da PM, ex-traficantes, e entrevistas com 15 policiais para dar vida aos personagens na telona. Também contribuiu para a formação do roteiro o ex-capitão do batalhão, Rodrigo Pimentel, autor, em parceria com o sociólogo Luis Eduardo Soares, do livro Elite da Tropa – é bom deixar claro que o filme não é uma adaptação da obra literária.

Além do tema polêmico, mexer com a bandidagem é mexer em vespeiro e em novembro de 2006 traficantes do morro Chapéu Mangueira, onde as filmagens eram feitas, sequestraram parte da equipe que trabalhava no filme e roubaram as armas cenográficas – 59 eram réplicas e 31 verdadeiras, adaptadas para tiros de festim. As filmagens foram paralisadas por cerca de duas semanas. Se desgraça pouca é bobagem, cópias piratas passaram a circular em camelôs e via web. Especula-se que mais de um milhão de DVDs ilegais foram comercializados, sem contar as pessoas que baixaram “Tropa de Elite” pela internet. O culpado até agora não foi achado. Ventilou-se que poderia ter sido uma esperta jogada da produtora, que algum policial ressentido tivesse colaborado ou que bandidos teriam surrupiado a versão inacabada com inter-títulos em inglês.

Se há o lado ruim da pirataria, já que, numa visão hipotética, muita gente poderia deixar de pagar para ver o filme no cinema, criou-se um marketing boca a boca gigantesco, e os produtores se viram obrigados a adiantar em uma semana o lançamento em São Paulo e no Rio de Janeiro. E a curiosidade, até daquele cidadão que não vai sempre ao cinema, ficou aguçada. E dá-lhe salas lotadas, debates na internet, “entendidos” tentando explicar o fenômeno, protestos da polícia, da classe média, etc.

Antes de analisar a obra dum ponto de vista sociológico, vamos falar de cinema. E “Tropa de Elite” é um baita filme. Ponto. A direção de Padilha é uma evolução de “Ônibus 174”, a câmera não pára e o cineasta alcançou um nível de ação que raramente foi conseguido em nosso país. Para o êxito da obra, contou bastante também o desempenho do elenco, com Wagner Moura dando um show em uma interpretação visceral do Capitão Nascimento, policial honesto que resolveu “ir pra guerra”, e narra sua vontade de deixar o posto no BOPE, pois sua esposa está grávida e ele não quer morrer cedo (nisso, está inserida uma missão sem sentido para proteger o Papa, que vai se hospedar próximo ao morro). Além disso, ele se vê sentindo remorso e pena da mãe deu um “fogueteiro” morto por traficantes – forte indício de que deve seguir a vida longe da polícia, afinal, quem é do BOPE não amolece, segundo o oficial.

Mas para deixar o posto, Nascimento precisa escolher um substituto. E é nesse contexto que pintam os “aspiras” honestos Neto (Caio Junqueira) e André Matias (André Ramiro). Para o capitão, uma junção dos dois (o primeiro tem “atitude” e o segundo tem inteligência na medida) daria no substituto ideal. E o longa começa com os dois metidos num tiroteio no morro e depois volta alguns meses, mostrando a chegada deles à PM, a relação de Nascimento com a esposa, como os policiais corruptos utilizam o “sistema” em benefício próprio, a relação dos consumidores com o tráfico e muito mais.

Tudo num ritmo frenético, aliando momentos dramáticos, instantes que causam algumas risadas (mas que na verdade são bem chocantes, como quando os policiais ameaçam enfiar literalmente uma vassoura num garoto do morro, fazendo com que ele entregue a localização do “culpado”) e muita, muita ação. Junte-se a esses fatores uma ótima fotografia, o belo roteiro do próprio Padilha junto com Rodrigo Pimentel e Bráulio Mantovani, de “Cidade de Deus”, e uma trilha sonora simples e eficiente, cujas músicas retratam o ambiente como a faixa homônima do Tijuana, “Polícia”, dos Titãs, “Lado B Lado A” d’O Rappa, e “Brilhar a Minha Estrela”, do Sangue da Cidade, de quem diretor e roteirista eram fãs nos anos 80. Até o REM pinta numa festa da garotada endinheirada.

“Tropa de Elite” revelou-se um grande exemplar do cinema brasileiro, e foi super cotado para ser o indicado do País ao Oscar de Filme Estrangeiro. Mas acabou derrotado com um sonoro seis a zero pela comissão feita para decidir o representante nacional, perdendo a vaga para outro bom filme tupiniquim: “O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias”. A explicação da comissão é que “O Ano…” seria um filme com mais “cara” de Oscar, tem história universal, não possui violência escancarada (o que poderia incomodar alguns velhinhos da Academia) e tem roteiro linear. São duas excelentes obras, completamente diferentes, e que mostram o potencial do cinema brasileiro. Mas “Tropa de Elite”, apesar da direção espetacular e todas suas qualidades, sofre de um problema. O mesmo problema que deixa o filme poucos pontos atrás do próprio “O Ano…” e de “Cidade de Deus”, obra com a qual sofreu várias comparações. Trata-se da busca em retratar a realidade.

Enquanto “Cidade de Deus” e o filme de Cao Hamburguer abordavam determinados períodos históricos, “Tropa de Elite”, apesar da trama se passar nos anos 90, fala praticamente da atualidade, e de maneira muito mais parcial. O fato de um policial do BOPE narrar a trama e fazer do batalhão praticamente uma Liga da Justiça onde ninguém é incorruptível, gerou questionamentos – se você sentiu vontade de se alistar para o BOPE, não se assuste, pois a obra pode causar esse tipo de persuasão, ainda que equivocada. A maneira como os jovens de classe média são mostrados e culpados pelo poder do tráfico (em determinado instante pergunta-se quantas crianças do morro deverão morrer para um playboy fumar uma baseado), e a maneira com os próprios cidadãos do morro são tratados pelo batalhão, que primeiro atira para perguntar depois, levou pessoas a chamarem o longa de fascista e até criticarem o diretor.

Vamos por partes. A trama fala praticamente do uso da maconha, mas quem tem grana consome drogas muito mais fortes. Da cola ao crack, toda droga comercializada ajuda o tráfico e fomenta o câncer da sociedade. Sim, há muitos filhinhos de papai que não estão nem aí para a realidade (exemplo daqueles idiotas de pais ricos que agrediram uma empregada doméstica no Rio achando que não sofreriam nenhuma punição) e contribuem para o tráfico. Oras, também existem os que fazem faculdade apenas para melhorar de vida, mesmo tendo um padrão um pouco melhor que a maioria da população. E o que o filme faz é generalizar tudo, ainda que mostre, sim, como bandidos e pessoas que sustentam o tráfico deveriam ser tratados. O baixo salário (“você acha que vou subir o morro pra levar tiro por ‘500’ conto”?”, questiona o Capitão Fábio, vivido por Milhem Cortaz) não justifica a participação de policiais “comuns” no “esquema” sujo. Muita gente ganha bem menos que isso e não gira bolsinha e nem trafica ou rouba.

São alguns deslizes que fazem de “Tropa de Elite” um grande filme enquanto cinema, premiado com o Urso de Ouro no Festival de Berlim) e grande sucesso de público, gerando a continuação lançada em 2010, e uma obra com alguns equívocos ao tentar retratar a realidade onde vivemos.

TROPA DE ELITE
(Idem, Brasil, 2007).

Direção: José Padilha.
Roteiro: Rodrigo Pimentel, Bráulio Mantovani e José Padilha.
Elenco: Wagner Moura, Caio Junqueira, André Ramiro, Milhem Cortaz, Fernanda de Freitas, Fernanda Machado, Thelmo Fernandes, Maria Ribeiro.
Ação / Policial.
118 min.

Principais prêmios e indicações:

– Festival de Berlim: Urso de Ouro.
– Grande Prêmio do Cinema Brasileiro: Diretor, Ator (Wagner Moura), Fotografia, Montagem, Maquiagem, Som, Efeitos especiais, Ator coadjuvante (Milhem Cortaz).
– Indicação ao Grande Prêmio do Cinema Brasileiro: Melhor filme, Roteiro original, Direção de arte, Figurino, Trilha sonora.
– Crítica da Argentina: Melhor filme estrangeiro.
– Festival Latino-Americano de Lima: Melhor filme, Prêmio da audiência.
– Crítica de São Paulo: Diretor, Montagem.

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

One thought on “Tropa de Elite é hit do cinema brasileiro contemporâneo

  1. o filme tropa de elite é um filme que mostra como é a vida das pessoa que morão nas favela do Rio de Janeiro eu adorei o papel de wagner moura como o capitão nascimento wagner é uma pessoa muito legal não conheço pessoal mente mas pretendo conhecer no filme tropa de elite 2 ele faz um otimo papel eu adoro o filme tenho em casa eu só não tenho o tropa de elite2 pq não saio ainda dos cinemas.Eu pretendo trabalha no Rio de janeiro ser um polícial do bope adoro polícia com fé em deus eu vou conseguir realizar esse sonho de ser polícial do bope.Eu vou me forma daqui a 05 anos eu espero que ainda continui lancando o filme tropa de elite pq eu adoro,quero muito conhecer muito a unidade de vcs eu espero que wagner moura possa mi treina eu ia adora isso é tudo que eu pesso a deus pq eu tenho 13 anos mas tambem teho sonhos como qualquer pessoa se vcs tiver algum email pesso que me adisione eu quero muito conversa com algum de vc beijoss amo voçes!bom trabalho!!!

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