Wall-E é uma das melhores animações da história

Wall-E (Idem, EUA, 2008). Direção e roteiro: Andrew Stanton. Animação. 97 min. (Cor).

Em 1994, estava em andamento a produção do primeiro longa-metragem inteiramente produzido por computação gráfica, nos estúdios da então novata Pixar (que pertence à Disney). Animado com os resultados do que viria a se tornar o inovador “Toy Story”, o chefe criativo da empresa, John Lasseter, convocou os três principais subordinados para um almoço lendário. Em uma tarde, o quarteto (John mais Andrew Stanton, Pete Docter e o falecido Joe Ranft) debateu, como numa conversa de bar, as idéias de muitos dos filmes que fariam sucesso nos anos seguintes.

Os primeiros rascunhos de “Vida de Inseto” (1998), “Monstros S/A” (2001) e “Procurando Nemo” (2003) ganharam vida naquele encontro. A primeira fagulha inicial de “Wall-E” também surgiu naquela tarde, devido uma única imagem: um robô vivendo sozinho numa Terra sem humanos. Aos poucos, Stanton desenvolveu a idéia. A paixão entre dois seres mecânicos, produzidos em um intervalo de 700 anos e tendo um planeta devastado como pano de fundo, levou 14 anos para sair do papel. E o resultado é simplesmente arrebatador, um espetáculo cinematográfico que não cabe em poucas palavras e tem tudo para agradar pessoas de todas as idades. É Chaplin encontrando Stanlet Kubrick.

Dirigido e escrito por Stanton, Wall-E (cuja sigla vem de Waste Allocation Load Lifter – Earth-Class), é uma superprodução de US$ 120 milhões, e que deverá marcar um novo divisor de águas na história do cinema.

Com um roteiro certeiro, direção de arte espetacular, ótima trilha sonora, utilizando muito mais uma comunicação física do que propriamente diálogos, através de dois personagens “fofinhos”, a produção é um deleite para todos os sentidos e sentimentos, com bom humor, inteligência, sensibilidade e alguma dose de ironia.

A trama começa dando um recado: após entulhar a Terra de lixo e poluir a atmosfera com gases tóxicos, a humanidade deixou o planeta e passou a viver em uma gigantesca nave. O plano era que o retiro durasse alguns poucos anos, com robôs sendo deixados para limpar o planeta. Wall-E é o último destes seres mecânicos, que se mantém em funcionamento graças ao auto-conserto de suas peças. Sua “vida” consiste em compactar o lixo existente no globo, que forma torres maiores que arranha-céus. A única companhia que tem, por assim dizer, é uma barata destrambelhada. Mas um dia surge repentinamente uma nave, que traz um novo e moderno robô: Eva. A princípio curioso, Wall-E com o tempo desenvolve um sentimento pela robozinha.

De maneira correta, o enredo dá o (s) recado (s) na medida certa. Falasse um pouco mais sobre a poluição e teríamos um discurso pentelho à la Greenpeace. Em Wall-E não. O espectador percebe o perigo de maltratar a natureza, mas logo em seguida é apresentado à uma história de amor, com o melhor das comédias românticas e ainda dissertando pequenas – e divertidas – insinuações.

Primeiro, o protagonista é desajeitado, e sempre que se encontra em perigo é Eva quem toma a dianteira e vai literalmente à luta – o velho ditado que nenhum homem vive sem uma grande mulher. A dependência do ser humano à tecnologia também é satirizada de forma impagável. Sabem aquelas pessoas que ao invés de irem andando até a padaria da esquina, e preferem se locomover de carro por pura preguiça? Multipliquemos isso por mil e temos os homens e mulheres do futuro.

Já a forma como o casal se relaciona é de encher os olhos. Claro, os dois são humanizados como aconteceu em filmes como “O Homem Bicentenário” e “Eu Robô”, mas ao contrário dessas produções, eles não falam, restringindo-se a quase nenhuma palavra. Todas as suas expressões se dão através dos olhos de Wall-E e da “boca” de Eva.

E do mesmo jeito que ocorre com adolescentes ingênuos que estão descobrindo o amor, a forma como eles demonstram o sentimento é buscando a mão do outro. Recheado de referências a clássicos da ficção-científica (principalmente “2001 – Uma Odisséia no Espaço”), o público dificilmente passa mais de um minuto sem soltar aquele “óóóó” e ainda é apresentado à barata mais carismática da história.

Mesmo com o bacana “Kung-Fu Panda”, “Wall-E” já dispara na frente como a melhor animação do ano, e um dos grandes filmes da temporada – surgiu disparado como favorito ao Oscar de Animação, e teve quem vislumbrou inclusive uma possível indicação à categoria de Melhor Filme – que injustamente, não aconteceu. Assista, sorria e divirta-se.

Trailer legendado

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André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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