Desejo e Reparação

Desejo e Reparação (Atonement, Inglaterra, 2007). Direção: Joe Wright. Roteiro: Christopher Hampton, baseado em livro de Ian McEwan. Elenco: Keira Knightley, Vanessa Redgrave, Brenda Blethyn, James McAvoy, Romola Garai, Saoirse Ronan. Drama. 130 min. (Cor).

“Desejo e Reparação”, adaptação cinematográfica do romance “Reparação”, escrito pelo festejado Ian McEwan, fala basicamente sobre como reparar um mal feito, seja o estrago em si, ou o dano moral.

Quase todos em algum momento de suas vidas se arrependeram de alguma atitude. Principalmente quando ela pode ter criado uma inesperada bola de neve de acontecimentos. E quando se tenta corrigi-la e já não há mais tempo? O estrago está feito. E como repará-lo?

Aos 13 anos, Briony Tallis não tinha noção do que um simples relato falso pudesse causar, prejudicando a vida de duas pessoas amadas: sua irmã mais velha Cecilia, e Robbie Turner, filho de uma das empregadas da família.

O cenário é a Inglaterra de 1935. Briony é uma menina que escreveu sua primeira peça. Ficou apaixonada por Robbie (James McAvoy) quando ele a salvou de um afogamento. Robbie é apaixonado por Cecilia (Keira Knightley), que corresponde aos sentimentos do rapaz.

Certo dia, quando uma das primas da família é assediada por um visitante rico, a menina é a única testemunha, mas acaba acusando Robbie. O fato faz com que Robbie e Cecilia se separem. Ele vai preso, e depois é convocado para lutar na Segunda Guerra Mundial para poder deixar a prisão. Com o passar dos anos, Briony percebe a besteira que cometeu, mas as vidas dos envolvidos já estão destruídas.

O longa é o segundo da carreira do diretor Joe Wright, e pela segunda vez ele tem como protagonista Keira Knightley, em outro drama de época, por sinal, mais apurado que o anterior e ótimo “Orgulho e Preconceito”. Sem medo de arriscar, o cineasta não segue as “normas” dos filmes do gênero, e implementa sequências que mostram a mesma cena de ângulos diferentes.

A obra foi vencedora dos Globos de Ouro de Melhor Filme/Drama e Trilha Sonora e sua equipe técnica e elenco fabulosos foram indicados sete vezes ao Oscar (Filme, Atriz Coadjuvante, Direção de Arte, Fotografia, Figurino, e Roteiro Adaptado e a trilha sonora de Dario Marianelli, fabulosa, que levou o troféu da Academia com justiça o Dario realizou um trabalho que – numa grande sacada – mistura trilha instrumental com os sons das cenas, como marteladas, ou um garoto batendo uma bola na parede – a junção de música e barulho soa perfeita e cria o clima necessário para os momentos que alternam drama, romance e suspense. Já o roteiro adaptado escrito por Christopher Hampton condensa com eficiência a trama original. E a reconstituição de época (incluindo os figurinos e a excelente direção de arte) retrata com grande competência o período.

Merecem destaque ainda a fotografia de Seamus McGarvey e a direção de Wright, que criou uma das grandes cenas do ano, naquela em que o expectador flagra, através de Robbie e dois amigos na praia de Dunquerque, o horror causado à Europa pelo conflito. Esse plano sequência contou com cerca de mil figurantes (seria melhor dizer atores, pois a sintonia e a veracidade com que trabalharam parecem de profissionais experientes) em cena e mais 350 pessoas trabalhando nos bastidores.

Mas o longa não seria uma obra-prima caso o elenco não tivesse belo desempenho. Keira Knightley finalmente despe-se da aura de garota ao dar vida a uma mulher sedutora, contracenando momentos incendiários, literalmente molhada, e com cigarro na boca. Essa mudança de “perfil” foi intencional. O diretor queria que ela encarnasse Briony no fim de sua adolescência, mas a atriz pediu para interpretar Cecilia, pois pretendia se afastar do estigma de “menininha” perante o público. James McAvoy entra em sintonia com a atriz, formando um casal cuja química transcende a tela, provando ser um dos melhores atores de sua geração.

Porém é a personagem Briony que rende as melhores interpretações. Três atrizes foram escaladas para viver três épocas da vida da irmã caçula de Cecilia – e as três catalisam as atenções. A começar pela pequena Saoirse Ronan, uma das revelações dos últimos anos, lembrada pela Academia para disputar a estatueta de Atriz Coajuvante. Tal indicação também poderia ter ido tanto para a bonita Romola Garai (“Scoop”), que faz Briony aos dezoito anos, como para a veterana Vanessa Redgrave, na fase idosa da personagem.

Orçado em US$ 35 milhões, o filme abriu o Festival de Veneza e cativa cinéfilos mais ligados na parte técnica assim como o espectador em busca de uma história bem contada e emocionante – que poderia cair em lugar comum caso o desfecho (no livro dentro do livro) não fizesse a analogia com as vezes que imaginamos um final diferente para a burrada que fizemos.

Mesmo quando estamos arrependidos e tentamos consertar alguma atitude estúpida, há o costume de entregar ao acaso (ou ao destino, se preferirem) o conserto das coisas. Mas confiar no acaso é dar um tiro no escuro. Então é melhor pensar duas vezes para não atirar em alguém amado ou no próprio pé. “Desejo e Reparação” foi o melhor filme que passou nos cinemas brasileiros em 2008.

O DVD tem boa imagem widescreen anamórfico, áudio em inglês, português e espanhol e legendas dos mesmos idiomas. Nos extras, há comentários do diretor, making of e cenas excluídas.
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André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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