Beijo Roubado, Um

O chinês Wong Kar Way fez de seu primeiro filme de língua inglesa um bonito road movie repleto de metáforas em que a cantora Norah Jones (estreando como atriz) parte pelos EUA numa viagem buscando superar uma perda amorosa. A bela trilha sonora é de Ry Cooder
Por André Azenha, editor (14/02/2009) // Comente

Por: André Azenha

beijoumUm Beijo Roubado (My Blueberry Nights, Hong Kong / EUA, 2007). Direção: Wong Kar-Wai. Roteiro: Lawrence Block e Wong Kar-Wai, baseado em estória de Wong Kar-Wai. Elenco: Jude Law, Norah Jones, Natalie Portman, Rachel Weisz, David Strathairn. Drama. 90 min. (Cor).

8,5

O cineasta chinês Wong Kar-Wai é especialista em filmar liricamente a solidão e os desencontros do amor. Foi assim nos belos “Amor à Flor da Pele” e “2046”. Sua estréia em língua inglesa, “Um Beijo Roubado”, vai pelo mesmo caminho, e conta com um ótimo elenco.

Nova York. Jeremy (Jude Law) administra um pequeno café e restaurante. Elizabeth (a cantora Norah Jones, estreando no cinema) descobre que seu namorado esteve com outra mulher no local. Ela rompe o namoro e deixa suas chaves com Jeremy, caso seu ex-namorado as queira de volta. Elizabeth retorna ao café várias vezes e ambos iniciam uma amizade – os dois perderam amores, cada um de uma maneira, e encontram um no outro, uma válvula de escape, algo em comum no meio de uma metrópole onde muitas pessoas sentem-se solitárias.

beijodois

Em busca de redenção, ela parte numa viagem pelos Estados Unidos e depara-se com situações mais desesperadoras que a sua, e passa a enviar cartões postais ao novo amigo, sem nunca dizer onde exatamente está.

Pelo caminho, conhece o policial Arnie Copeland (David Strathairn, de “Boa Noite Boa Sorte”), que se tornou alcoólatra pois não aceita o fato de Sue Lynne (a maravilhosa Rachel Weisz), sua esposa, tê-lo deixado. E testemunha o trágico desdobramento desta separação. Em Nevada, conhece Leslie (a também maravilhosa Natalie Portman), expert em pôquer. Todas essas pessoas têm situações dramáticas que precisam ser resolvidas.

beijotres

O filme é um bonito road movie sobre a solidão americana, muito bem embalado por um visual caprichado, e por mais que o desfecho possa parecer óbvio demais e as resoluções do roteiro para os inúmeros casos sejam resolvidas de forma rápida, impossível não apreciar uma obra cinematográfica que tenha duas das mulheres mais lindas do mundo, Rachel Weisz e Natalie Portman (ótimas em suas respectivas interpretações), e agora, Norah Jones (que estreou como atriz com o pé direito, cuja atuação simples, de feições econômicas, casou perfeitamente com seu papel de observadora). Strathairn, como de costume, também se saiu muito bem e Jude Law marca presença com carisma para alegria do público feminino. Atentem ainda para a ponta da cantora Cat Power como ex-namorada russa de Law.

Merecem elogios também a fotografia de Darius Khondji (“Se7en”) e a trilha sonora repleta de blues e jazz de Ry Cooder (“Paris, Texas”). Além disso, Kar-Wai preenche as lacunas do longa com sua marca registrada: cores dessaturadas, slow motion, pequenos close ups e referências que somente os mais atentos irão perceber: o café pertencente a Jeremy chama-se Klyuch. Trata-se da palavra “chave” em russo. As chaves, por sinal, simbolizam a possibilidade das pessoas terem a chance de voltar à vida de alguém ou estarem com as portas fechadas para isso. Já o nome original (“My Blueberry Nights”) do filme é uma comunhão da torta de mirtilio (blue-berry) adorada pela protagonista e a tristeza (blue) dos personagens. Também é perceptível a intenção de focalizar o sorvete de baunilha derretendo, como metáfora para os amores não correspondidos que se despedaçam aos poucos.

Talvez não seja o melhor trabalho de Kar-Way, mas não dá para negar a beleza da produção. Assista e apaixone-se.

beijoquatro

Conteúdo relacionado:

André Azenha é jornalista, editor dos sites CineZen e CulturalMente Santista, autor do livro Poesia a Quatro Mãos, feito em parceria com sua mãe, a poetisa Regina Azenha. Trabalhou com o crítico de cinema Rubens Ewald Filho, escreveu para a revista Época São Paulo e colabora com veículos de imprensa de vários estados. Em 2011, mediou o ciclo Documentários Comentados, no SESC Santos. É assessor de imprensa e realiza encontros culturais, a maior parte de caráter beneficente.


A Marcha dos PinguinsNa Natureza Selvagem

Escreva seu comentário

Campos obrigatórios