Homem de Ferro

Homem de Ferro (Iron Man, EUA, 2008). Direção: Jon Favreau. Roteiro: Art Marcum, Matt Holloway, Mark Fergus e Hawk Otsby, baseado em personagens criados por Stan Lee, Don Heck, Jack Kirby e Larry Lieber Elenco: Robert Downey Jr., Terrence Howard, Gwyneth Paltrow, Jeff Bridges, Shaun Toub, Leslie Bibb, Samuel L. Jackson, Jon Favreau. Aventura. 126 min. (Cor).

Graças a um trailer matador, ao som de Iron Man, do Black Sabbath, e respaldo positivo do público na Comic-Com (evento anual que reúne fãs de HQs e há algum tempo virou parada obrigatória para divulgação de filmes), Homem de Ferro surgiu com a melhor das expectativas para abrir uma temporada de blockbusters ano passado que teria ainda os Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal,  As Crônicas de Nármia – Príncipe Caspian, Speed Racer e Batman – O Cavaleiro das Trevas. O marketing espontâneo foi tão forte que o público-alvo já parecia convencido de que Robert Downey Jr realmente era Tony Stark, o industrial milionário, fabricante de armas, playboy e alcoólatra, que os leitores de quadrinhos admiram como Homem de Ferro.

Downey, que concorreu ao Oscar ao viver Charles Chaplin numa produção premiada de 1992, foi uma definição polêmica por seu passado tumultuado. O ator foi preso diversas vezes por estar sob efeito de drogas, internado em três clínicas de reabilitação e chegou a passar um ano inteiro na cadeia na virada do milênio. Sóbrio e disposto a dar a volta por cima, ele participou nos últimos anos de uma série de filmes aprovados pela crítica (Zodíaco, Santos e Demônios, Beijos e Tiros e A Pele), mas ninguém havia ainda se arriscado a colocá-lo à frente de uma superprodução.

A escolha sabiamente foi bancada pelo diretor John Favreay, ele próprio uma escalação inusitada para esse tipo de filme e igualmente bem sucedido na empreitada. Favreau até então era mais conhecido como ator. Os fãs de super-heróis podem lembrá-lo como “Foggy” Nelson, o melhor amigo de Matt Murdock em O Demolidor (2003). Como diretor, assinara três filmes, todos comédias e apenas um com ênfase em efeitos especiais – Zathura – Uma Aventura Espacial (2005). Homem de Ferro é uma produção que mudou o destino dos dois envolvidos: Favreau provou ser capaz de se dar bem com um grande orçamento e Downey se mostrou um astro sério, cujo tom irônico casou perfeitamente com a natureza do personagem.

Mas antes de tudo, HF é o filme que fez a divisão cinematográfica da Marvel Comics se revelar competente ao transpor para a telona um personagem seu – antes do longa, a editora de gibis vendia os direitos de seus heróis para outros estúdios. Desta vez, todos os gastos correram por conta da Marvel, deixando a Paramount Pictures apenas como parceira na distribuição. A aposta da Marvel na visão de Favreau , ecoou ironicamente, o perfil “alternativo” da direção de Christopher Nolan em Batman Begins, franquia de sua maior rival nos quadrinhos, a DC Comics. A idéia do diretor em criar uma superprodução que não perdesse sua essência artística foi assumidamente inspirada no filme de Nolan.

E para sair bem sucedida, convocou um elenco excepcional: além de Downey, vimos Gwyneth Paltrow pela primeira vez num filme de ação. A atriz, que costuma se identificar com dramas e comédias, optou por Homem de Ferro “pelos nomes envolvidos”. Vencedora do Oscar de Melhor Atriz por sua atuação em Shakespeare Apaixonado (1998), a esposa de Chris Martin, vocalista da banda Coldplay (com quem teve os filhos Apple e Moses), tinha se afastado do cinema para ser “mãe” e, surpresa geral, escolheu voltar à ativa numa adaptação dos quadrinhos.

Quem também ficou empolgado com a chance de contracenar com Robert Downey Jr. foi Terrence Howard, outro intérprete de peso, indicado ao Oscar de Melhor Ator por Ritmo de um Sonho (2005). Em Homem de Ferro, ele viveu um dos melhores amigos de Tony Stark, o piloto James Rhodes, militar de alta graduação e aviador – em Homem de Ferro 2, quem irá viver o personagem é Don Cheadle (Crash – No Limite). Para viver o vilão foi escalado Jeff Bridges, astro de O Grande Lebowski (1998) e O Pescador de Ilusões (1991), entre inúmeros filmes. “The Dude” incorporou com maestria o industrial Obadiah Stane, grande rival de Stark, que no filme está por trás de sua prisão no Oriente Médio.

No início, curiosamente, Favreau admitiu preferir atores desconhecidos do grande público, como aconteceu com Brandon Routh em Superman – O Retorno (2006). Porém, ele acabou se rendendo ao talento de Robert Downey Jr. e, quando se deu conta, estava com um supertime em campo. Fora o elenco, contratado para uma trilogia, Homem de Ferro tem como destaque efeitos convincentes, sequências de tirar o fôlego, armamento pesado, uma trilha sonora em volume máximo e uma mescla de aventura e drama, com toques de humor.

Criado por Stan Lee e os desenhistas Jack Kirby e Don Heck, o Homem de Ferro apareceu pela primeira vez na edição 30 da revista Tales of Suspense, em 1963. No enredo original, Tony Stark desenvolveu o protótipo da armadura após ser capturado por inimigos durante a guerra do Vietnã. Era basicamente um herói anticomunista, que combatia ameaças soviéticas (Viúva Negra, Dínamo Escarlate, Homem de Titânio) e comandava a indústria armamentista, em favor da defesa nacional dos EUA. Mas, com o tempo, o personagem se tornou mais complexo, mostrando um lado vulnerável, principalmente em histórias sobre sua luta contra o alcoolismo e o aparecimento de um complexo de culpa pela destruição causada por seus negócios. Nos quadrinhos, o Homem de Ferro se tornou um dos maiores símbolos da inventividade e dos defeitos da humanidade.

No filme (há também um longa de animação, lançado em DVD, chamado O Invencível Homem de Ferro, de 2007, em que a origem do protagonista ganhou outra versão), ele não surge como mais um herói simpático para fazer a alegria da garotada, não é altruísta como o Superman, muito pelo contrário. É um sujeito vaidoso e mulherengo. Sua personalidade controvertida não tem nada a ver com adaptações anteriores de heróis da Marvel, como Homem-Aranha ou Quarteto Fantástico. Muito pelo contrário, é um sujeito linha dura, ainda que salte à tela um pouco de bom humor e ironia. O roteiro escrito por Art Marcum, Matt Holloway, Mark Fergus e Hawk Otsby apostou acertadamente em dar uma trajetória “real” para a criação do herói.  O filme é uma história de origem e apresenta Tony Stark (Downey Jr.) como um jovem inventor que dirige uma milionária fábrica de armas para as Forças Armadas. Ao visitar o Iraque, ele é preso por inimigos numa emboscada. Durante a captura, fragmentos metálicos de uma explosão atingem seu peito e chegam ao coração. Sua vida é salva por um cientista, também prisioneiro dos iraquianos, que usa uma bateria de carro para criar um aparelho que mantém o coração de Stark funcionando.

No cativeiro, os dois são coagidos a criar uma arma de destruição em massa. Aproveitando-se da chance, criam uma armadura especial para fugir, mas o inventor se sacrifica por Tony, que é resgatado. De volta a Nova York, Stark reencontra com sua secretária e interesse romântico, Virgínia “Pepper” Potts (Paltrow), e precisa enfrentar perguntas de uma repórter (Leslie Bibb) que o considera um mercador da morte. O grande vilão é o executivo Obadiah Stane (Bridges), rival industrial de Stark, que deu coordenadas e informações para que os iraquianos tivessem êxito no sequestro. Ao ver Tony ter sucesso na criação de uma nova e avançada armadura de ferro (chamada Mark III), Stane decide criar uma armadura para si próprio, uma máquina de matar, conhecida nas HQs como Monge de Ferro.

Os mais atentos ainda poderão perceber figurações do diretor Jon Favreau, que aparece em cena como guarda-costas de Stark e pequenas referências que apenas os fãs de quadrinhos irão perceber: como o possível surgimento do Máquina da Morte em produções futuras, e a criação da agência SHIELD e até o escudo do Capitão América é mostrado de forma bem sutil. E, para manter a tradição, quem também faz uma rápida participação é o criador do personagem, Stan Lee. Após os créditos, quem dá as caras é Samuel L. Jackson, como Nick Fury, cena que fez os fãs da Marvel darem início ao oba-oba para o futuro longa com atores de verdade dos Vingadores.

Homem de Ferro entra para a lista das boas adaptações dos quadrinhos, que inclui o primeiro Superman de duas décadas atrás, os dois primeiros Homem-Aranha, a trilogia X-Men e os dois últimos Batman. Não é uma obra perfeita, pois o roteiro possui pequenos escorregões como frases óbvias que poderiam ser evitadas. Mas os efeitos visuais são excelentes, as cenas de ação bem conduzidas e Downey Jr. é um ator que dá credibilidade à trama. Os fãs dos heróis da Marvel com certeza podem comemorar. O Hulk com Edward Norton não fez feio. X-Men Origins – Wolverine (que não é produzido pela Marvel Studios) chega aos cinemas em breve. E a expectativa é que agora, com a chancela da própria Marvel, as produções sobre os heróis da empresa sejam dignas dos gibis. E Homem de Ferro foi o primeiro a enfrentar o teste e se saiu muito bem.

Trailer legendado

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André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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