A Lenda de Beowulf

beowulfA Lenda de Beowulf (Beowulf, EUA, 2007). Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Neil Gaiman e Roger Avary, baseado no poema épico “Beowulf”, de autor desconhecido. Elenco: Ray Winstone,  Anthony Hopkins, Angelina Jolie, Crispin Glover, John Malkovich, Robin Wright Penn,  Alison Lohman.  Animação / Ação / Épico. 113 min. (Cor).

Espadas perfurando corpos com realismo anatômico. Garras monstruosas rasgando pedaços humanos. A estrela mais sexy de Hollywood num frontal sem restrições. Em 1981, um longa fez história com proposta similar, mais rock no último volume. Inspirado em quadrinhos para adultos, “Heavy Metal” virou uma das animações mais cultuadas de todos os tempos. A tecnologia evoluiu, o realismo é cada vez mais impressionante, mas até o trailer de “A Lenda de Beowulf” chegar à Internet, a computação gráfica só era evocada em desenhos de bichinhos fofinhos. Por isso, não é difícil imaginar a animação de Robert Zemeckis, disponível em DVD ao mercado brasileiro, como o “Heavy Metal” da era digital.

A expectativa do público, diante do envolvimento de uma equipe criativa e talentosa, foi alimentada por trailers cada vez mais ousados, que começaram a surgir meses antes da estréia do longa nos cinemas em 2007. Uma imagem que os fãs nunca esquecerão: uma estonteante Angelia Jolie nua, saindo das águas de um lago para seduzir o oponente e vingar a morte de seu filho monstrengo Grendel. É um desenho, mas não há dúvidas que se trata da atriz. O realismo, impressionante, é o cartão de visitas do filme.

O projeto épico tem elementos da saga “O Senhor dos Anéis”. Não poupa dragões, espadas, trilha sonora no volume máximo e ação no enredo. Na famosa história, o guerreiro escandinavo Beowulf (Ray Winstone) luta contra o monstro Grendel (Crispin Glover), que aterroriza o reino, e incorre na ira da mãe (Jolie) da criatura. O texto original é o mais antigo poema da língua inglesa, escrito por um monge por volta do ano 1.100, e já havia sido filmado oito vezes. J.R.R. Tolkien até cita sua leitura como uma das influências na criação de “O Senhor dos Anéis”.

Winstone caiu como uma luva no papel. O jeito grosseiro e o vozeirão do ator o tornaram mais que apropriado para o tom épico do enredo. Além disso, ele tem experiência em animações cinematográficas, tendo interpretado o Sr. Castor em “As Crônicas de Nárnia” (2005). Para viver Beowulf, o londrino barrigudinho de mais de 50 anos passou por lipo e plástica digitais, que o remoçaram em pelo menos duas décadas, além de torná-lo tão forte e imponente quanto Arnold Scharzenegger em “Conan”. A escalação do cinquentão é o exemplo máximo da liberdade que a tecnologia de “captura de performance” permite.

No elenco ainda destaca-se Glover, mais conhecido como George McFly, o pai do personagem de Michael J. Fox no maior sucesso do diretor, “De Volta para o Futuro”. Ele foi o integrante do elenco que teve suas feições mais alteradas e aparece monstruoso na tela, mas a atuação ensandecida não deixa dúvidas de quem se trata. lendadedois

Mas o principal atrativo da trama é mesmo Angelina Jolie. Ela magnetiza o expectador no instante em que entra em cena. Se sua personagem esforça-se para seduzir Beowulf, é o público que ficou mais uma vez seduzido pela estrela.

O bom elenco inclui também Anthony Hopkins, John Malkovich, Robin Wright Penn, Brendan Gleeson e Alison Lohman. E Robert Zemeckis não podia estar mais confortável na cadeira do diretor. Já havia dirigido “O Expresso Polar”, que arrebatou o público ao introduzir a tecnologia, então revolucionária, da “performance capture”, um sistema que capta em 3-D (três dimensões) as expressões e os movimentos dos atores, por meio de milhares de pequenos sensores computadorizados, e os transcreve como personagens virtuais, o que deixa os desenhos com um “ar” de realidade.

O filme ainda pega carona em dois dos gêneros cinematográficos que mais evoluíram nos últimos tempos – as animações e o cinema épico. A cada produção, a arte digital tem se mostrado cada vez mais realista. Dois mil e sete também marcou a entrada dos épicos no mundo 3-D criado por computador. Com cenografia 100% digital, “300” é influência estética e tecnologia inevitável no filme de Zemeckis – alguns técnicos envolvidos no projeto chegaram a definir “A Lenda de Beowulf” como uma mistura de “300” e “O Senhor dos Anéis”.

O diretor, vencedor do Oscar por “Forest Gump” (1994), mesclou as duas vertentes cinematográfica, fazendo uma produção que, apesar de animada, não é exatamente para criancinhas.

Para condensar o gigantesco poema (com um total de 3182 linhas!), o diretor teve o respaldo de dois especialistas em tramas violentas e/ou fantasiosas: o roteirista Roger Avary, chapa de Quentin Tarantino, co-autor da história de “Pulp Fiction”, e o escritor Neil Gaiman, criador dos quadrinhos de Sandman e da fábula “Stardust”, que também virou filme. Se o texto original é um tratado praticamente interminável, o filme prima pelo texto enxuto, graças ao entrosamento de Avary e Gaiman.

O único deslize do longa fica por conta de algo inerente à captura de performance. Os olhos dos personagens continuam “sem vida”, algo que já havia acontecido em “O Expresso Polar” – um defeito que compromete uma tecnologia cujo intuito é tornar uma animação próxima da realidade. Mesmo assim, Zemeckis impressiona ao conseguir criar sequências envolventes e impressionantes para uma animação e “A Lenda de Beowulf” acaba sendo um divertido passatempo.

7,5

lendadetres

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *