Sangue Negro

 

Por: André Azenha

sanguenegroSangue Negro (There Will Be Blood, EUA, 2007). Direção e roteiro adaptado (baseado em livro de Upton Sinclair): Paul Thomas Anderson. Elenco: Daniel Day-Lewis, Paul Dano, Dillon Freasier. Drama. 158 min. (Cor).

 

10,0

O mundo é guiado por falsos profetas. Aqueles multimilionários que fazem doações enquanto enriquecem as custas de trabalho praticamente escravo e fazem doações fingindo uma bondade que não possuem, e aqueles líderes religiosos que enriquecem graças à credulidade – ou ingenuidade – humana são exemplos disso. Em “Sangue Negro” o espectador é apresentado a esses dois tipos de falsos profetas, sem clichês, sem reviravoltas baratas. Paul Thomas Anderson destila em seu longa-metragem, e talvez sua obra prima, tudo o que nós fazemos questão de não querer enxergar / acreditar.

Os desonestos estão vencendo e quem não tiver forças pra entrar na concorrência ficará para trás. “Sangue Negro” é uma trama que joga o espectador na parede e o deixa paralisado. Além disso, é uma produção magnífica enquanto cinema. Tem trilha sonora sensacional, um protagonista numa atuação magistral e belíssima fotografia.

Diferente de produções anteriores do cineasta, como “Magnólia”, que possuía inúmeros protagonistas (em busca de perdão) cujas trajetórias pessoais se cruzavam em determinado ponto da trama, “Sangue Negro” é um épico com uma figura central – e que apesar de todas as barbáries que cometeu, não sente um pingo de arrependimento. Num outro ponto de vista, por ser um épico praticamente individual, poderia ser comparado a um “O Poderoso Chefão”, mas ao contrário do clássico de Francis Ford Coppola, o protagonista não tem um passado ou família para se apegar, apesar de fingir possuir alguma coisa do tipo.

A trama escrita pelo próprio Paul Thomas Anderson, baseada em livro de Upton Sinclair, se passa na virada do século XIX para o século passado. Daniel Day-Lewis é Daniel Plainview, um minerador em busca de fortuna. Ele trabalha com o intuito de encontrar pedras preciosas, mas acaba se deparando com um poço de petróleo, e se torna um magnata do ramo. Seu objetivo? Ganhar dinheiro suficiente para se isolar do resto da humanidade. Ele odeia todas as pessoas. Todas.

E para isso irá passar por cima de qualquer obstáculo. Sem pena. Sem remorso. Seu ódio não tem uma explicação, não há um trauma do passado. Ele é determinado, tem uma energia impressionante e o “dom da palavra”. Tem discurso eficiente para convencer as pessoas a entrarem na sua. Pode ser tanto educado e cativante num segundo, como assustador no outro. Sua ambição chega a tal ponto que, para ganhar a simpatia dos americanos interioranos, donos das terras que deseja adquirir, precisa ser um cara “de família”, e não pestaneja para adotar um órfão de um de seus funcionários, e passar a apresentá-lo como filho – e sócio!

Assim como costuma acontecer na vida real, para conquistar pessoas humildes, ele precisa fazer “as vezes” de religioso, e promete donativos para a igreja de Eli Sunday, um pastor local interpretado pelo jovem e talentoso Paul Dano (“Nação Fast Food” e “Pequena Miss Sunshine”). Ambos acabam precisando um do outro, e a relação com o tempo passa a alimentar um ódio mútuo. São duas figuras complexas, que não ganhariam tanta dimensão, não fossem as sensacionais atuações dos dois atores. Day-Lewis se entrega de corpo e alma ao personagem e tamanha dedicação lhe rendeu uma série de prêmios, incluindo Globo de Ouro e Oscar.

Dano não fica atrás. A maneira como incorpora a liderança religiosa e se comporta na hora do sermão é chocante. Remete a todos esses pastores que “espantam” os demônios de pessoas que, na maioria das vezes, precisam muito mais de atenção ou um tratamento psicológico, do que propriamente uma cura divina. Ele também tem ambição, e consegue galgar alguns degraus, mas ao menos possui a máscara “do bem”.

Plainview e Sunday acreditam, cada um a sua maneira, estarem realizando as coisas da melhor forma, mas possuem códigos pessoais deturpados. Podem ser encarados como dois loucos, mas o filme não julga a ação de nenhum deles. São personagens universais. Da para reconhecer neles figuras de um passado distante, como também várias personalidades que batem ponto diariamente nas redes de televisão atualmente. E nesse sentido, somos lembrados que a humanidade não evoluiu. Desde Alexandre O Grande, a George W. Bush, os ambiciosos, e inescrupulosos, conseguem ditar os passos do mundo.

Fora a dupla, merece elogios o garoto Dillon Freasier, intérprete de H.W. Plainview, o filho de Daniel, cuja atuação impressiona ainda mais pelo fato do menino jamais ter atuado ou pelo menos estudado artes dramáticas antes de participar da produção. Ele era um estudante que vivia próximo às locações de “Sangue Negro”. Os produtores tiveram que convencer sua mãe para que o ele atuasse no filme. Como não conhecia Day-Lewis, ela alugou “Gangues de Nova York” e, após assisti-lo, ficou horrorizada com a possibilidade do garotinho conviver algum tempo com o homem que viu no filme. Foi então que os produtores forneceram a ela uma cópia de “A Época da Inocência” (1993), também estrelado pelo ator, no qual interpretava um homem gentil.

Paul Thomas Anderson soube se cercar de excelentes profissionais para conceber a obra. A fotografia Robert Elswit (“Boa Noite e Boa Sorte”), também premiada com o Oscar, é bela e sombria, a trilha sonora atonal, com uma aura dark, de Jonny Greenwood (guitarrista do Radiohead) é magnífica.

Também dá para notar a influência de Stanley Kubrick no trabalho de Anderson. Prestem atenção nos quinze primeiros minutos de projeção, quando não há diálogo!

A direção de arte de David Crank é maravilhosa e claro, a direção e o roteiro adaptado do cineasta são soberbos – atenção para os eletrizantes duelos verbais de Daniel e Paul Dano.

O filme vai num crescendo, prendendo a atenção do espectador, até jogá-lo na parede na catártica cena final. Estarrecedora. Muitos de nós adoraríamos esbravejar as mesmas palavras de Plainview. Talvez a repulsa que cause em alguns venha da frustração de ter vontade e não conseguir agir como ele. É aquela velha história: é dando poder que você conhece o ser humano.

Paul Thomas Anderson acabou trocando – e dando um passo à frente na sua filmografia – a mensagem positiva de “Magnólia”, um filme que faz a platéia sorrir e se emocionar ao fim da projeção, por uma obra que, assim como sua produção rival na briga pelo Oscar do ano passado, mostra que a Terra é um lugar Onde Os Fracos Não Têm Vez. E realizou sua obra prima e um dos melhores filmes dos últimos anos.

sanguenegrodois

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *