Crítica | Batman Begins (2005)

Esqueça todos os filmes e o seriado ‘camp’, dos anos 60, feito sobre o personagem anteriormente – estamos falando as produções com atores de carne e osso, pois “Batman – A Máscara do Fantasma”, longa de animação lançado no cinema, era bom, muito bom. Ok, os longas de Tim Burton (com gente de verdade) também eram bacanas. Mas muito mais sob o ponto de vista autoral do cineasta do que enquanto adaptação cinematográfica das histórias em quadrinhos de Batman. Pra muita gente, a trajetória cinematográfica do homem-morcego começou a ser contada de forma decente somente neste longa-metragem, lançado há 10 anos.

O diretor Christopher Nolan (de espetacular “Amnésia”, 2000), que também escreveu o roteiro em parceria com David S. Goyer (da série “Blade”) finalmente realizou uma produção digna do personagem, dando uma “cara real” à história de Batman, contando sua origem de forma muito próxima daquela narrada nas HQs, inspirado principalmente na saga dos quadrinhos “Batman – Ano Um” (de Frank Miller), e mesclando ação bem feita com drama.

Se nos filmes de Tim Burton Batman era praticamente um personagem secundário, já que os vilões tinham bastante tempo em cena e tinham suas trajetórias muito mais desenvolvidas, dessa vez houve uma preocupação de fã em contar de forma detalhada a criação do “cruzado de capa” – e Batman só aparece uniformizado com mais de uma hora de projeção.

Ao contrário das carnavalescas produções de Joel Schumacher, foi concebida uma trama sombria, mostrando uma Gotham City dominada pelo tráfico de drogas (cujo chefão é Tom Wilkinson), sob a mira da Liga das Sombras (que tem o intuito de reestruturar a cidade, destruindo-a antes) e onde os bandidos acabam sob a “psicologia” do Espantalho (Cillian Murphy). Além disso, cada equipamento, a Batcaverna, simplesmente tudo ganhou uma explicação – ou quase – plausível para existir.

O desenvolvimento foi tal, que os criadores do longa puderam deixar o Coringa para o filme seguinte. E Nolan ainda conseguiu aliar ao apuro técnico (escudado pelo orçamento de US$ 135 milhões), à reunião de um elenco fabuloso, com atores consagrados e outros jovens de talento.

Todos estão em boas e ótimas atuações. Christian Bale, o melhor ator a incorporar Batman, Morgan Freeman, na pele do conselheiro Lucius Fox, Gary Oldman perfeito como o então Tenente Gordon, Michael Caine dando show no papel do mordomo Alfred, Katie Holmes vivendo o interesse romântico, a promotora Rachel, criada especialmente para o cinema, Liam Neeson interpretando magistralmente Henri Ducard, responsável pelo treinamento de Bruce Wayne, Tom Wilkinson divertindo-se como mafioso Carmine Falcone, Rutger Hauer (“Blade Runner”) fazendo o executivo pilantra Richard Earle, Cillian Murphy esbanjando insanidad sob a máscara do Espantalho, e Ken Watanabe (“O Último Samurai” e “Cartas de Iwo Jima”) dando vida a Ra’s Al Ghul.

Depois desse filme, o cinema de super-heróis tomaria outro caminho, para o bem e para o mal. Os produtores passaram a acreditar que era possível fazer um filme do gênero sem idiotizá-lo e ainda assim atrair o grande público, atores e diretores consagrados passaram a prestar atenção nesse tipo de projeto e fãs dos quadrinhos puderam comemorar. Tudo isso seria intensificado nas continuações, “O Cavaleiro das Trevas” (2008), primeiro filme de super-herói a passar a bilheteria de um bilhão de dólares, e “O Cavaleiro das Trevas Ressurge” (2012), igualmente sucesso de público, mas dividido entre os críticos. Graças a este filme (e ao sucesso do Marvel Studios, também), a Warner hoje investe em um universo para os cinemas baseados nos personagens da DC Comics. “Batman V. Superman: A Origem da Justiça” vem por aí ano que vem.

Batman Begins (Idem, EUA, 2005). Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Christopher Nolan e David S. Goyer, baseado em estória de David S. Goyer e nos personagens criados por Bob Kane. Elenco: Christian Bale, Morgan Freeman, Gary Oldman, Michael Caine, Katie Holmes, Liam Neeson, Tom Wilkinson, Rutger Hauer, Cillian Murphy, Ken Watanabe. Aventura / Ação / Drama. 134 min. (Cor).

batmanbeginstres
Lançamento nos cinemas brasileiros: 17/06/2005.

Lançamento em DVD no Brasil: 10/2005.

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *