Violência Gratuita

Por: André Azenha

violenciaFunny Games, EUA / França / Inglaterra / Alemanha / Itália / Áustria, 2007. Direção e roteiro: Michael Haneke. Atores: Brady Corbet, Michael Pitt, Naomi Watts, Tim Roth , Devon Gearhart. 111 min. Thriller/Suspense. (Cor).

8,0

Em sua primeira incursão no cinema americano, o diretor e roteirista alemão Michael Haneke optou por refilmar quadro a quadro, palavra por palavra, “Violência Gratuita” (Funny Games), longa de 1997 (disponível em DVD no Brasil) falado em italiano, indicado à Palma de Ouro em Cannes e que lhe rendeu reconhecimento (como a vitória de Melhor Diretor no Festival de Chicago e dois prêmios no Fantasporto), mas também críticas severas, inclusive sendo chamado de fascista e nazista. A verdade é que o público e alguns críticos não estavam preparados para as ousadias do cineasta, realizador de produções polêmicas e nunca fáceis de digerir como “Caché” (2005), com a maravilhosa Juliette Binoche.

Haneke poderia ser taxado de oportunista, pois é sabido que americano detesta legenda e tem um deslumbre um tanto mórbido pela violência. E a história de dois jovens (vestidos de branco, a cor da paz, usada pelos jovens delinquentes de “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick) que se apresentam à família em férias numa casa de campo à beira de um lago, e passa a realizar jogos sádicos com pai, mãe e filho, teria tudo para agradar a platéia americana.

Ledo engano. Fora o fato do filme possuir um jeitão de filme “de arte”, sujeito a ficar restrito ao circuito alternativo, quando reconta a trama quadro a quadro dez anos depois do original, o cineasta está afirmando que o mundo não mudou neste período. O ser humano continua propenso a atos violentos e existe uma grande hipocrisia na sociedade, que faz críticas contra a barbárie imposta pela dupla de criminosos, mas vibra quando uma das vítimas consegue despachar um deles – e essa mesma sociedade torna imensos sucessos de bilheteria carnificinas como a franquia Jogos Mortais” e “O Albergue”.

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E é neste momento que o alemão se revela um diretor diferenciado e bastante provocador. Ao invés de cair no clichê de revanchismo, ele deixa o “controle” do filme literalmente nas mãos de um dos psicopatas, que além de manipular o enredo, fala diretamente com o público, tornando quem assiste à projeção cúmplice da violência.

Outra jogada inteligente de Haneke é jamais mostrar os atos violentos; toda vez que sangue vai ser derramado, a câmera desvia o olhar, deixando a cargo de cada espectador imaginar o que está acontecendo. Assim sendo, a intensidade da violência depende da carga de imagens violentas presente na memória de cada um. Ou seja, quanto mais filmes recheados de mortes, membros decepados, etc, você já viu, mais brutal parecerá o ataque contra o trio inocente.

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O filme também convence pela naturalidade com que os atores desempenham seus papéis. Sejam os dois garotos interpretados por Brady Corbet (série “24 Horas”) e Michael Pitt (“Dawsons’s Creek”, “Os Sonhadores” e “Últimos Dias”), ou a família formada pela linda e talentosa Naomi Watts, o sempre bom Tim Roth e o novato Devon Gearhart (vencedor do Young Hollywood Awards 2008).

Fora o fato da velha frase “Por que vocês estão fazendo isso?” (também presente no bom terror “Os Estranhos”, que se assemelha no modo como a tal violência gratuita, do título deste, é fator recorrente à cultura americana) ser totalmente desnecessária, o longa revela a mente articulada de um cineasta que não tem medo de arriscar.

O DVD tem imagem LETTERBOX (anamorfico), áudio em inglês e português, legendas em português e extras com trailers, ficha técnica e sinopse.

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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