Syriana – A Indústria do Petróleo

Por: André Azenha

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Syriana – A Indústria do Petróleo (Syriana, EUA, 2005). Direção e roteiro: Stephen Gaghan. Elenco: George Clooney, Matt Damon, Amanda Peet, Alexander Siddig, Chris Cooper, Jeffrey Wright. Drama / Thriller. 126 min. (Cor).

9,0

A arte não precisa ser panfletária, contestatória ou ter mensagens sociais. Mas obras como “Syriana – A Indústria do Petróleo” são sempre bem vindas e necessárias.

O filme, dirigido e roteirizado de forma excepcional por Stephen Gaghan, é parente próximo do excelente “O Jardineiro Fiel” e do ótimo e subestimado “O Senhor das Armas”. Os três são ficcionais, mas tratam de assuntos reais e mostram que no mundo dos bilionários, líderes políticos e das mega-corporações; conchavos, chantagens e ameaças são tão ou mais importantes que qualquer faro econômico ou comercial.

Aqui os holofotes miram a indústria petrolífera, que nos últimos tempos serviu de palco para duas guerras em sua região mais frutífera: O Golfo Pérsico. A história também passeia pela Europa e a América e dá partida após a estranha fusão de duas corporações. E além do ótimo texto, que rendeu ao filme uma indicação a Roteiro Original no Oscar, o elenco ganha destaque com atuações competentes e outras excelentes.

George Clooney (que também é produtor do filme junto com Steven Soderbergh, diretor de “Traffic”, que foi escrito por Gaghan) é Robert Baer, agente da CIA que tem problemas de relacionamento com o filho, e está prestes a se aposentar, quando recebe uma última missão: assassinar um príncipe que pode herdar um reino e não corresponde aos interesses políticos e financeiros de empresas e líderes políticos, por vislumbrar um futuro melhor e independente para seu povo. Clooney engordou treze quilos para interpretar Baer e se sai muito bem no papel, levando a estatueta de Ator Coadjuvante para casa (no mesmo ano, recebeu uma indicação pela direção de “Boa Noite e Boa Sorte”).

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Já Matt Damon (amigo e parceiro de Clooney em “Onze Homens e Um Segredo” e suas duas continuações) é Bryan Woodman, casado com Julie (Amanda Peet) e pai de dois filhos, trabalha como analista de energia, e após sofrer uma perda irreparável em um coquetel na casa de um rei, se torna conselheiro econômico do príncipe Nasir (Alexander Siddig) . Nos núcleos de personagens ainda há um advogado que investiga a estranha fusão e dois persas.

Por mais que o excesso de personagens corra o risco de minimizar a importância dos próprios na história, e que as vezes essa grande quantidade de papéis confunda o telespectador, cada figura tem seu momento – mérito também dos diálogos matadores e das cenas tocantes e impactantes. Destaque para Siddig que constrói um príncipe justo, honesto e com ambições que não se encaixam na politicagem dos poderosos sem cair na pieguice. E também para os persas, que acabam se tornando alunos em uma escola de “homens-bomba” – um deles, é centro de uma das cenas mais tristes da produção.

O texto é afiado e inteligente. Em certo momento da trama alguém fala: “enquanto o Oriente Médio estiver um caos, estaremos lucrando”, algo que resume o jogo de interesses nesse ramo. As conversas de Bryan Woodman com o príncipe Nasir também merecem atenção. Aliás, a cutucada nos Estados Unidos é um dos momentos mais bacanas quando Nasir diz: “quando um país que tem 5% da população mundial é responsável por 50% dos investimentos militares do planeta é porque seu poder de persuasão está em declínio”. Quer algo mais na cara?

“Syriana” merece ser conferido e saboreado por ser um filme corajoso, com um elenco bem escalado, e por dar um soco no estômago da politicagem dos poderosos preocupados apenas em lucrar, e que ignoram os problemas do planeta. Assim como “O Jardineiro Fiel”, o filme mostra uma realidade desconhecida por grande parte da sociedade, e por mais que não vá mudar o mundo, expõe com clareza os desmandos e a hipocrisia dos “bam-bam-bans” da política e da indústria mundial. Obrigatório.

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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