Jogos do Poder

Por: André Azenha

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Jogos do Poder (Charlie Wilson’s War, EUA, 2007). Direção: Mike Nichols. Roteiro: Aaron Sorkin, baseado em livro de George Crile. Elenco: Tom Hanks, Julia Roberts, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Emily Blunt, Ned Beatty. Drama / Comédia. 97 min. (Cor).

7,5

Na mesma época que “Rambo IV” chegou aos cinemas, um filme também estreou abordando um tema parecido com um antigo longa do ex-boina verde. Se atualmente chega a ser irônico que em “Rambo III” o personagem de Sylvester Stallone lutou ao lado dos parceiros de Osama Bin Laden no Afeganistão, para resgatar o amigo Coronel Trautman das mãos dos soviéticos (anos depois os próprios EUA bombardeariam o país oriental), “Jogos do Poder” mostra como os Estados Unidos financiaram os afegãos para dar início ao fim da Guerra Fria.

O tema, completamente político, poderia dar vida a um filme monótono de bastidores, mas o diretor Mike Nichols (do clássico “A Primeira Noite de Um Homem”), que lhe rendeu seu único Oscar de Diretor, e do ótimo “Closer – Perto Demais”, consegue na maior parte da produção empregar uma dinâmica divertida, graças também ao roteiro afiado, porém irregular (inspirado no livro de George Crile) de Aaron Sorkin – mais conhecido por seu consistente trabalho em séries televisivas (foi co-autor de “The West Wing” e da excelente e fracasso de público “Studio 60”). Vale prestar atenção nos diálogos, principalmente naqueles travados entre Hanks e Hoffman, e dos dois com o representante israelense, como também no sincronismo da cena na sala de Charlie, com a entrada e saída de suas secretárias e do agente Gust.

Um equívoco do texto é a maneira como Charlie Wilson (Tom Hanks) é retratado. Na vida real, Wilson sofreu bastante com o alcoolismo e as drogas, assim como a polêmica com a imprensa, e esses problemas quase não são mostrados – a não ser num rápido trecho em que ele aparece com os olhos marejados e em poucas frases ditas pelas secretárias avisando do perigo da imprensa ao relatar sua presença cheirando cocaína numa piscina com garotas nuas – caso esses desvios fossem retratados na trama, o personagem se tornaria muito mais complexo e real.

A obra mostra como o congressista conseguiu, durante os anos 80, oferecer armas ao Afeganistão sem que os russos percebessem, para que o país se defendesse da invasão comunista. Quem o engaja nesse sentido é a milionária Joanne (Julia Roberts), que acha estar numa cruzada religiosa pessoal, e o coloca numa rede de negociações de dimensões globais.

Wilson é “bom vivant”, mulherengo e cocainômano, uma espécie de João Estrela da política americana, cujo maior mérito até então, segundo é falado em certo instante da projeção, é ter conseguido ser reeleito cinco vezes. Ele aumenta de US$ 5 milhões para US$ 1 bilhão a verba destinada aos afegãos para o combate armado. Com o apoio do agente da CIA Gust Avrakotos (Philip Seymour Hoffman), o deputado toma a atitude que acredita ser certa, mesmo pelas razões erradas.

O longa reúne um elenco competente, com três oscarizados. Tom Hanks (duas estatuetas, por “Filadélfia” e “Forrest Gump”) surge em cena mais uma vez cativante e a bela Amy Adams, como sua secretária e braço direito, volta a demonstrar o carisma que já havia a destacado na produção infantil da Disney “Encantada” e depois em “Dúvida”. Enquanto isso, Hoffman comprova ser um dos grandes atores da atualidade, esbanjando versatilidade ao viver um papel que serve tanto como alívio cômico da história, mas que também tem um lado paranóico (numa analogia à atuação da CIA). Indicado com justiça ao Oscar de Ator Coadjuvante pelo papel (ele já havia vencido o prêmio por “Capote”, na categoria Melhor Ator).

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E se há alguma decepção no time de estrelas fica por conta de Julia Roberts (Oscar pela sua boa atuação em “Erin Brockovich”). Apática, ela parece interpretar a si mesma carregada apenas de um sotaque sulista forçado. Se sua presença em algum momento vale a pena, é pela cena em que sai da piscina de biquíni – o que não é grande coisa, já que as secretárias do gabinete de Wilson são tão ou mais bonitas que ela, mais jovens e sensuais. Como comparação, toda vez que ela e Adams dividem a tela, Julia é ofuscada pela jovem atriz.

No saldo geral, “Jogos do Poder” acaba tendo muito mais acertos que erros e merece ser conferido por mostrar ao grande público uma parte da ação americana para dar cabo da Guerra Fria e da União Soviética sem apelar para o melodrama, além de reunir feras de Hollywood que parecem ter se divertido nas filmagens.

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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