Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet


“Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet”, obra-prima gótica do gênio da Broadway Stephen Sondheim, foi transformada em ópera cinematográfica por Tim Burton. A adaptação mantém o visual sombrio do diretor e repetiu as parcerias com seu velho amigo, o astro Johnny Depp, e sua esposa Helena Bonham Carter. A produção repleta de música e dança, sangue aos montes e assassinatos, é protagonizada por um casal que trucida as vítimas para transformá-las em quitutes refinados e se tornou o longa-metragem mais premiado da carreira de Depp, levando dois prêmios no Globo de Ouro, de Melhor Filme/Musical, e Ator em Comédia/Musical para o astro – que ainda foi indicado pela segunda vez para a estatueta de Melhor Ator no Oscar.

Numa primeira conferida, a idéia do filme pode soar estranha: um musical sinistro sobre um serial killer sanguinário. Mas a forma como é conduzido, com a bela fotografia, que alterna sequências dessaturadas, quase em preto e branco, e outras cujas cores gritantes saltam aos olhos do espectador, entre números musicais tétricos, foi recebido com confetes e serpentinas na imprensa, mas não foi tão bem de bilheteria nos EUA.

Além do tema bizarro, da direção de Burton e da presença sempre marcante de Depp, destaca-se o elenco coadjuvante, em especial a atriz Helena Boham Carter, mãe de dois filhos do diretor e que já havia trabalhado com Burton no remake de “O Planeta dos Macacos”, em 2001, quando iniciaram o romance, e também em “Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas” (2003), “A Fantástica Fábrica de Chocolate” (2005) e “A Noiva Cadáver” (2005).

A atriz interpreta a sinistra Sra. Lovett, cuja aparência lembra sua participação em “Harry Potter e a Ordem da Fênix”, quando viveu a vilã Bellatrix Lestrange, e dividiu a tela com o veterano Alan Rickman, o Severo Snape da série mágica, que no musical é o Juiz Turpin, responsável pela “criação” do assassino Sweeney Todd. Carter precisou gravar parte das filmagens grávida.

Também vale prestar atenção nas presenças do fenômeno Sacha Baron Cohen – que levou o mundo às gargalhadas ao dar vida a “Borat” e faz em “Sweeney Todd” o barbeiro italiano Adolfo Pirelli – e outro ator experiente, Timothy Spall (Encantada), mais um oriundo do elenco de “Harry Potter”.

Curiosamente, aqueles com os melhores desempenhos nas partes musicais são os atores não treinados, como o próprio Sacha e claro, Johnny Depp, um show à parte. Desfrutando de uma fase que todo o ator aspira alcançar – o status de estrela hollywoodiana aliado ao reconhecimento da crítica -, o astro enfrentou um novo desafio e novamente se saiu bem. Se em “Piratas do Caribe” ele precisou provar para a Disney que seu Jack Sparrow maluquete daria certo, em “Sweeney Todd” teve que mostrar os dotes de cantor – e ele canta o filme inteiro.

O fato de trabalhar com o parceiro de longa data Tim Burton contribuiu para o bom desempenho e o surgimento de outro personagem esquisitão e fantástico em sua filmografia. Depp e Burton colaboram há quase vinte, desde que o então jovem ator experimentou pela primeira vez uma maquiagem pálida e cabelos espicaçados, meio esvoaçantes, com navalhas em vez de dedos. “Edward Mãos de Tesoura” (1990) foi o primeiro de seis longas que o ator encenou para o diretor – os outros são “Ed Wood” (1994), “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” (1999), “A Fantástica Fábrica de Chocolate” (2005), “A Noiva Cadáver” (2005) e agora “Sweeney Todd”.

Curiosamente, o barbeiro assassino tem um visual parecido com o personagem de 1990. O primeiro cortava cabelos com as mãos de tesoura. O segundo, gargantas com navalhas afiadas. Outra diferença é que, enquanto Edward era uma figura “do bem”, apenas incompreendido, Sweeney é um assassino em busca de vingança. Ao ser expulso injustamente da Londres no século 19 sob falso pretexto, e ver sua esposa e filha caírem em desgraça, o personagem de Depp retorna adotando o pseudônimo do título e, como o “Conde de Monte Cristo”, traça com frieza a sua “vendetta”. Ao lado da quituteira Sra. Lovett, o vingador arquiteta um terrível plano: na cadeira de barbeiro, assassina seus clientes, enquanto ela usa os restos mortais das vítimas para assar tortas, que fazem sucesso na cidade.

Depp é hoje uma unanimidade, sinônimo de sucesso, seja comercial ou de crítica. A trilogia “Piratas do Caribe” alcançou números impressionantes de bilheteria e o ator vem sendo regularmente lembrado em premiações importantes. Apesar de sua parceria com Tim Burton atualmente soar como sinônimo de produções bem sucedidas, não foi sempre assim. Até “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, a única das seis produções em conjunto que realmente é considerada um sucesso, a dupla era vista com olhos tortos pelos produtores. Mas após viver Jack Sparrow, as próprias pessoas que torciam o nariz para Depp é que acabaram indicando o ator para viver Willy Wonka, e, “A Fantástica Fábrica…”.

A lenda

Apesar das semelhanças com inúmeros casos policiais ao longo da história humana – como o “Massacre da Serra Elétrica” e outros “Linhas Diretas” – existem dúvidas sobre a existência real do serial killer. De acordo com o mito, ele teria nascido em Londres em 1748 e sido preso por furto aos 14 anos. Depois de tornar-se aprendiz do barbeiro da prisão, teria aberto uma barbearia na Fleet Street, onde matava seus clientes com a ajuda da Sra. Lovett. Seus crimes ganharam os folhetins populares (penny dreadfuls, como eram conhecidos) em 1846. Um ano depois, a história já era encenada nos teatros ingleses. O primeiro filme sobre o criminoso estreou em 1936 e inspirou até um horror sanguinário de 1970. Mas a versão que deu ao psicopata uma história trágica de fundo humano só veio à tona em 1973. Foi o dramaturgo britânico Christopher Bond quem desenvolveu melhor o personagem, dando a Todd uma motivação para sua maldade. Ele era um barbeiro, chamado Benjamin Barker, que foi condenado, preso e exilado por 15 anos na Austrália de forma arbitrária, e que estava de volta para acertar as contas com o juiz responsável pela destruição de sua vida, também responsável pelo estupro de sua esposa. Quando seus planos encontram obstáculos, ele começa a rasgar a garganta de seus fregueses.

É a versão de Bond que serve de base para a adaptação musical de Stephen Sondheim e Hugh Wheeler, que estreou em 1979 e se consagrou como o menos convencional da história da Broadway.

Assumindo a palidez conhecida de outras produções de Burton e com os olhos sombrios de um psicopata, Johnny Depp está “à vontade” na pele de Todd, explorando toda a sua excentricidade, principalmente nas cenas em que o sangue das vítimas jorra pela tela. E tudo isso cantarolando.

Colaborou também para o resultado o trabalho do roteirista John Logan (O Aviador e O Último Samurai), que precisou condensar o musical original, de três horas, num filme de duras horas – o próprio Soundheim co-assina o roteiro e teve o direito de aprovar os intérpretes de Todd, Lovett e o nome do diretor. Não que fosse vetar alguém, pois assim que soube quais seriam os envolvidos, adorou as escolhas. O resultado é que, pela primeira vez na história de Hollywood, um musical de Sondheim foi filmado como deveria ser. Um espetáculo refinado de alta cultura, que tem, ao mesmo tempo, canções cerebrais, impacto visual e astros de imenso apelo popular.

O público, porém, não deve ir a “Sweeney Todd” esperando outro filme de apelo infantil. Apesar da maquiagem, da música e da dança, a produção tem pouco em comum com “A Fantástica Fábrica de Chocolate”.

Soundheim – Stephen Joshua Sondheim, nascido em 22 de março de 1930,  frequentemente é visto como o maior autor de musicais de sua geração. O jornal “The New York Times” já o considerou como “o maior e talvez o mais conhecido artista do teatro musical americano”. Tamanha é sua importância, que ele foi o único compositor a ganhar sete vezes o Tony, o prêmio teatral americano, além de um Oscar (por Melhor Canção no filme “Dick Tracy”, 1990), inúmeros Grammy e um Prêmio Pulitzer. A fama do letrista de “Amor Sublime Amor” (West Side Story, 1961) ultrapassa as fronteiras do teatro e geralmente é lembrado em programas televisivos. Foi assim em “Os Simpsons”, num episódio da temporada em 2007, quando dublou a si próprio, ou em “Desperate Housewives”, em que alguns capítulos foram batizados com títulos de suas composições. Como curiosidade, em 2005 Sondheim produziu, em parceria com os brasileiros Cláudio Botelho e Charles Moeller, o musical “Lado a Lado”, com versões em português de suas canções.

SWEENEY TODD – O BARBEIRO DEMONÍACO DA RUA FLEET
(Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street, EUA / Inglaterra, 2007).
Direção: Tim Burton.
Roteiro: John Logan, baseado em musical de Stephen Sondheim e Hugh Wheeler.
Elenco: Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Alan Rickman, Timothy Spall, Sacha Baron Cohen.
Musical.
116 minutos.

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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