Senhores do Crime

Por: André Azenha

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Senhores do Crime (Eastern Promises, EUA / Canadá / Inglaterra, 2007). Direção: David Cronemberg. Roteiro: Steven Knight. Elenco: Naomi Watts, Viggo Mortensen, Vincent Cassel, Armien Mueller-Stahl. Suspense / Drama / Policial. 100 min. (Cor).

9,0

“Senhores do Crime” é o segundo trabalho em conjunto do diretor David Cronenberg (“A Mosca”) e o ator Viggo Mortensen (da trilogia “O Senhor dos Anéis”), e assim como “Marcas da Violência” (2005), aborda violência e sexo de forma peculiar. A diferença é que sai o cenário pacato de uma cidadezinha interiorana dos EUA (do longa anterior), para dar lugar à Londres onde a máfia russa controla uma rede de prostituição.

Naomi Watts (“O Chamado”) é Anna, parteira que testemunha a morte de uma jovem grávida durante o parto realizado em pleno Natal. Mas o bebê sobrevive. Ela decide dar a notícia à família da garota pessoalmente. A busca acaba colocando-a em contato com a bandidagem – Anna está com um diário, cujos relatos da jovem falecida podem comprometer o chefão de uma organização russa. Nesse contexto, ela então conhece Nikolai (Mortensen), o misterioso “motorista” dos criminosos.

Primeiro longa-metragem dirigido por David Cronenberg rodado inteiramente fora do Canadá (as locações foram todas na Inglaterra), o longa é muito mais que um trabalho “sobre máfia”. É um mergulho profundo nas motivações de seres humanos antagônicos. E conta com um excepcional trabalho do elenco.

Viggo Mortensen foi indicado ao Oscar pelo papel e talvez tenha sido o que mais se aproximou, ao menos como intérprete, do espetacular desempenho de Daniel Day-Lewis (ganhador do do prêmios da academia na mesma ocasião) em “Sangue Negro”, na temporada 2008. A diferença é que, enquanto o personagem de Lewis tem vontade de se isolar da humanidade, o público não sabe quais as motivações de Nikolai – reveladas só no ato final da projeção.

E ao menos uma cena já faz parte daquelas que serão sempre lembradas por muitos anos na sétima arte. A sequência de Mortensen na sauna não somente é extremamente realista como também reúne os temas prediletos de Cronemberg: nudez e violência.

Viggo mergulhou de cabeça no personagem. Para se preparar, viajou sozinho a Moscou, depois São Petersburgo e a região da Sibéria, onde passou semanas sem qualquer tradutor. Neste período, estudou as gangues locais, leu livros sobre as prisões russas e percebeu a importância das tatuagens como representação dos crimes cometidos. E ainda treinou o sotaque siberiano e aprendeu frases em russo e ucraniano, usadas durante as filmagens.

Quem também seduz o espectador é a sempre bela Naomi Watts. Tudo bem que em certo momento a platéia pode achar Anna uma boba, que está se metendo onde não deve. Mas a atriz tem carisma e tem bom desempenho como a enfermeira solteira, sem pai, que precisa viver com a mãe e acaba se apegando ao bebê, talvez como forma de curar uma carência afetiva.

Curiosamente, Watts descobriu que estava grávida duas semanas após o início das filmagens. Inicialmente ela tentou esconder a gravidez, mas a figurinista Denise Cronenberg percebeu sua situação.

Também destacam-se Armin-Mueller-Sthal como o chefão do crime, e seu filho interpretado pelo expressivo Vincent Cassel (“Irreversível”).

Além de servir para mostrar uma realidade chocante na tão badalada capital inglesa, “Senhores do Crime” faz algumas analogias. Os mafiosos russos carregam tatuagens espalhadas pelos seus corpos. Os desenhos significam passagens importantes em suas vidas e em alguns casos são conquistados mediante a realização de atos hediondos. São motivos de orgulho entre o grupo, mas são guardados embaixo de ternos elegantes. Essa maneira de esconder as tattoos pode ser enxergada como uma forma de representar as várias personalidades escondidas em cada um. Inclusive, a masculinidade e seu erotismo são questionados na produção.

Com tantas qualidades, o exímio trabalho realizado por Cronenberg aliado ao time de atores foi reconhecido pela crítica, sendo lembrado com indicações ao Globo de Ouro, Bafta, o Oscar e premiado com o Prêmio do Público no Festival de Toronto.

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André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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