Entre o Céu e o Inferno

Por: André Azenha

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Entre o Céu e o Inferno (Black Snake Moan, EUA, 2006). Direção e roteiro: Craig Brewer. Elenco: Samuel L. Jackson, Christine Ricci, Justin Timberlake. Drama.

8,5

Lembra de Christina Ricci, aquela que fez Vandinha em “A Família Addams” e participou de “Gasparzinho”. Pois é, ela cresceu, filmou com Woody Allen e fez até terror. Ponto. Esqueça os papéis anteriores da atriz e imagine-a loira, devassa, ninfomaníaca e nua em inúmeras cenas de uma história narrada à base de muitos blues e lições do lendário Son House (1902-1988).

“Entre o Céu e o Inferno” tem tudo isso, uma boa dose de drama e também Samuel L. Jackson em grande interpretação na pele de um velho bluesman traído pela mulher amada e pelo próprio irmão que decidiram se tornar amantes e viver juntos. Sem tocar há anos e deprimido, ele descobre sua “missão” ao se deparar com Rae (Ricci), menina que sofreu abusos na infância e não consegue ficar cinco minutos sem transar com o primeiro sujeito aparecer pela frente.

Ao ver o namorado (o cantor Justin Timberlake em sensível performance) partir para a guerra, a garota cai de cabeça em transas, festas e acaba esmurrada por um “amigo” do namorado. Desmaiada no meio de uma estrada, com poucas roupas, ela é encontrada pelo guitarrista, que decide salvá-a, com métodos dignos de exorcismo. Correntes para prendê-a e banho gelados para acabar com o “fogo” dela são as soluções.

A história no começo pode soar mais uma obra caricata mergulhada em apelação, mas o diretor e roteirista Craig Brewer (de “Ritmo de Um Sonho”) trata de dar à trama um teor sensível, e por mais que risadas de canto de boca possam surgir quando Ricci “devora” os homens, o espectador acaba torcendo pela personagem.

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E quanto a “salvação” imposta por Jackson, é bom saber que o texto não prega a religião. Quem der uma rápida estudada na história do blues logo vai perceber que os negros do Mississipi e seus ancestrais eram religiosos intensos, leitores da bíblia, e que depositavam muito disso até em suas composições.

Já, em relação ao fato de, em certo momento, Jackson ameaçar matar o próprio irmão, não há nada de forçado ou mentiroso. Antigos bluesmen matavam e morriam por amor, baby. O próprio Magic Slim, que esteve no Brasil em turnê, carrega uma bala no quadril, vítima de uma discussão cujo motivo foi uma mulher. Não cabe a nós julgar.

Infelizmente, por suas cenas “pesadas”, o filme não passou nos cinemas brasileiros e foi lançado direto no mercado de home vídeo.

Destaque para a trilha sonora (lista das faixas abaixo), repleta de belas canções de blues (incluvise com Samuel L. Jackson competente quando é encarregado de tocar e cantar), na ótima ambientação de época e os figurinos (a cena do show no bar é um retrato fiel dos shows de blues no Mississipi, com todo o suor e animação dos presentes) e as imagens de arquivo de Son House ensinam bastante sobre esse gênero musical padrinho do rock.

No final, “Entre o Céu e o Inferno” tem vários paralelos com o blues. É uma obra sobre redenção, espiritualidade e amor, em que as pessoas precisam espantar seus “demônios” ou simplesmente seguir em frente e conviver com eles.

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Trilha sonora:

1 – When The Lights Go Out Escrita por Daniel Q. Auerbach & Patrick J. Carney.Interpretada por The Black Keys.

2 – Lord Have Mercy On me Escrita por Junior Kimbrough.Interpretada por Outrageous Cherry.

3 – Standing In My Doorway Crying Escrita e Interpretada por Jessie Mae Hemphill.

4 – Pass And FailEscrita por Erika Wennerstrom.Interpretada por The Heartless Bastards.

5 – Mr. Oblivian Escrita por Michael Paul Walker.Interpretada por Eldorado and the Ruckus.

6 – The Losing Kind Escrita e Interpretada por John Doe.

7 – Just Like A Bird Without A Feather Escrita por R.L. Burnside.Interpretada por Samuel L. Jackson e Kenny Brown.

8 – Hate On Escrita por Al Kapone e John Shaw.Interpretada por Al Kapone.

9 – Morning Train Interpretada por Precious Bryant.
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10 – Chicken Heads Escrita por Bobby Rush e Calvin Carter.Interpretada por Bobby Rush.

11 – Catfish Blues Escrita por Robert Petway.Interpretada por Samuel L. Jackson.
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12 – Jack’s Blues Escrita e Interpretada por Big Jack Johnson.

13 – Catfish Medley Interpretada por Samuel L. Jackson e Big Jack Johnson.

14 – Jesus On The Mainline Interpretada por Tate County Singers.

15 – Granny, Do Your Dog Bite? Escrita por Otha Turner.Interpretada por Otha Turner e The Rising Star Fire & Drum Band.

16 – Lonesome In My Home Escrita e Interpretada por Junior Kimbrough.

17 – A Town With No Shame Escrita e Interpretada por Jimbo Mathus.

18 – Old Black Mattie Escrita e Interpretada por R.L. Burnside.

19 – All I Need Is Some Sunshine In My Life Escrita por W. Dean Parker.Interpretada por The Dixie Nightingales.

20 – Black Snake Moan Interpretada por Samuel L. Jackson and Jason Freeman.

21 – Balm In Gilead Interpretada por S. Epatha Merkerson.

22 – My Baby Got Drunk Escrita e Interpretada por Paul “Wine” Jones.

23 – Alice Mae Escrita por R.L. Burnside e Kenny Brown.Interpretada por Samuel L. Jackson, Kenny Brown e Cedric Burnside.

24 – Stackolee Interpretada por Samuel L. Jackson, Kenny Brown, Luther Dickinson e Cedric Burnside.

25 – This Little Light Of Mine Interpretada por Christina Ricci e Alvin Youngblood Hart.

26 – Mean Ol’ Wind Died Down Escrita por Luther Dickinson.Interpretada por North Mississippi Allstars.

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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