A Marcha dos Pinguins
Por: André Azenha
A Marcha dos Pinguins (La Marche de L’Empereur, França, 2005). Direção: Luc Jacquet. Roteiro: Michel Fessler, baseado em roteiro de Luc Jacquet. Vozes: Morgan Freeman (narrador da versão americana), Antônio Fabundes, Patrícia Pillar (narradores da versão brasileira). Documentário. 85 min. (Cor).
9,0
Nós, seres humanos, animais racionais, costumamos ficar abismados quando presenciamos outras espécies do reino animal defendendo sua prole, acasalando, vivendo em comunidade e em paz. Geralmente os comentários são do tipo: “que fofo” e/ou “que lindo”. E não é de se esperar menos, numa época que a individualidade cresce cada vez mais e conflitos tomam conta do planeta, tornando a relação entre nós, animais racionais, cada vez mais irracionais.
A “Marcha dos Pinguins” é deste tipo de filme em que o espectador deixa a sala falando “que fofo” e/ou “que lindo”. Conta a trajetória do pinguim imperial, que inspirou o título original, “La Marche de L’Empereur” (traduzindo: A Marcha do Imperador, nome que chegou a ser anunciado nos trailers aqui no Brasil), que vai da marcha de milhares da espécie em fila indiana em busca do local ideal para a procriação, passa pela procura das fêmeas por comida para os filhotes, quando os pais se encarregam de tomar conta dos ovos, até o retorno e o nascimento da nova geração.

As cenas impressionam, mérito do trabalho dos diretores de fotografia Jérôme Maison e Laurent Chalet (esse com experiência em documentário e ficção), que ficaram um ano na Antártida, sem a presença do diretor, captando cerca de 1020 horas de imagens (sendo 70 destinadas a este filme). Em vários momentos esquecemos que se trata de um documentário, pois, como em uma história, em sua viagem, os pinguins se deparam com desafios contra grandes tempestades de gelo, animais que tentam (e conseguem) se alimentar dos próprios e de sua cria, e principalmente pelas vozes que interpretam o casal “protagonista” da narrativa e seu filhote. Aliás, esse é um ponto que foi bastante criticado; porém, melhor assim (algumas vezes chega a ser engraçado escutar Antônio Fagundes e Patrícia Pillar, na versão brasileira, como a dupla central) do que aquelas narrações vagarosas dos National Geografic e programas da Discovery da vida.

Existem também momentos engraçados, como quando surgem os filhotes que alcançam a liberdade de caminhar sozinhos e escorregam na superfície gelada ou quando duas fêmeas tentam passar ao mesmo tempo em um buraco no gelo em direção à água e ficam entaladas. Com a intenção de Jacquet de tornar a saga do pinguim imperial uma lenda, grande parte de sua obra acaba por humanizar esse tipo de ave que não voa e sabe nadar. Mas nem sempre é assim. Ao presenciarmos uma mãe que perdeu seu filhote tentar roubar o de outra, lembramos se tratar de um animal irracional e que acima de tudo, sua trajetória se dá não por amor (por mais que achemos “fofo” e “lindo” e tentemos acreditar no contrário), mas sim para manter viva a espécie em uma batalha incessante e também bonita pela sobrevivência.
“A Marcha dos Pinguins” (que teve orçamento de U$ 8 milhões) venceu o Oscar de Documentário e outros onze prêmios ao redor do planeta, incluindo da crítica em Chicago, Las Vegas, Melhor Som no Cesar (o Oscar francês), entre outros. Não dava para esperar menos da obra que desbancou “O Fabuloso Destino de Amelie Poulain” do posto de filme mais rentável da história do cinema francês e se tornou o segundo documentário mais visto nos Estados Unidos, perdendo apenas para “Fahrenheit 11/9”, de Michael Moore. Filmado em película, com imagens fantásticas (até das auroras boreais) e bela trilha sonora (de Emilie Simon), o longa é um trabalho praticamente impecável.