Agente 86

Agente 86 (Get Smart, EUA, 2008). Direção: Peter Segal. Roteiro: Tom J. Astle e Matt Ember, baseado em personagens criados por Mel Brooks e Buck Henry. Elenco: Steve Carell, Anne Hathaway, Dwayne Johnson, Alan Arkin, Terence Stamp, James Caan, Bill Murray, Masi Oka. Comédia. 110 min. (Cor).

Criada pelo diretor Mel Brooks e o roteirista Buck Henry, a série “Agente 86” , transmitida entre 1965 e 1970, marcou uma geração. Sempre que reprisado na televisão, fez sucesso. Muito em virtude do tom irônico, satirizando James Bond, mas também graças ao talento do comediante Dom Adams, vencedor de três prêmios Emmy pelo personagem, um agente atrapalhado chamado Maxwell Smart, parceiro da agente 99, interpretada por Barbara Feldon.

Criar uma adaptação cinematográfica nos dias atuais do seriado era um terreno arriscado. Outras séries dos anos 60 e 70 como “Planeta dos Macacos” e mais recentemente, “Speed Racer”, foram transformadas em filmes decepcionantes. Nos anos 90, até houve a tentativa de ressuscitar “Agente 86” , numa série engraçada, mas que não repetiu o sucesso da original. Mas após a hesitação, os fãs puderam comemorar tranquilos. “Agente 86” , o longa-metragem, é legal pacas, é cinema pipoca dos bons, feito com inteligência, bons atores e roteiro esperto de Tom J. Astle e Matt Ember – a trama é de origem e mostra os primeiros passos do protagonista e o início da relação profissional – e amorosa – com sua parceira de investigação, tendo que desmantelar a organização KAOS.

Não se trata de “Austin Powers” ou “Corra que a Polícia Vem Aí”. É um filme de paródia, sim, mas tem alma própria e cenas de ação que causam inveja a muitos exemplares do gênero. Aliás, o orçamento de US$ 80 milhões possibilitou à produção passar por diferentes países e filmar sequências eletrizantes, como o duelo no ar após um salto de pára-quedas e a briga num carro em alta velocidade. Se o seriado original brincava com o 007 de Sean Connery, o agente de Steve Carell é influenciado por Jason Bourne.

Tanto os fãs de carteirinha como a nova geração encontram vários atrativos na história. O roteiro conseguiu atualizar a trama sem perder a essência do seriado (há o sapatofone, o cone do silêncio e outros símbolos que marcaram época), utilizando ótimas sacadas, como a explicação para a “morenice” e a juventude da agente 99, que no passado era loira e mais velha.

Destaque também para o elenco bem escolhido, desde o casal protagonista, cuja química é excelente (o duelo de tango numa festa é hilário!), até os coadjuvantes. Carrel (de “O Virgem de 40 Anos”) tem o “time” certeiro. Ao contrário de Jim Carrey (outro comediante competente, inclusive cogitado para o papel), ele não faz uso de “caras e bocas” exagerados para ser engraçado. Seu humor é físico, mas encontra resultado em gestos e feições econômicos.

Já Anne Hathaway surge como uma parceira perfeita. Simpática, bonita, e com altas doses de sensualidade, a boa atriz abandonou o ar de “menininha” de “O Diário de Princesa” faz tempo (é só conferir “Garotas sem Rumo” e “O Segredo de Brokeback Mountain”) e dá o charme necessário para fazer de sua personagem uma quase “femme fatale”, com as pernas mais sensuais do cinema atual.

Os outros atores também se saem bem. Alan Arkin demonstra versatilidade após o Oscar de Coadjuvante por “Pequena Miss Sunshine”, Terence Stamp se diverte como vilão (função que ele viveu em “Superman II”), Dwayne Johnson (também conhecido como The Rock) mostra que não precisa estrelar apenas filmes de ação, e para os mais atentos, há até Mazi Oka (o Hiro, da série “Heroes”), como um dos funcionários desastrados do CONTROLE, a agência de (des) inteligência onde o herói atua. Bill Murray também faz ponta.

A produção ainda não poupa ironia aos políticos americanos e à CIA, foi a melhor comédia do ano  passado (atentem para uma piada que se refere à Ilha de Páscoa, simples e certeira), e um dos grandes filmes da temporada. Não precisou apelar para o humor escatológico, ou um amontoado de sequências “engraçadinhas”, do tipo besteirol. É entretenimento ideal para crianças e adultos.

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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