Os Indomáveis

Por: André Azenha

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Os Indomáveis (3:10 to Yuma, EUA, 2007). Direção: James Mangold. Roteiro: Halsted Welles, Michael Brandt e Derek Haas, baseado em estória de Elmore Leonard. Elenco: Russell Crowe, Christian Bale, Peter Fonda, Bem Foster, Luke Wilson. 117 min. (Cor).

9,0

James Mangold é um dos mais talentosos diretores da atualidade. No seu currículo já constam obras importantes e díspares como “Cop Land”, “Identidade” e “Johnny e June”. Mas todos possuem algo em comum. Mangold é um diretor de elenco, comanda como poucos seus atores. Não à toa, Joaquim Phoenix e Reese Witherspoon foram indicados ao Oscar nas categorias de Ator e Atriz por “Johnny e June” – ela venceu.

Não é de se estranhar que em “Os Indomáveis”, ele tenha conseguido reunir dois excelentes intérpretes dos últimos tempos. O oscarizado Russel Crowe (por “Gladiador”) e o atual Batman Christian Bale.

“Os Indomáveis” é um western clássico. Uma história de rivalidade e redenção, com códigos de ética, perseguições, tiroteios, muita poeira e aventura, sem abrir mão de um forte teor dramático.

Bale é Dan Evans, um rancheiro em dificuldades financeiras prestes a perder as terras onde vive com sua família. Após realizar mais um assalto à diligência, o perigoso Ben Wade (Russell Crowe) segue para uma pequena cidade do velho oeste. Lá ele é preso e logo é organizado um grupo para levá-lo até uma cidade distante, onde poderá ser enviado à prisão de Yuma (daí o título original do longa: “3:10 to Yuma”) através de um trem. Evans se oferece para integrar o grupo, desde que receba US$ 200,00.

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Escrito por Halsted Welles, Michael Brandt e Derek Haas, baseado em história de Elmore Leonard, publicada originalmente na revista Dime Western Magazine, em 1953. o longa é uma refilmagem de “Galante e Sanguinário” (1957), mas de forma inteligente faz abordagem diferente dos protagonistas.

Se no longa original o fazendeiro era adorado por sua família, nessa versão Evans (Bale surge em cena deficiente físico, usando literalmente uma perna de pau)  é olhado com quase desprezo pela esposa e o filho mais velho, que gostariam de ver atitudes mais firmes por parte dele em relação aos inimigos. Já Ben Wade não é simpático como o bandido do longa de 1957. Muito pelo contrário.

Mas ambos não são exatamente os arquétipos de mocinho e bandido. E com o passar do tempo, passam a nutrir uma relação de admiração mútua. Em certo momento, chegam a concordar sobre o caráter de um dos outros personagens. Porém a tênue diferença de atitude é esclarecida por Evans: “há uma grande diferença entre imaginá-lo morto e realmente matá-lo”.

A perna de pau, por sinal, surge como um adereço desnecessário, visivelmente buscando criar algum sentimento de pena do público em relação a Bale, e acaba sendo o motivo do único defeito na ótima (mais uma) atuação do ator, quando, no ato final, ele parece ter uma agilidade inverossímil para quem tem o defeito na perna.

Crowe, por sua vez, novamente tem excelente interpretação, e chega a ser espantosa a forma como ele maneja as armas, como se realmente fosse um pistoleiro experiente. O astro consegue transmitir com competência a dualidade na mentalidade do bandido, cujo código de ética particular faz com que ele não mate um inimigo caído no chão, mas permita que perfure um homem durante o sono.

Além da ótima direção e belo desempenho dos atores (destacando ainda o sempre estranho e marcante Bem Foster, de “30 Dias de Noite”, como um dos aliados de Wade), vale ressaltar a simples e bela trilha sonora de Marco Beltrami, indicada ao Oscar (a outra indicação foi para a competente Mixagem de Som). Importante ressaltar que a tecnologia permitiu o trabalho de pequenos detalhes, antes difíceis de serem desenvolvidos em produções do gênero. Assim, foi dada uma cara mais real à história. Os personagens têm os dentes sujos, rostos empoeirados e cicatrizados, algo comum naquelas terras.

Os mais atentos, ou quem viu “Galante e Sanguinário”, poderão perceber diálogos idênticos e uma brincadeira na trama atual com um erro de continuidade presente no antigo filme, quando um cavaleiro simplesmente sumia da tela. Aqui, Bale pergunta em certo momento quantos bandidos se aproximam, e seu filho responde: “sete ou oito, não sei”.

“Os Indomáveis” acaba sendo uma bonita homenagem aos filmes de faroeste, cujo clímax é o tiroteio final, em que os envolvidos tomam atitudes completamente surpreendentes, e uma prova da versatilidade de diretor e intérpretes talentosos.

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André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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