Juno

Por: André Azenha

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Juno (Idem, EUA, 2007). Direção: Jason Reitman. Roteiro: Diablo Cody. Elenco: Ellen Page, Jennifer Garner, Michael Cera, Jason Bateman. Comédia. 96 min. (Cor).

9,0

“Juno” ganhou o status de “Pequena Miss Sunshine” da temporada 2008. Assim como o longa de 2006, foi produzido de maneira independente, ganhou atenção do público e chamou a atenção para grandes premiações. Orçado em “apenas” US$ 7,5 milhões, já arrecadou quinze vezes mais em bilheteria e conseguiu quatro indicações ao Oscar: Filme, Direção, Atriz e Roteiro Original – levou o prêmio por essa última.

Segundo filme da carreira do cineasta Jason Reitman, do elogiado “Obrigado por Fumar” (2006), tem roteiro que foge da mesmice ao tratar a adolescência com conhecimento de causa. Ao contrário dos senhores de meia idade que costumam produzir verdadeiras bombas ao falar para o público infanto-juvenil, o longa tem um diretor de 29 anos e uma roteirista que o escreveu aos 25 – a estreante Diablo Cody, uma ex-stripper e blogueira fã de Wes Wanderson.
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A atriz Ellen Page (“Meninama.com” e “X-Men – O Confronto Final”) tinha 20 anos na época do lançamento do longa e vive a personagem título de 16 (Juno foi a mulher de Zeus), que não se enquadra nos padrões da sua faixa etária. Enquanto a maioria das meninas curte Britney Spears e congêneres, ela é fã de Stooges, Patti Smith e Mott The Hoople, artistas que surgiram mais de uma década antes dela ter nascido.

A garota tem maturidade e inteligência acima da média, mas paradoxalmente acaba engravidando na sua primeira vez (como alguém descolada esquece de usar camisinha ou tomar pílula?) de outro aluno fora dos padrões, interpretado por Michael Cera (“Superbad”). E sabe que não tem condições de criar um filho. Avessa ao aborto, ela decide doar a criança para algum casal incapaz de conceber naturalmente um herdeiro. Os escolhidos são Jennifer Garner (“De Repente 30” e série “Alias”) e Jason Bateman (“O Ex-Namorado da Minha Mulher”). No começo, eles parecem ser a escolha certa, porém o tempo trata de desmentir a primeira impressão da protagonista.

Com boa direção de Reitman, que recheia o filme de cores, fazendo alusão à adolescência, período da vida que é um verdadeiro turbilhão de pensamentos, questionamentos e emoções, o charme da história reside na atuação de Page, uma das melhores atrizes de sua geração, indicada com justiça ao prêmio da Academia. A forma como ela anda, quando Juno está grávida de oito meses, é natural e real. E sua atuação jamais esbarra na caricatura. Juno poderia ser nossa vizinha ou colega de escola.

O restante do elenco também se sai bem. Garner tem atuação discreta, Bateman incorpora o típico adolescente tardio, fã de grunge e músico meio frustrado, e Michael Cera, outra grata revelação, está à vontade na pele de um garoto tímido e desengonçado.

Aliado a todas essas qualidades, está o texto certeiro de Cody, vencedor do Oscar e do BAFTA de Roteiro Original. A reação dos pais da menina quando ficam sabendo da gravidez é impagável e o diálogo sobre cultura pop entre Page e Bateman é fenomenal. Para ela, 1977 foi o melhor ano da história da música (período do estouro do punk rock e o lançamento do clássico LP dos Sex Pistols, “Nevermind The Bullocks”). Para ele, o grunge foi “o momento”.

Enquanto o trintão realmente viveu o estouro de Nirvana e companhia, Juno não era nem nascida quando suas bandas preferidas ganharam o mundo. Esse tipo de sentimento é natural entre a garotada, que “descobre” algum artista antigo e cai de cabeça em sua obra, como se tivesse encontrado um confidente, a solução dos seus problemas – quem nunca teve aquela sensação nostálgica de uma época que não viveu?

Ainda que fale – com inteligência e sem julgamentos – de assuntos já bastante abordados no cinema, como gravidez prematura e aborto, a essência da trama mira mesmo as pessoas com sensibilidade que não se enquadram no “modus operandi” da sociedade. E mira com muita competência. “Juno” é um filme estimulante, e diversão absoluta para fãs de cultura pop. 

Divulgação
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André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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