A Lula e a Baleia

Por: André Azenha

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A Lula e a Baleia (The Squid and the Whale, EUA, 2005). Direção e roteiro: Noah Baumbach. Elenco: Jeff Daniels, Laura Linney, Anna Paquin, William Baldwin, Jesse Eisenberg, Owen Kline, Halley Feiffer. Drama. 81 min. (Cor).

8,5

Numa primeira conferida, “A Lula e a Baleia” pode parecer um mero filme que retrata a falência da instituição familiar, a separação dos pais e o reflexo do desastre matrimonial nos filhos jovens. Sim, a produção aborda com autoridade a falência familiar, mas não uma família norte-americana qualquer, daquela formada pelo americano médio, do tipo republicano, que tem arma em casa, é a favor dos bombardeios no Oriente Médio e sempre anda com uma bandeira do país. O diretor (que também fez o roteiro da obra) Noah Baumbach foi além e resolveu mirar no outro lado da moeda; a derrocada de uma família liberal, de pessoas favoráveis à democracia, interessadas em livros, filmes e que se preocupam com a atmosfera do globo, se dizem livres de preconceitos e são (ou fazem parecer) antenadas com os novos caminhos que a sociedade toma.

De maneira inteligente e simples, o cineasta criou uma pequena trama autobiográfica (ele enfrentou a separação dos pais quando jovem) que não à toa foi a sensação do Festival de Sundance – onde arrebatou os prêmios de Diretor/Drama e Roteiro – e chamou a atenção de premiações maiores como o Globo de Ouro (com três indicações em Filme/Comédia, Atriz e Ator) e o Oscar (Roteiro). Foram necessários somente 23 dias para as filmagens e U$ 1,5 milhão de gastos para a história narra (no Brooklyn de 1986) o divórcio de um casal que decide dividir a guarda dos filhos de maneira igual e que acaba afetando de formas diferentes a vida de cada um dos jovens. Parece simples, mas a trama se diferencia dos demais longas sobre crises familiares devido ao ótimo elenco, que auxiliado pelo roteiro de alguns diálogos matadores e situações extremamente reais, faz com que o público jamais se prenda a apenas um personagem, prestando atenção em todos, e provavelmente, se identificando com algum.

Jeff Daniels (aquele que fez dupla com Jim Carrey em “Debi & Lóide”), em excelente interpretação, surge envelhecido como o escritor Bernard Berkman, homem frustrado, que já teve dias melhores e não vem conseguindo publicar suas obras, vive de dar aulas, e é extremamente competitivo; capaz de brigar com o filho mais novo numa mera partida de pingue-pongue ou de ensinar o mais velho como derrotar a mãe em um jogo de tênis (“O backhand dela é fraco”, diz ele). Liberal a princípio, ele trata pessoas que não sejam cultas como “firisteus” (em ótima sacada mostrando que o preconceito vem de todas as direções; esquerda ou direita, conservadora ou liberal) e se ressente pela esposa Joan (Laura Linney, que merece um parágrafo a parte), a quem incentivou a carreira, estar conseguindo melhores resultados, publicando textos em revistas e chamando a atenção da crítica. A separação, que segundo o casal terá uma divisão de guarda igual (mas com o tempo revela toda a mesquinharia e egoísmo do ser humano numa situação dessas, seja para afetar o outro lado ou por pura carência), faz com que cada pupilo reaja à sua maneira. Walt (Jesse Eisenberg) o mais velho, adolescente, e que começa a namorar uma garota que não gosta, recebe a notícia com olhares tortos para a mãe e acaba indo morar com o pai. Já o mais novo, Frank (Owen Kline), ainda é criança e apóia o lado materno. Os dois jovens atores merecem elogios. Jesse surge como um adolescente tímido e se destaca na cena em que ganha um concurso musical na escola com uma canção do Pink Floyd, o que invalida o resultado. Já Owen revela um grande talento, principalmente nos momentos em que se masturba no colégio, deixando o rastro do esperma pelos móveis da instituição e também quando passa a beber sem parar em casa.

Mas vamos falar de Laura Linney. Bonita e talentosa, a atriz é caso raro. Poderia muito bem ter sucumbido às exigências da indústria hollywoodiana, partindo para obras que visam o sucesso comercial e o estrelato, mas como ela mesma diz em entrevistas, procurou sempre interpretar papéis instigantes e complexos, mesmo que sejam meras pontas nos longas que atua. A moça – que aceitou participar da obra assim que recebeu o roteiro em 2000 – já provou seu valor em personagens e filmes completamente distintos como “Conta Comigo” (que lhe valeu uma indicação de Atriz no Oscar), “Kinsey – Vamos Falar de Sexo” (indicada a Atriz Coadjuvante no prêmio da Academia), “A Vida de David Gale”, e até no “mais comercial” “Simplesmente Amor”. Aqui ela surge como uma mulher que parece, de início, ser o lado sensato do casal, mas com o passar da projeção, se mostra uma tonta viciada em sexo, que troca de amantes como troca de roupa, e completamente incapaz de cuidar das crianças, deixando um dos filhos se tornar alcoólatra dentro de sua própria residência. Outra artista talvez caísse na caricatura, mas Laura faz de sua Joan, uma mulher que pode existir na sua família, prédio ou vizinhança. De novo, ponto pra ela. Quem sabe Linney ainda receba o devido reconhecimento.

O restante do elenco também merece menção. Anna Paquin (a Vampira, de “X-Men”), faz uma espécie de Lolita, aluna que vai morar e diz sempre ter pensado em sexo com o professor e desperta os sentimentos de Walt, se tornando motivo de certo rompimento entre pai e filho. A garota pode causar suspiros nos marmanjos e está mais sexy do que de costume. William Baldwin (“Invasão de Privacidade”), aparece hilário, cabeludo e por mais que seja canastrão, cai como uma luva no papel do professor de tênis de Frank que em determinado momento vira mais um caso amoroso de Joan. Há ainda a jovem e também bela Halley Feiffer, como Sophie, a primeira namorada de Walt, que nos poucos instantes em cena, também chama a atenção.

Talvez o único defeito do longa seja querer fazer a platéia cair no riso fácil como nos momentos em que o filho mais novo do casal se torna viciado em álcool. Uma cena já seria suficiente para causar risadas e fazer entender a complexidade da situação. Mas os momentos em que o garoto é flagrado bebendo compulsivamente se repetem e revelam a pretensão do diretor. Mas nada que arranhe demais o conjunto da obra, que consegue em sua maioria, transitar com leveza entre o drama e a comédia. E você deve estar se perguntando onde estão a lula e a baleia do título. Os animais nada mais são que uma menção do personagem de Jesse Eisenberg, que perguntado por um psicólogo qual a memória de sua infância que lhe trás felicidade, cita a lembrança de uma visita que fez com a mãe ao museu em que uma lula e uma baleia (em formas de escultura) estão lutando. A cena (quando ele resolve voltar ao museu) encerra o filme de maneira brusca, sem dar um desfecho explicativo para a trama, como acontece na vida comum.

Um filme curto, que merece um texto longo como esse, mostra a complexidade da obra, que orçamentos e mega-produções à parte, revela que ainda é possível criar pequenas fábulas intensas e sensíveis, mesmo em território americano. Provavelmente pessoas que tenham pais separados se identifiquem mais, mas se você gosta de cinema e de bons atores, esse “A Lula e a Baleia” é uma ótima pedida.

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André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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