Onde Os Fracos Não Têm Vez

O velho oeste revisionado, a desesperança como mote para um enredo tenso e uma atuação insana de Javier
Por André Azenha, editor (15/02/2009) // Comente

Por: André Azenha

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Onde os Fracos Não Têm Vez (No Country for Old Men, EUA). Direção: Ethan Coen e Joel Coen. Roteiro: Ethan Coen e Joel Coen em livro de Cormac McCarthy. Elenco: Javier Bardem, Tommy Lee Jones. Josh Brolin, Woody Harrelson. Drama. 122 min. (Cor).

9,0

O mundo está perdido, mergulhado num caos em que predominam o dinheiro e a violência. Esse olhar pessimista sobre a humanidade já foi abordado no cinema algumas vezes, mas dessa vez ganhou uma ótica especial sob o ponto de vista de Ethan Coen e Joel Coen, mais conhecidos como irmãos Coen, cineastas autores de pérolas da sétima arte como “Gosto de Sangue”, “Arizona Nunca Mais”, “Ajuste Final”, “Na Roda da Fortuna”, “Fargo” e “O Homem Que Não Estava Lá”. Para isso, basearam-se no livro “No Country for Old Men”, de Cormac McCarthy, lançado em 2003, e selecionaram um excepcional elenco, fazendo da produção, a grande vencedora do Oscar em 2008, levando as estatuetas de Filme, Direção, Roteiro Adaptado e Ator Coadjuvante (Javier Barden).

A paisagem da história é árida, no Texas dos anos 80. Josh Brolin (“O Gãngster”) é Llewelyn Moss, um caçador que por um golpe do destino encontra no meio do deserto carros e cadáveres, vítimas de uma negociação que deu errado. Em um dos veículos ele se depara com uma mala recheada de dólares, e decide ficar com o dinheiro. Mos sabe que, logo logo, alguém virá em seu encalço, e para seu azar, quem sai à sua caça é Anton Chigurh (Javier Barden), um assassino frio, que utiliza uma arma usada para abater gado, que não necessita de balas e não deixa resquícios – assim sendo, suas vítimas não são nada mais do que animais a serem abatidos para ele. Completando o núcleo principal da trama está o xerife Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones), que tenta chegar a Llewelyn antes de Anton, e fica cada vez mais perplexo com a barbárie imposta pelo psicopata.

Como é costume na carreira dos irmãos cineastas, eles procuraram desenvolver de forma complexa seus personagens e os diálogos. E foram fiéis ao livro de McCarthy. Entre tantas sequências excepcionais, vale destacar a cena em que Chigurh e Carson Wells (personagem de Woody Harrelson, em pequena e ótima aparição) se encontram cara a cara.

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Além do excepcional texto, contou para a soberba construção de cada personagem as excelentes atuações do elenco. Com um cabelo chanel e apresentando um olhar insano, porém sem jamais perder o tom pacífico da voz, Javier Barden construiu um dos vilões mais instigantes e apavorantes da história recente do cinema. Sua estatueta foi extremamente merecida.

Josh Brolin, por sua vez, também tem bom desempenho, fazendo de seu caçador que se transforma em caça, um sujeito típico sulista, de sotaque carregado (mas sem exageros), ex-combatente do Vietnã, que não tem medo de enfrentar seu inimigo e nem poupa aqueles à sua procura.

Já Tommy Lee Jones manteve a série de boas atuações. Indicado ao prêmio da Academia do mesmo ano por “No Vale das Sombras”, seu xerife nada mais é que um senhor cansado, um tanto acomodado, que mesmo tentando parar com a onda de crimes, sabe que a história dificilmente terá um final feliz. Seu papel nada mais é que a referência do título original da obra. Afinal, o mundo atual não é uma terra para pessoas de valores antigos. As coisas mudaram. O caos aumentou. O mal está vencendo. Se em “Três Enterros” (um longa também passado em meio ao deserto americano) seu personagem também era desgastado, porém sua atitude era muito mais incisiva para corrigir uma injustiça, aqui ele praticamente está entregue, e conformado.

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Também vale destacar o belo trabalho sonoro na produção Não à toa, a obra foi indicada ao Oscar em Edição de Som e Mixagem de Som. O clima de tensão iminente e suspense permeiam por toda a projeção, mas os Coen jamais se utilizam de clichês como sons que aumentam tentando criar angústia na platéia. São cenas perturbadoras, que magnetizam as atenções do público. Em certo instante, vemos uma pequena embalagem se abrindo vagarosamente em um balcão, criando a deixa para uma tragédia acontecer. Outras cenas ganham tensão, ao se passarem quase em silêncio absoluto, como aquela em que Brolin e Barden parecem se estudar, separados pela porta de um quarto de motel.

“Onde Os Fracos Não Tem Vez” acaba sendo um filme de velho oeste revisitado, com aqueles códigos de ética e moral deturpados. E utiliza essa região americana como um reflexo do mundo atual, pois o simples fato de atravessar uma rua ou um cruzamento de trânsito, pode representar o fim de uma vida.

A obra dos irmãos Coen surgiu como um filme “cult”, mas passou a arrebatar prêmios mundo afora e acabou se tornando a principal ganhador do Oscar em 2008.

Talvez algumas pessoas reclamem do desfecho anticlimático, mas a intenção foi essa mesma: lembrar que o Planeta Terra está repleto de injustiças e que, aqueles que poderiam intervir, encontram-se cansados e entregues ao caos do mundo.

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André Azenha é jornalista, editor dos sites CineZen e CulturalMente Santista, autor do livro Poesia a Quatro Mãos, feito em parceria com sua mãe, a poetisa Regina Azenha. Trabalhou com o crítico de cinema Rubens Ewald Filho, escreveu para a revista Época São Paulo e colabora com veículos de imprensa de vários estados. Em 2011, mediou o ciclo Documentários Comentados, no SESC Santos. É assessor de imprensa e realiza encontros culturais, a maior parte de caráter beneficente.


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