Rambo IV – Stallone se aproxima do gore e bate recorde de mortes na série

Stallone realizou um filme extremamente violento, com cerca de três mortes por minuto de projeção, que foi bem nas bilheterias, mas recebeu críticas negativas e, diferente de "Rocky Balboa", que encerrou com dignidade a série sobre o lutador, satisfez apenas os fãs do cinema trash
Por André Azenha, editor (08/02/2009) // Comente

Rambo IV (Rambo, EUA, 2008). Direção: Sylvester Stallone. Roteiro: Art Monterastelli e Sylvester Stallone, baseado em personagem criado por David Morrell. Elenco: Sylvester Stallone, Julie Benz, Ken Howard. Ação. 91 min. (Cor).

Quando Sylvester Stallone anunciou que iria dirigir e protagonizar continuações de “Rocky” e “Rambo”, muitas pessoas torceram o nariz. Com “Rocky Balboa” ele deu novo fôlego à sua carreira, concebendo uma obra que retomava a essência do clássico de 1976. Eis que o quarto filme sobre o ex-boina verde, batizado simplesmente de “Rambo IV”, alcançou boa bilheteria nos EUA e comprovou (mercadologicamente) sua decisão – o fato gerou boatos sobre uma possível quinta produção, desmentidos pelo ator.

“Rambo – Programado para Matar” (1982) deu início à franquia com um enredo sobre os efeitos psicológicos causados aos ex-combatentes no Vietnã. Suas duas continuações tornaram-no praticamente outra figura, quase um símbolo da superioridade americana no mundo, exaltando a política externa dos EUA, foram focadas na aventura e narradas respectivamente em terras vietnamitas (espécie de “vingança cinematográfica” da guerra, onde ele precisou livrar do cativeiro antigos prisioneiros do conflito) e afegãs (para ajudar o amigo Coronel Trautman). Detalhe curioso: nesse último, os americanos ajudavam o Afeganistão, que depois seria bombardeado pelos mesmos ex-colegas anti-soviéticos – sobre o tema, vale assistir “Jogos do Poder”, disponível em DVD.

O sucesso dos filmes foi tanto que foram produzidos bonecos, e uma série animada para a TV do personagem criado por David Morell.

“Rambo IV” não apenas segue a história de resgate das produções de 1985 e 1988 (porém, sem exaltar a política externa americana, ainda bem), mas aumenta em doses cavalares as cenas de violência explícita – ele nunca matou tanta gente como agora. Segundo pesquisa do Los Angeles Times, são 263 mortes ao todo, uma média próxima a três cadáveres por cada minuto de projeção. Ainda que mostre fatos reais, é uma ficção com mais brutalidade que os filmes de terror recentes, como “Jogos Mortais” e “O Albergue”, e barbárie digna de dar inveja a Mel Gibson – inclusive é possível traçar um paralelo com “Apocalypto”, de Gibson, que também se passa na selva, tem perseguição e tripas para todos os lados. É preciso ter estômago, muito estômago.

Quase vinte anos após o embate no Afeganistão, levando uma vida tranqüila na Tailândia, John Rambo acaba se envolvendo numa guerra civil de quase seis décadas, entre birmaneses e a tribo Karen, na fronteira com a Birmânia (Mianmar), para salvar missionários dos direitos humanos.

Com um elenco coadjuvante sem grandes nomes, destacando a bela Sarah Miller, Sly surge em cena com a conhecida faixa ao redor da cabeça, faca, arco e flecha em punho e esbanja ótimo preparo físico para os seus 61 anos (na época das filmagens).

Sua direção é apelativa e alucinante, mergulhando as câmeras na selva e não poupando closes em cortes, fraturas expostas, bebês assassinados (o que causou certa polêmica) e cabeças decepadas – para alegria do público consumista do cinema trash e tristeza daqueles em busca de conteúdo. Um acerto foi ter escolhido pessoas locais para interpretar exército e população daquele país.

O roteiro (dele com Art Monterastelli, de “Caçado”) não investe nos diálogos, e quando tenta gerar algum tipo de sensibilização no expectador para justificar a volta à ativa do personagem, sai com algo do tipo: “quando você é provocado, matar se torna tão fácil quanto respirar”. Deus do céu! No fim das contas, a conclusão do público será que ele voltou ao combate simplesmente por um rabo de saia.

E o restante vai direto ao ponto, e acrescenta mercenários que ajudam o protagonista no combate – um senhor de idade avançada, por mais preparado que fosse não daria conta sozinho de eliminar um exército. E aproveita para corrigir algo que pode ser considerado um equívoco nas tramas anteriores. Rambo nunca teve um lar? A cena final ainda fará os mais velhos lembrarem da antiga série “Kung Fu”, quando David Carradine vagava solitário pelo mundo fazendo justiça levando uma bagagem nas costas.

O lançamento da produção foi precedido de tensão e polêmica durante e após as filmagens. O astro presenciou os maus tratos em Miammar e se indispôs com o governo local. E depois precisou explicar o uso do hormônio hGH, que lhe deformou o rosto.

Enquanto longas atuais de combate armado tentam gerar reflexão, “Rambo IV” é a opção para quem gosta de um passatempo divertido repleto de ação, sem “cabecismos” ou qualquer mensagem sensível. Não causa a mesma boa sensação que “Rocky Balboa” deixou ao levantar a série do garanhão italiano, porém tem chances de satisfazer os fãs.

Agora, se você ver alguém vibrando com a carnificina, tenha certeza que se trata de uma pessoa com uma grave tendência a se tornar um psicopata – e afaste-se.


Estreia nos cinemas brasileiros: 29/02/2008.

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André Azenha é jornalista, editor dos sites CineZen e CulturalMente Santista, autor do livro Poesia a Quatro Mãos, feito em parceria com sua mãe, a poetisa Regina Azenha. Trabalhou com o crítico de cinema Rubens Ewald Filho, escreveu para a revista Época São Paulo e colabora com veículos de imprensa de vários estados. Em 2011, mediou o ciclo Documentários Comentados, no SESC Santos. É assessor de imprensa e realiza encontros culturais, a maior parte de caráter beneficente.


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