Johnny e June

Por: André Azenha

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Johnny e June (Walk the Line, EUA, 2006). Direção: James Mangold. Elenco: Phoenix, Reese Whiterspoon, Ginnifer Goodwin, Robert Patrick , Dallas Roberts , Tyler Hilton. Drama biográfico / Musical. 136 min. (Cor).

8,5

“Johnny e June” é uma bonita história de amor. Amor praticamente eterno. E uma história também fé, amizade, redenção. E real. O filme conta a trajetória do cantor Johnny Cash (Joaquim Phoenix), conhecido também por se apresentar sempre vestido de preto, cantar pequenas fábulas de detentos, ter gravado um disco dentro de uma prisão de segurança máxima e pelo romance com a cantora June Carter (Reese Whitherspoon, de “Legalmente Loira”, que aqui aparece de cabelo escuro).

Mas a saga do artista não foi só isso. Nascido no interior dos Estados Unidos, filho de pais religiosos, ele teve que encarar na infância a morte do irmão mais velho, um grande amigo, o que fez com que seu pai passasse um longo tempo o culpando pela perda. Depois, ele partiu para o exército, se casou e descobriu que seu caminho seria a música.

A carreira de Cash tem início quando ele vai ao estúdio de Sam Phillips, apresenta suas canções, grava um disco e logo entra em turnê com ninguém menos que Elvis, Jerry Lee Lewis, e claro, June Carter. E o filme não é apenas sobre o cantor. Carter ganha impressionante atuação de Whitherspoon, que ao lado de Phoenix, dá vida ao casal e cantam de verdade algumas canções. Ambos foram merecidamente reconhecidos pelas atuações – ele foi indicado ao Oscar e ganhou o Globo de Ouro em Ator Comédia/Musical, e ela levou a estatueta da Academia e saiu premiada do SAG e do Globo de Ouro..

Fora o romance, a produção tem boas doses de humor. E é extremamente engraçado ver as pequenas passagens de Elvis, retratado como um cara que só fala besteira com os amigos e Jerry Lee Lewis pregando religião. Vale lembrar que Johnny fez parte do “Quarteto de Um Milhão de Dólares” junto com Elvis, Jerry e Carl Perkins.

Johnny ouvia Carter – que já cantava quando criança – desde pequeno no rádio. Ao se conhecerem na turnê criam um grande laço de amizade. Ele logo se apaixona, mas ela passa por dois casamentos, o que na época era algo inadmissível para a conservadora sociedade americana. E é na forma de resgate que o sentimento entre ambos cresce. Johhny a chama para voltar à turnê após June estar praticamente esquecida devido ao julgamento dos americanos. Ela o salva do vício das anfetaminas, o que fez com que o “homem de preto” praticamente se reergue-se. E é bacana ver que a família dela apóia o cantor mais até do que os próprios parentes so protagonista. Em certo momento da trama, em uma refeição do Dia de Ação de Graças, uma discussão entre Johnny e seu pai deixa clara as diferenças ainda existentes, que só iriam se apagar com o tempo.

O longa contém cenas de apresentações antológicas, duetos entre os artistas e acaba com a histórica apresentação na penitenciária de segurança máxima Folson, que futuramente renderia o clássico disco “Johnny Cash At Folson Prison”, que vendeu horrores e chegou a superar os Beatles na época. Algumas falas desse show no filme estão no álbum, assim como canções do calibre de Cocaine Blues, Busted e I Still Miss Someone. Muitos detentos eram fás de Cash, devido algumas de suas canções retratarem parte da rotina na penitenciária e também pelo músico ter sido preso por porte de anfetaminas, o que poderia ter despertado um sentimento de igualdade.

Mas acima de tudo, “Johnny e June” é uma linda história de amor. Em grande parte da vida dos dois, Carter se referia e Cash como um amigo, o ajudou a se levantar e seguiram fazendo turnê. Recebeu muitos pedidos de casamento do companheiro, mas só foi aceitar em uma apresentação ao vivo. O sentimento entre os dois foi crescendo com o passar dos anos e se tornou praticamente eterno. June Carter veio a falecer em 15 de maio de 2003 e Cash partiu quatro meses depois. Esse é o tipo de amor sonhado por muitos, vivido por poucos e essa obra é uma pequena pérola de rock’n’roll, do country e da cultura americana.

Trata-se de um filme divertido, é dramático, é extremamente musical, ainda que não faça parte do gênero de “Moulin Rouge” e “Chicago”. Os atores principais doaram a quantia do salário mínimo do Sindicato dos Atores (de US$ 12 mil) para a Cash Foundation; ou seja: atuaram de graça. Ainda vivos, Johnny e June colaboraram com a produção do filme, que levou sete anos para ficar pronto. Então a dica é: assista, divirta-se e cante. 

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André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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