007 – Quantum of Solace

Pela primeira vez um filme continuou a história de seu antecessor na franquia mais antiga do cinema. E "Quantum of Solace", apesar de inferior a "Cassino Royale", estabeleceu Daniel Craig no papel e tem boas cenas de ação
Por André Azenha, editor (13/02/2009) // Comente

Por: André Azenha

quantum007 – Quantum of Solace (Quantum of Solace, 2008). Direção: Marc Foster. Roteiro: Paul Haggis, Neal Purvis e Robert Wade. Elenco: Daniel Craig, Olga Kurylenko, Mathieu Amalric, Judi Dench, Jeffrey Wright, Gemma Arterton. Ação / Aventura / Espionagem. 106 min. (Cor).

8,0

O vigésimo segundo filme da franquia mais antiga do cinema precisou enfrentar o velho desafio das continuações de filmes que fizeram sucesso e ganharam elogios da crítica. O longa anterior, “Cassino Royale”, não só literalmente reiniciou a série do zero, como de longe foi a melhor de rodas as produções cinematográficas baseadas nos livros de Ian Fleming (que estaria completando cem anos em 2008). Influenciado pela trilogia “Bourne”, o filme surgiu menos fantasioso que os demais, e com um ator fora dos padrões para o personagem central (baixinho, loiro, enquanto que nos livros James Bond é descrito como alto e moreno), porém se aproximando da verossimilhança, capaz de sangrar e sem medo de ir para a porrada.

Por isso as expectativas eram tantas, e “Quantum Of Solace” inevitavelmente sofreria as comparações. Sendo o filme com o menor tempo de duração da série (106 minutos, tirando o posto de “007 Contra o Satânico Dr. No” e “007 Contra Goldfinger”, que possuem 110 minutos cada um) pela primeira vez a platéia pôde conferir uma continuação na acepção da palavra na série, com a trama começando exatamente onde “Cassino Royale” havia acabado.

Encontramos James Bond primeiro na a Itália, e depois o vemos passando por uma série de países, em busca de vingança pela morte de Vesper Lynd (Eva Green), da história anterior. Ele vai para o Haiti, Áustria, Inglaterra e Bolívia, abusando da permissão para matar que os dois zeros antes do número sete lhe garantem. E é durante este percurso que conhece Camille (Olga Kurylenko, que mantém a tradição das belas Bond Girls), que está em sua própria cruzada vingativa. Enquanto Bond quer pegar os culpados pela morte de Vesper, Camille vai atrás do ditador que assassinou seu pai, envolvido numa tentativa de golpe militar na Bolívia, e ajudado por uma organização criminosa.

Dirigido por Marc Forster (“A Última Ceia”, “Em Busca da Terra do Nunca”, “O Caçador de Pipas”), o filme tem início de forma incendiária, com grandes sequências de ação, mas justamente por suceder “Cassino Royale”, acaba deixando seus defeitos mais visíveis. Talvez “defeitos” seja uma expressão até exagerada. Pois a obra é bem filmada, entretém, mantém a fama de galanteador do espião, que leva para a cama e maravilhosa ruiva Strawberry Fields (Gemma Arterton, do recente “Rocknrolla” e que estará em “Prince of Persia”).

Mas talvez justamente pelo tempo reduzido de projeção, o longa perca aquilo que fez o antecessor se sobressair e ressuscitar a franquia moribunda: tornar o personagem principal mais próximo da realidade, humanizado, capaz de se envolver emocionalmente com uma garota e sofrer de forma intensa a perda da mesma. Em “Quantum Of Solace” os personagens não são trabalhados da mesma forma. A única relação um pouco mais detalhada é do agente com sua chefe M (a sempre ótima Judi Dench), deixando clara a forma maternal como ela cuida do seu pupilo. Nem o envolvimento de Bond com Camille chega a tomar caminhos mais próximos, pois o que os une é o fato de ambos estarem buscando vingança.

Nesse sentido, a forma como a trama foi sendo trabalhada na mídia ao longo dos anos pode ter criado um clima de que veríamos um filme sobre “vendetta”, mas o roteiro co-escrito por Paul Raggis (ator de “Menina de Ouro” e “Crash – No Limite”) não chega a tomar caminhos mais radicais também.

A abertura continua ao som de canção pop, agora “Another Way To Die”, cantada por Jack White e Alicia Keys, mas que não chega a empolgar.

Graças a esses motivos, o filme acaba soando inferior ao anterior, mas ainda assim é melhor à maioria dos outros longas da franquia. Daniel Craig afirma-se no papel, é um sujeito carismático, o elenco é bom (destacando, fora Craig e Dench, Mathieu Amalric, astro de “O Escafrando e a Borboleta”, como o vilão, e também a própria Olga Kurylenko) e o público que busca cinema de ação não tem do que reclamar. Entre erros e acertos, vale conferir.

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André Azenha é jornalista, editor dos sites CineZen e CulturalMente Santista, autor do livro Poesia a Quatro Mãos, feito em parceria com sua mãe, a poetisa Regina Azenha. Trabalhou com o crítico de cinema Rubens Ewald Filho, escreveu para a revista Época São Paulo e colabora com veículos de imprensa de vários estados. Em 2011, mediou o ciclo Documentários Comentados, no SESC Santos. É assessor de imprensa e realiza encontros culturais, a maior parte de caráter beneficente.


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