Santos e Demônios

Por: André Azenha

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Santos e Demônios (A Guide to Recognizing Your Saints, EUA, 2006). Direção e roteiro adaptado de livro de sua autoria: Dito Montiel. Elenco: Robert Downey Jr., Dianne Wiest, Rosario Dawson, Channing Tatum, Shia LaBeoulf, Chazz Palminteri, Eric Roberts. Drama. 98 min. (Cor).

8,5

A arte muitas vezes foi influenciada pela vivência pessoal de seus realizadores. Poemas, livros e canções sempre serviram para dar vazão aos sentimentos e angústias de muitas pessoas. Orlando Anthony Montiel Jr. é um desses exemplos. Dito, como é mais conhecido, passou a infância e a adolescência no problemático bairro do Queens, Nova York, até meados dos anos 80. Presenciou a prisão, o envolvimento com drogas e a morte de amigos e, tentando se desviar do destino de muitas pessoas que cresceram no bairro, acabou se tornando escritor… e cineasta. Como conseguiu sobreviver aos problemas do Queens? Como ele próprio diz, com a proteção de algum santo, ou alguns santos.

”Santos e Demônios” (é uma obra extremamente pessoal. Montiel resolveu, talvez por arrependimento, homenagear as figuras que jamais o abandonaram, mesmo quando ele deixou suas vidas, escrevendo um livro. Não satisfeito, adaptou seus escritos para o cinema, tornando-se roteirista e diretor. E se saiu bem.

O longa é um guia para reconhecer seus santos. Montiel passou boa parte de sua vida adulta na Califórnia, protegido do passado, sofrendo por aqueles que deixou para trás no Queens, seja a antiga namorada, o amigo brigão ou o pai omisso, preservando-os na memória, junto a um sentimento de culpa.

A frase que abre a trama na voz de Shia LaBeoulf (“Transformers” e “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”), intérprete do jovem Dito, revela essa culpa: “Abandonarei todas as pessoas que aparecerem neste filme”. Na juventude, ele precisou viver – e enfrentar – as pichações porto-riquenhas na porta da loja da mãe, tardes de sol escaldante, idas e vindas no metrô, mirando a paisagem caótica nova-iorquina – um prenúncio de uma fuga. Dito é um estranho em seu ambiente. Já adulto, interpretado por Robert Downey Jr., o que se vê nos olhos dele é o pedido desesperado para ser aceito de volta.

Para um cineasta estreante, Montiel concebeu um belo trabalho. Assim como Diablo Cody (roteirista premiada e celebrada de “Juno”, lançado posteriormente), ele não tinha nenhum tipo de experiência profissional relacionada ao cinema. Mas se a ex-stripper criou uma história ficcional inspirada em experiências pessoais, ele já havia ido além e escancarou suas lembranças, transformando sua própria vida e a história das pessoas que conviveu, assim como seus sentimentos, em filme.

Sua câmera flagra a essência das redondezas, pequenos gestos dos moradores e detalhes das residências e das ruas que, só quem viveu o cotidiano daquele local perceberia. E aproveita para mostrar um panorama de NY. As diferenças raciais e a evolução da cidade, que mesmo com novos comércios e edificações, continua precisando enfrentar o tráfico de drogas e problemas étnicos. Mesclou a trama com cenas da atualidade e do passado, sem jamais confundir o expectador. Sensível sem ser piegas, intenso sem soar apelativo.

Junto a isso, contou com a participação de um elenco fabuloso, com desempenhos magníficos tanto por parte dos atores conhecidos, como também dos mais jovens. Destaque para Shia La Beoulf que provou saber atuar também em um drama. Montiel não queria que LaBeoulf fosse escalado como o jovem Dito, pois preferia um artista desconhecido para o papel. O ator fez então uma nova audição na qual convenceu o roteirista de que era a pessoa certa.

Quem também tem desempenho excelente, e isso é uma redundância tratando-se dele, é Robert Downey Jr. Indicado ao Oscar pela bela atuação no premiado “Chaplin” (1992), o astro ficou um tempo afastado do cinema, chegou a ser preso pelo uso de drogas e deu a volta por cima em produções elogiadas pela crítica: “Boa Noite, Boa Sorte”, “Zodíaco”, “O Homem Duplo” e “A Pele”. E em “Santos e Demônios” Robert revela a necessidade de Dito para ser aceito de volta em pequenas nuances nas suas falas e expressões. Uma atuação forte e sutil, por mais paradoxal que possa parecer.

O restante do elenco não fica atrás. As belas Melonie Dias e Rosario Dawson (“Sin City”) vivem as duas fases da namorada de Montiel, Eric Roberts (“Heroes”) surge numa pequena participação como o Antonio (a quem o longa é dedicado) adulto e a veterana Dianne Wiest, premiada pela Academia como Atriz Coadjuvante por “Hannah e Suas Irmãs” (1986) e “Tiros na Broadway” (1994) incorpora a mãe do personagem principal.

Graças a esse conjunto de fatores a obra ganhou reconhecimento. Recebeu 3 indicações ao Independent Spirit Awards, em Ator Coadjuvante (Channing Tatum), Atriz Coadjuvante (Melonie Diaz) e Roteiro de Estréia. Ganhou o Prêmio Especial do Júri e o de Melhor Diretor – Drama, no Festival de Sundance, a Meca do cinema independente mundial. Além da platéia indie, também foi agraciado com o Prêmio da Semana da Crítica de Veneza no mesmo ano.

Um projeto pra lá de bem sucedido, que funciona como um reparo (como a personagem Briony tenta fazer em “Desejo e Reparação”) à sua ausência na vida de pessoas queridas, idealizado e realizado com bastante competência por um estreante, que conseguiu olhar para sua trajetória como se fosse um observador à parte. Se em futuras produções Montiel conseguir voltar a filmar com a mesma sensibilidade de “Santos e Demônios”, com certeza será um dos cineastas mais comemorados pela platéia cinéfila.

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André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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