Rambo IV – Stallone se aproxima do gore e bate recorde de mortes na série

Rambo IV (Rambo, EUA, 2008). Direção: Sylvester Stallone. Roteiro: Art Monterastelli e Sylvester Stallone, baseado em personagem criado por David Morrell. Elenco: Sylvester Stallone, Julie Benz, Ken Howard. Ação. 91 min. (Cor).

Quando Sylvester Stallone anunciou que iria dirigir e protagonizar continuações de “Rocky” e “Rambo”, muitas pessoas torceram o nariz. Com “Rocky Balboa” ele deu novo fôlego à sua carreira, concebendo uma obra que retomava a essência do clássico de 1976. Eis que o quarto filme sobre o ex-boina verde, batizado simplesmente de “Rambo IV”, alcançou boa bilheteria nos EUA e comprovou (mercadologicamente) sua decisão – o fato gerou boatos sobre uma possível quinta produção, desmentidos pelo ator.

“Rambo – Programado para Matar” (1982) deu início à franquia com um enredo sobre os efeitos psicológicos causados aos ex-combatentes no Vietnã. Suas duas continuações tornaram-no praticamente outra figura, quase um símbolo da superioridade americana no mundo, exaltando a política externa dos EUA, foram focadas na aventura e narradas respectivamente em terras vietnamitas (espécie de “vingança cinematográfica” da guerra, onde ele precisou livrar do cativeiro antigos prisioneiros do conflito) e afegãs (para ajudar o amigo Coronel Trautman). Detalhe curioso: nesse último, os americanos ajudavam o Afeganistão, que depois seria bombardeado pelos mesmos ex-colegas anti-soviéticos – sobre o tema, vale assistir “Jogos do Poder”, disponível em DVD.

O sucesso dos filmes foi tanto que foram produzidos bonecos, e uma série animada para a TV do personagem criado por David Morell.

“Rambo IV” não apenas segue a história de resgate das produções de 1985 e 1988 (porém, sem exaltar a política externa americana, ainda bem), mas aumenta em doses cavalares as cenas de violência explícita – ele nunca matou tanta gente como agora. Segundo pesquisa do Los Angeles Times, são 263 mortes ao todo, uma média próxima a três cadáveres por cada minuto de projeção. Ainda que mostre fatos reais, é uma ficção com mais brutalidade que os filmes de terror recentes, como “Jogos Mortais” e “O Albergue”, e barbárie digna de dar inveja a Mel Gibson – inclusive é possível traçar um paralelo com “Apocalypto”, de Gibson, que também se passa na selva, tem perseguição e tripas para todos os lados. É preciso ter estômago, muito estômago.

Quase vinte anos após o embate no Afeganistão, levando uma vida tranqüila na Tailândia, John Rambo acaba se envolvendo numa guerra civil de quase seis décadas, entre birmaneses e a tribo Karen, na fronteira com a Birmânia (Mianmar), para salvar missionários dos direitos humanos.

Com um elenco coadjuvante sem grandes nomes, destacando a bela Sarah Miller, Sly surge em cena com a conhecida faixa ao redor da cabeça, faca, arco e flecha em punho e esbanja ótimo preparo físico para os seus 61 anos (na época das filmagens).

Sua direção é apelativa e alucinante, mergulhando as câmeras na selva e não poupando closes em cortes, fraturas expostas, bebês assassinados (o que causou certa polêmica) e cabeças decepadas – para alegria do público consumista do cinema trash e tristeza daqueles em busca de conteúdo. Um acerto foi ter escolhido pessoas locais para interpretar exército e população daquele país.

O roteiro (dele com Art Monterastelli, de “Caçado”) não investe nos diálogos, e quando tenta gerar algum tipo de sensibilização no expectador para justificar a volta à ativa do personagem, sai com algo do tipo: “quando você é provocado, matar se torna tão fácil quanto respirar”. Deus do céu! No fim das contas, a conclusão do público será que ele voltou ao combate simplesmente por um rabo de saia.

E o restante vai direto ao ponto, e acrescenta mercenários que ajudam o protagonista no combate – um senhor de idade avançada, por mais preparado que fosse não daria conta sozinho de eliminar um exército. E aproveita para corrigir algo que pode ser considerado um equívoco nas tramas anteriores. Rambo nunca teve um lar? A cena final ainda fará os mais velhos lembrarem da antiga série “Kung Fu”, quando David Carradine vagava solitário pelo mundo fazendo justiça levando uma bagagem nas costas.

O lançamento da produção foi precedido de tensão e polêmica durante e após as filmagens. O astro presenciou os maus tratos em Miammar e se indispôs com o governo local. E depois precisou explicar o uso do hormônio hGH, que lhe deformou o rosto.

Enquanto longas atuais de combate armado tentam gerar reflexão, “Rambo IV” é a opção para quem gosta de um passatempo divertido repleto de ação, sem “cabecismos” ou qualquer mensagem sensível. Não causa a mesma boa sensação que “Rocky Balboa” deixou ao levantar a série do garanhão italiano, porém tem chances de satisfazer os fãs.

Agora, se você ver alguém vibrando com a carnificina, tenha certeza que se trata de uma pessoa com uma grave tendência a se tornar um psicopata – e afaste-se.


Estreia nos cinemas brasileiros: 29/02/2008.

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *