Saneamento Básico – O Filme

Por: André Azenha

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Saneamento Básico – O Filme (Idem, Brasil, 2007). Direção e roteiro: Jorge Furtado. Elenco: Fernanda Torres, Lázaro Ramos, Wagner Moura, Camila Pitanga, Tonico Pereira, Paulo José, Janaína Kremer. Comédia. 112 min. (Cor).

8,5

O diretor Jorge Furtado se especializou em realizar filmes de baixo orçamento reunindo atores conhecidos da telinha. Foi assim em “O Homem Que Copiava” (2003) e “Meu Tio Matou Um Cara” (2005), quando trabalhou com Lázaro Ramos. E “Saneamento Básico – O Filme” trouxe novamente a marca do cineasta e a presença do ator, levantando algumas questões políticas e culturais de forma leve e divertida.

Para preparar o filme, Furtado seguiu a cartilha de seu mentor, Guel Arraes, para quem escreve textos (de cinema e TV) há vários anos – ou seja, planejar o texto de forma extremamente elaborada, visando diminuir a fase de filmagens e, consequentemente, economizar dinheiro. O gaúcho levou dois anos para finalizar o roteiro, cuja trama é simples, porém rica e repleta de sacadas inteligentes, principalmente para cinéfilos.

As filmagens não duraram nem um mês e, desta forma, o diretor conseguiu reunir um time de atores respeitável: Fernanda Torres, Paulo José, Bruno Garcia, Tonico Pereira, Camila Pitanga, Lázaro Ramos e Wagner Moura – é a nona produção que esses dois últimos trabalharam juntos. Além disso, Furtado beneficiou-se pelo fato de Moura e Camila Pitanga estarem em evidência, na época do lançamento do longa, graças ao par romântico que eles formavam na novela global “Paraíso Tropical”.

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A trama levanta várias questões relacionadas ao uso de dinheiro público na atividade artística e começa mostrando uma comissão de moradores formada numa pequena cidade gaúcha, para exigir da Prefeitura a construção de uma fossa que acabe com os problemas causados pela poluição do esgoto a céu aberto. Sem dinheiro para a obra, avaliada em R$ 10 mil, os gestores públicos fazem uma proposta ousada. É que uma verba federal do mesmo montante consta do orçamento municipal, mas só pode ser liberada para a filmagem de um curta-metragem. A secretária municipal sugere uma forma de burlar a lei – se os moradores conseguirem fazer, sem custo, um filminho vagabundo de 10 minutos, poderão pegar o dinheiro e construir a fossa. Marina (Fernanda Torres) e Joaquim (Wagner Moura), com a ajuda de Silene (Camila Pitanga) e Fabrício (Bruno Garcia), decidem viver seus momentos de cineastas e prometem realizar o curta, com a câmera amadora do último.

Roteirista habilidoso, Furtado dá um tapa com luva de pelica no funcionamento das leis de incentivo à cultura no Brasil. A discussão em si não é travada, mas tem a bola levantada e é o tipo de assunto que tende a gerar debate entre o público ao fim do filme.

E fora a abordagem social, o enredo possui inúmeras referências ao cinema trash, de Ed Wood a John Waters, tornando “Saneamento Básico” uma aula básica sobre a sétima arte. Muitos dos espectadores, que não têm idéia do trabalho de traduzir uma história em imagens, deverão dizer a pergunta mais repetida pelos candidatos a cineastas: “como se filma isso?”. Continuidade, figurino, patrocínio, direção de atores e até mesmo custos de produção são discutidos de forma descontraída.

Só que a obra não seria cativante caso o elenco deixasse a desejar. Completamente à vontade, destacam-se principalmente Wagner Moura, mostrando uma versatilidade impressionante no mesmo ano em que virou hit no Brasil ao viver o Capitão Nascimento em “Tropa de Elite”, e Camila Pitanga, transbordando sensualidade em cada segundo que surge na tela. O restante também se sai bem. Fernanda Torres e Bruno Garcia possuem experiência no gênero, Paulo José e Tonico Pereira são mestres e Lázaro Ramos mais uma vez tem boa atuação numa pequena, mas importante participação. Todos parecem ter se divertido bastante nas filmagens. E fica difícil não rir principalmente quando os atores, ao interpretarem cidadãos comuns que atuam pela primeira vez, falam de maneira travada ao precisarem encarar uma câmera.

“Saneamento Básico” foi um dos melhores filmes de 2007, e talvez não tenha recebido uma maior projeção graças ao burburinho em torno de “Tropa de Elite” e pela indicação de “O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias” como representante brasileiro para brigar por um posto entre os finalistas do Oscar de Filme Estrangeiro de 2008. Porém não deixa nada a desejar em relação a essas duas outras obras e é capaz de cativar todos os tipos de público – mesmo para quem não é conhecedor profundo sobre cinema, é diversão garantida.

O DVD do filme tem legendas em português (para deficientes auditivos), inglês e espanhol, áudio em português 2.0 DS e 5.1 DD, menus interativos em língua portuguesa, e extras com making of, cenas excluídas, erros de gravação, a animação do Monstro da Fossa e o trailer.

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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