O Nevoeiro

Por: André Azenha

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O Nevoeiro (The Mist, EUA, 2007). Direção: Frank Darabont. Roteiro: Frank Darabont, baseado em livro de Stephen King. Elenco: Thomas Jane, Marcia Gay Harden, Toby Jones, Jeffrey DeMunn, William Sadler, Nathan Gamble. Terror / Suspense / Drama. 126 min. (Cor).

8,5

É fato consumado. As adaptações cinematográficas dos livros do escritor americano Stephen King oscilam entre a veneração e o ódio. Filmes como “O Iluminado” (de 1980, com Jack Nicholson) e “À Espera de Um Milagre” (com Tom Hanks), indicado a quatro Oscars, incluindo Melhor Filme, fazem parte da primeira leva, que deixa saudade nos fãs. “O Apanhador de Sonhos” e tantos outros formam a segunda e detestada categoria.

Se for levado em conta que “À Espera de Uma Milagre” é de 1999, faz quase uma década que nenhum longa-metragem baseado em alguma obra do mestre da literatura de horror/terror causa impacto na platéia. Nem mesmo o bom “1408” (protagonizado por John Cusack), de 2007, alcançou esse êxito.

Mas eis que “O Nevoeiro” é o filme que (desculpem o trocadilho) acabou com a maldição. O longa é baseado na integra naquele que é considerado um dos melhores livros do início da carreira do autor: “Tripulação de Esqueletos”, e ao contrário daquelas produções B que povoaram os Corujões da vida entre os anos 80 e 90, é um longa-metragem com um diretor competente (o francês Frank Darabont, que já pisou no terreno quando dirigiu “Um Sonho de Liberdade” e “A Espera de Um Milagre”), ambos feitos a partir dos escritos de King , um roteiro muito bem adaptado pelo cineasta (que roteirizou “A Hora do Pesadelo 3”, “A Mosca 2” e “Frankenstein de Mary Shelley”) em parceria com o próprio escritor e que, felizmente, conta um ótimo elenco, encabeçado por Thomas Jane (“O Justiceiro”) e que ainda tem Toby Jones (“Confidencial”), Marcia Gay Harden (“Sobre Meninos e Lobos”) e Andre Braugher (“Poseidon”), entre outros.

Outra diferença em relação a equivalentes do gênero é que “O Nevoeiro” é uma história mais social do que sobrenatural. É uma alegoria à paranóia e às reações tomadas por seres humanos que se encontram numa situação de perigo, encostados na parede. É um teste para a sanidade do homem e as atitudes extremas provocadas pelo desconhecido.

Depois de um longo tornado, uma estranha névoa começa a cobrir toda uma região enquanto um grupo de pessoas faz compras em um supermercado. Logos, elas ficam presas no local, pois algo escondido entre a fumaça mata qualquer um que tente sair.

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Isolados, sem contato com qualquer tipo de ajuda, o tempo vai fazendo com que eles entrem em conflito. Há quem ache melhor sair e tentar buscar reforço, quem prefira esperar, e até uma profeta do apocalipse que passa a citar trechos da bíblia e se dizer a mensageira de Deus.

Com a câmera próxima, Darabont consegue transmitir a situação claustrofóbica em que se encontram os refugiados, e de forma inteligente, prefere focar o desenvolvimento do enredo na metáfora social do que simplesmente investir no suspense batido do tipo: “o que será que há dentro da neblina?”. Por isso, o espectador não tarda a conhecer o que existe escondido na neblina, e bem aos poucos, feito “Cloverfield”, vai descobrindo o formato dos monstros.

Obviamente não faltam alguns clichês, como o conflito entre as pessoas para saber qual a melhor atitude a ser tomada, e as presenças do sujeito repugnante e caricato para provocar antipatia na platéia, e o estúpido que faz uma besteira antes da hora e acaba, claro, decepado.

Aliás, quem tem estômago fraco é melhor passar longe. Pois são várias as cenas com muito sangue, membros e tripas dilacerados em close. Mas quem sobreviver aos primeiros retalhos, não irá sair decepcionado.

Graças a um time de atores selecionado a dedo, cada segundo de projeção ganha elevados tons de dramaticidade. Thomas Jane, por exemplo, ao contrário de “O Justiceiro”, quando foi prejudicado por um roteiro limitado, tem atuação intensa, vivendo David Drayton, um pai que ao mesmo tempo precisa defender o filho e se arriscar tomando a dianteira na situação de risco.

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Também merecem destaque o baixinho e expressivo Toby Jones, (do belo “O Despertar de Uma Paixão”, com Edward Norton e Naomi Watts, e que interpretou Truman Capote  em “Confidencial”) e aqui vive a figura surpresa, aquela que ninguém dá nada, mas na hora “H” toma atitudes surpreendentes. E nem mesmo o garoto Nathan Gamble decepciona como o filho de Drayton, longe da mãe e temendo pela perda do pai. 

E por fim Marcia Gay Harden, aquela cujo papel retrata a fé cega de inúmeros fiéis ao redor do globo, inclusive os terroristas que deturpam o Al Corão. Sua personagem Mrs. Carmody pode não ser levada a sério num primeiro instante, mas representa muito do que acontece há tempos na sociedade: ao se deparar com o desconhecido, o diferente, o inexplicável, a mente humana é tomada pelo medo, perde a consciência e parte para iniciativas radicais e criminosas. Foi assim com as bruxas queimadas durante a inquisição ou os jovens assassinados pelo bando de Charles Manson. E Harden tem a feição e os trejeitos perfeitos para encarnar esse tipo de pessoa, que de tempos em tempos forma rebanhos para pregar a moral e os bons costumes, transformando palavras em caos.

E “O Nevoeiro” é um tratado sobre isso: o medo. Tirando a subtrama envolvendo Andre Braugher, que no começo tenta gerar tensão sem resultar em nada que modifique o rumo da trama, o filme é uma obra densa, que critica o fanatismo religioso, a facilidade com que nos apegamos à primeira opção de escapatória e dá uma cutucada no militarismo americano, além de traçar paralelos com o clima político dos EUA pós 11 de setembro.

A cena final, chocante e surpreendente, diferente do desfecho escrito por Stephen King, e que tem o mesmo tom de um famoso conto de Ray Bradbury, publicado no livro “O Homem Ilustrado”, de 1951, é a metáfora ideal para as atitudes precipitadas causadas pelo temor, interpretada de maneira intensa por Thomas Jane e que, assim como as já citadas antagônicas adaptações para o cinema dos livros de King, deverá gerar amor e repulsa. Mas acima de tudo, “O Nevoeiro” trata-se uma obra de terror que sai do lugar comum no gênero terror e prende a atenção do público.

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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