2 Dias em Paris
Por: André Azenha
2 Dias em Paris (2 Days in Paris, França / Alemanha, 2007). Direção e roteiro: Julie Delpy. Elenco: Julie Delpy, Adam Goldberg, Daniel Brühl, Albert Delpy. Comédia romântica. 96 min. (Cor).
8,5
Quem assistiu à dobradinha “Antes do Amanhecer” (1995) e “Antes do Por do Sol” (2004) deverá lembrar dos longos diálogos travados entre Ethan Hawke e Julie Delpy. No segundo filme, as conversas sobre amor, relacionamentos e tantos outros assuntos ganharam como ambiente as belíssimas paisagens de Paris. Em “2 Dias em Paris”, o espectador que assistiu às duas produções dirigidas por Richard Linklater fará rapidamente a conexão.
A atriz francesa surge em cena novamente na capital de seu país, num longa-metragem recheado de conversas que discutem relações humanas. Dirigido e escrito pela própria Julie Delpy, o filme mostra um casal com dois anos de relacionamento, que decidiu fazer uma “tour” pela Itália para reascender a paixão, antes de retornar a Nova York, onde vivem, decidem passar dois dias em Paris para visitar a família de Marion (Delpy). Os problemas aparecem quando o americano Jack (Adam Goldberg, de “Como Perder Um Homem em Dez Dias”), assim como acontece com Bem Stiller na trama de “Entrando Numa Fria”, é apresentado aos pais excêntricos dela (interpretados pelos pais de Julie na vida real), e ainda por cima precisa enfrentar o ciúme pelo fato da amada permanecer amiga de ex-namorados.

Apesar de mesclar temas de outros filmes, como os já citados nesse texto, Delpy, cujo “background” inclui trabalhos com diretores do quilate de Godard, Kieslowski, e o próprio Linklater, e uma indicação ao Oscar pelo Roteiro Adaptado de “Antes do Por do Sol”, também parece ter aprendido bastante com Woody Allen, criando um texto de diálogos certeiros, afiados, irônicos, que não poupam sua origem francesa (Allen costuma fazer piadas com sua origem judaica) e nem os EUA – o choque de culturas e idiomas (Jack não fala praticamente nada em francês) rende ótimas piadas.
Nesse contexto a cineasta mostra-se à vontade para passear por ambos os idiomas e construir uma divertida dinâmica entre o casal no melhor estilo “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” (1977), de Allen. Jack é hipocondríaco de carteirinha e neurótico como inúmeros personagens da carreira do cineasta americano. Tudo isso aliado à coragem de mostrar uma Paris diferente daquela costumeiramente abordada na sétima arte. Assim, a “cidade luz” é despida e retratada como uma grande cidade com suas qualidades e defeitos – o subúrbio perigoso, protestos violentos de ambientalistas, o preconceito contra estrangeiros, etc.
O elenco também merece elogios. Delpy demonstra o charme de sempre, Adam se sai bem em seu primeiro personagem principal, e os pais da atriz provocam risadas em várias sequencias.
Numa época que os produtores de Hollywood pensam que comédias românticas devem ser superficiais, açucaradas e clichês ao extremo, Julie Delpy foi contra a maré e concebeu uma obra divertida e inteligente, reconhecida pela crítica e Indicada ao Cesar (o Oscar francês) de Melhor Roteiro.
