O Despertar de Uma Paixão é cinema clássico com trama profunda e bom gosto

O melhor filme de 2007 é uma jornada às belas paisagens do interior da China do início do século passado, protagonizado por excelentes atores e com uma bonita história sobre a descoberta do amor
Por André Azenha, editor (12/02/2009) // Comente


“O Despertar de Uma Paixão” foi lançado no finzinho de 2006 em circuito restrito nas cidades de Los Angeles e Nova York, com o intuito de ainda tentar alcançar algumas indicações para o Oscar do ano seguinte. A crítica americana elogiou a obra e alardeou prováveis premiações. Mas os principais troféus não aconteceram, com exceção à maravilhosa trilha sonora original de Alexandre Desplat, vitoriosa no Globo de Ouro.

Talvez a pressa em lançar o filme tenha prejudicado uma caminhada que poderia ter sido melhor em festivais mundo afora, com uma divulgação melhor programada. Pois o longa tem duas estrelas de renome que também são atores talentosos e desempenham excelentes atuações, conta com bela fotografia, locações esplêndidas e ótima ambientação de época.

Engavetado desde 1999 por Edward Norton, a produção começou realmente a ganhar vida quando, em 2001, Naomi Watts aceitou participar do filme (ela queria férias após os oito meses de filmagens de “King Kong” e “O Despertar de Uma Paixão” foi adiado mais alguns meses) como protagonista e produtora ao lado do ator. Sem conseguir financiamento, o projeto finalmente começou a sair dos papéis somente em 2003, quando a Warner Independent entrou na jogada, com o dinheiro necessário.

Adaptada do romance de 1925, “O Véu Pintado” (já filmado com Greta Gabo em 1934), escrito por W. Somerset Maugham, a trama retrata a China do início do século passado. Norton vive o bacterologista Walter Fane, enquanto Watts interpreta Kitty, moça mimada que vê no rapaz uma boa chance de desencalhar – naqueles tempos, quem não arrumasse um marido até certa idade, sofria com fofocas e olhares tortos por parte de uma sociedade hipócrita.

O desinteresse pelo marido a leva a um caso extraconjugal. Ao descobrir a traição, Walter decide se vingar: ou ela se junta a ele em uma viagem ao interior da China ou enfrenta o escândalo do adultério.

Com a viagem para o coração do Oriente, onde Walter trabalha em áreas com epidemia de cólera (importante lembrar que naquele período a doença não tinha uma cura como atualmente), Kitty vai finalmente descobrindo o marido e o que fazer com sua vida. No pano de fundo da história, ainda há um importante recado sobre o colonialismo que o ocidente impõe sobre as outras nações.

Por mais que o ritmo do longa soe lento, dá chances ao espectador saborear belas nuances nas atuações de todo o elenco, inclusive dos coadjuvantes. Destaque para Toby Jones, o Capote de “Confidencial”, novamente bem e completamente diferente do outro papel.

Relegado às salas voltadas ao “cinema de arte” no Brasil, e poucos horários nas grandes redes de cinema, “O Despertar de uma Paixão” não despertou a atenção que merecia. Trata-se de cinema com C maiúsculo, redondo, bonito, bem dirigido e intenso, que versa sobre temas inerentes aos nossos sentimentos: redenção, relações amorosas, autoconhecimento e conhecimento ao próximo. É daquelas obras em que a plateia dificilmente sai sem algum tipo de sentimento forte. O melhor filme que passou nos cinemas brasileiros em 2007.

O DESPERTAR DE UMA PAIXÃO
(The Painted Veil, EUA / China / Canadá, 2006)
Direção: John Curran.
Roteiro: Ron Nyswaner, baseado em livro de W. Somerset Maugham.
Elenco: Edward Norton, Naomi Watts, Liev Schreiber, Toby Jones.
Drama.
125 min.
(Cor).

Principais prêmios e indicações:

Globo de Ouro: Trilha sonora.

Crítica de Los Angeles: Trilha sonora.

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André Azenha é jornalista, editor dos sites CineZen e CulturalMente Santista, autor do livro Poesia a Quatro Mãos, feito em parceria com sua mãe, a poetisa Regina Azenha. Trabalhou com o crítico de cinema Rubens Ewald Filho, escreveu para a revista Época São Paulo e colabora com veículos de imprensa de vários estados. Em 2011, mediou o ciclo Documentários Comentados, no SESC Santos. É assessor de imprensa e realiza encontros culturais, a maior parte de caráter beneficente.


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