Rocky Balboa

Com "Rocky Balboa", Silvester Stallone encerrou com dignidade a série sobre o garanhão italiano, realizando um tratado sobre a velhice e a superação
Por André Azenha, editor (07/02/2009) // Comente

Por: André Azenha

rockyRocky Balboa (Idem, EUA, 2006). Direção e roteiro: Sylvester Stallone. Elenco: Sylvester Stallone, Burt Young, Milo Ventimiglia, Geraldine Hughes, James Francis Kelly III, Antonio Tarver. Drama. 102 min. (Cor).

9,0

Quando surgiram as notícias de que Silvester Stallone ia retomar suas duas franquias mais conhecidas (“Rocky” e “Rambo!), muito foi comentado sobre a necessidade do astro em resgatar uma carreira em declínio, tudo em tom de desprezo, com ironia. Tais críticas não foram infundadas, pois desde que conseguiu o Oscar de Melhor Filme com “Rocky, Um Lutador”, em 1976, o ator/diretor sugou tudo o que podia do personagem, realizando quatro continuações em que o nível foi caindo episódio a episódio, culminando com um equivocado quinto filme em 1990.

Eis a surpresa. Aos sessenta anos, e provavelmente após ter refletido bastante sobre tudo o que realizou na sétima arte, Sly (como é chamado pelos amigos) resolveu tirar o “VI” do título e como um pedido desculpas aos fãs do garanhão italiano, batizou esse sexto capítulo de “Rocky Balboa”, como que dizendo: “esse é o verdadeiro Rocky, aquele do primeiro filme”. E a ligação desse com o longa de 76 se torna clara ao longo da projeção – a começar pelo cartaz de divulgação, extremamente parecido com o original.

Na trama, Rocky, aposentado há muitos anos, é dono de um restaurante (chamado Adrian’s, em homenagem à esposa que faleceu vítima de câncer), vive de maneira nostálgica contando histórias de suas lutas para os clientes, e parece não ligar para isso. Seu filho (Milo Ventimiglia, da série “Heroes”) trabalha na Bolsa de Valores, é chamado de Baby Rocky pelos amigos e prefere manter distância do pai. Sem conseguir esquecer os ringues, o lutador resolve tentar voltar em lutas pequenas, mas não consegue.

Após uma simulação de computador que coloca o atual campeão dos pesos pesados Mason Dixon (Antonio Tarver) enfrentando Rocky em seu auge, vem a reviravolta. Dixon costuma vencer os combates com facilidade, tem técnica reconhecida, porém não tem o apoio do público. E numa jogada de marketing para mudar a fama do rapaz, o agente de Mason resolve realizar uma luta oferecendo uma nova chance a Balboa.

Com o aspecto rústico de “Rocky – Um Lutador”, Stallone criou um filme sensível e que mostra em sua primeira parte um homem enfrentando a velhice, os problemas de relacionamento com o filho e a saudade da mulher amada (por mais canastrão que seja, o ator realmente consegue emocionar na maneira como retrata a falta que Adrian faz a Rocky, que visita frequentemente o túmulo da amada). Numa atitude plausível, fugiu dos chavões anteriores onde o pugilista tirava parte de sua força do apoio da companheira para enfrentar vilões. Aqui não, o vilão não é necessariamente mau, e o que teria que ser um par romântico é apenas amizade, e o garanhão italiano tem que buscar em si mesmo a força para superar os problemas. E ainda pintam umas surpresinhas para os fãs, como a aparição de uma antiga personagem (uma ponta em cena hilária do primeiro da série, e que dessa vez tem papel importante), a rápida aparição de um velho conhecido dos ringues, o cunhado Paulie (Burt Young, carismático como de costume) e as velhas discussões, além de uma boa dose de humor.

É claro que para fazer parte da franquia e agradar seguidores de carteirinha do herói, velhos clichês não podiam faltar e é a partir da segunda parte que a ligação com o clássico de 1976 se torna evidente. E dá-lhe o tema de Bill Conti quando o treino para a luta decisiva tem início, Rocky correndo com o cachorro e subindo as escadas do Palácio da Justiça da Filadélfia, inúmeros flashbacks e as manjadas viradas durante a luta, aqueles momentos em que após estar levando uma surra, ele resolve reagir e fazer com que todos gritem: Rocky! Rocky! Rocky! Mas tudo isso faz parte. Vale destacar a maneira diferente com que o combate é filmado, como uma verdadeira transmissão de TV (no caso, a HBO de verdade, com comentaristas e tudo).

 “Rocky Balboa” é um filme honesto e sem as extravagâncias dos antecessores, encerrando de forma digna uma série que, apesar de irregular, é memorável. Com esse longa os fãs poderão lembrar com carinho de Rocky, um cara bronco, bruto, simples e de gigantesco coração, capaz de achar fofo um cãozinho tido como feio pela maioria das pessoas, arranjar empregos para ajudar gente praticamente desconhecida, não se preocupar tanto com os lucros do seu restaurante, convidando pessoas de que gosta para comer de graça, e acima de tudo, ser um cara capaz de amar eternamente a esposa.

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André Azenha é jornalista, editor dos sites CineZen e CulturalMente Santista, autor do livro Poesia a Quatro Mãos, feito em parceria com sua mãe, a poetisa Regina Azenha. Trabalhou com o crítico de cinema Rubens Ewald Filho, escreveu para a revista Época São Paulo e colabora com veículos de imprensa de vários estados. Em 2011, mediou o ciclo Documentários Comentados, no SESC Santos. É assessor de imprensa e realiza encontros culturais, a maior parte de caráter beneficente.


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