Violência Gratuita

Ao refilmar quadro a quadro a versão de seu próprio filme homônimo de dez anos atrás, o cineasta Michael Haneke afirma: a sociedade não mudou, continua violenta e tem atração pelo caos
Por André Azenha, editor (16/02/2009) // Comente

Por: André Azenha

violenciaFunny Games, EUA / França / Inglaterra / Alemanha / Itália / Áustria, 2007. Direção e roteiro: Michael Haneke. Atores: Brady Corbet, Michael Pitt, Naomi Watts, Tim Roth , Devon Gearhart. 111 min. Thriller/Suspense. (Cor).

8,0

Em sua primeira incursão no cinema americano, o diretor e roteirista alemão Michael Haneke optou por refilmar quadro a quadro, palavra por palavra, “Violência Gratuita” (Funny Games), longa de 1997 (disponível em DVD no Brasil) falado em italiano, indicado à Palma de Ouro em Cannes e que lhe rendeu reconhecimento (como a vitória de Melhor Diretor no Festival de Chicago e dois prêmios no Fantasporto), mas também críticas severas, inclusive sendo chamado de fascista e nazista. A verdade é que o público e alguns críticos não estavam preparados para as ousadias do cineasta, realizador de produções polêmicas e nunca fáceis de digerir como “Caché” (2005), com a maravilhosa Juliette Binoche.

Haneke poderia ser taxado de oportunista, pois é sabido que americano detesta legenda e tem um deslumbre um tanto mórbido pela violência. E a história de dois jovens (vestidos de branco, a cor da paz, usada pelos jovens delinquentes de “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick) que se apresentam à família em férias numa casa de campo à beira de um lago, e passa a realizar jogos sádicos com pai, mãe e filho, teria tudo para agradar a platéia americana.

Ledo engano. Fora o fato do filme possuir um jeitão de filme “de arte”, sujeito a ficar restrito ao circuito alternativo, quando reconta a trama quadro a quadro dez anos depois do original, o cineasta está afirmando que o mundo não mudou neste período. O ser humano continua propenso a atos violentos e existe uma grande hipocrisia na sociedade, que faz críticas contra a barbárie imposta pela dupla de criminosos, mas vibra quando uma das vítimas consegue despachar um deles – e essa mesma sociedade torna imensos sucessos de bilheteria carnificinas como a franquia Jogos Mortais” e “O Albergue”.

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E é neste momento que o alemão se revela um diretor diferenciado e bastante provocador. Ao invés de cair no clichê de revanchismo, ele deixa o “controle” do filme literalmente nas mãos de um dos psicopatas, que além de manipular o enredo, fala diretamente com o público, tornando quem assiste à projeção cúmplice da violência.

Outra jogada inteligente de Haneke é jamais mostrar os atos violentos; toda vez que sangue vai ser derramado, a câmera desvia o olhar, deixando a cargo de cada espectador imaginar o que está acontecendo. Assim sendo, a intensidade da violência depende da carga de imagens violentas presente na memória de cada um. Ou seja, quanto mais filmes recheados de mortes, membros decepados, etc, você já viu, mais brutal parecerá o ataque contra o trio inocente.

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O filme também convence pela naturalidade com que os atores desempenham seus papéis. Sejam os dois garotos interpretados por Brady Corbet (série “24 Horas”) e Michael Pitt (“Dawsons’s Creek”, “Os Sonhadores” e “Últimos Dias”), ou a família formada pela linda e talentosa Naomi Watts, o sempre bom Tim Roth e o novato Devon Gearhart (vencedor do Young Hollywood Awards 2008).

Fora o fato da velha frase “Por que vocês estão fazendo isso?” (também presente no bom terror “Os Estranhos”, que se assemelha no modo como a tal violência gratuita, do título deste, é fator recorrente à cultura americana) ser totalmente desnecessária, o longa revela a mente articulada de um cineasta que não tem medo de arriscar.

O DVD tem imagem LETTERBOX (anamorfico), áudio em inglês e português, legendas em português e extras com trailers, ficha técnica e sinopse.

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André Azenha é jornalista, editor dos sites CineZen e CulturalMente Santista, autor do livro Poesia a Quatro Mãos, feito em parceria com sua mãe, a poetisa Regina Azenha. Trabalhou com o crítico de cinema Rubens Ewald Filho, escreveu para a revista Época São Paulo e colabora com veículos de imprensa de vários estados. Em 2011, mediou o ciclo Documentários Comentados, no SESC Santos. É assessor de imprensa e realiza encontros culturais, a maior parte de caráter beneficente.


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