Dois Anjos

Dois Anjos (Deux Fereshté, Irã / França, 2003). Direção e roteiro: Mamad Haghighat. Elenco: Siavash Lashkari, Mehran Rajabi, Sharareh Dolat Abadi, Golshifte Farahani, Hassan Nahidi, Fahimeh Rahimnia. Drama. 80 min. (Cor).

É sempre interessante ter a chance de conferir uma obra cinematográfica – independente de sua qualidade – que não faça parte do eixo EUA/Europa, seja pelo fato de conhecer uma nova maneira de fazer cinema, ou pela oportunidade de observar uma cultura ou um modo de viver completamente diferente do nosso. Pena que essas raras ocasiões restrinjam-se a festivais e mostras ou algumas salas de arte espalhadas por aí. Por isso não se pode desperdiçar uma ocasião como a de assistir à produção iraniana/francesa “Dois Anjos”, mesmo que três anos após seu lançamento.

Saindo do costume do cinema feito em países com grande porcentagem de pobreza e que focam temas que mostram essas dificuldades; o longa, dirigido, roteirizado e produzido por Mamad Haghighat possui uma proposta bem mais branda, quase que ingênua e beirando o simplório, de abordar essa realidade (talvez para não ofender demais as autoridades do Irã), ainda que explicitando um tipo de conflito.

Na história, um pai que segue à risca a religião quer que o filho Ali, de 15 anos, largue os estudos para ajudá-lo no pequeno negócio de fabricação de pães. O garoto não só contraria o chefe de família como em uma das discussões, foge e conhece um camponês que toca o Ney (tipo de flauta). A apresentação do instrumento serve de metáfora para que o jovem descubra um novo mundo, onde a arte e uma garota passam a tomar conta de seus desejos, sua alegria e sua vida.

A tragédia é inevitável, já que no início da trama o pai encontra-se em um templo religioso chorando e pedindo perdão por ter matado Ali. Mas não é bem assim. Não há violência. Tudo é muito singelo e sutil. Os diálogos são curtos e muitas cenas são contemplativas e demoradas. É interessante notar a dualidade das situações e Mamad foca os dois lados da moeda. Além do conservadorismo (ou radicalismo) do pai, há o lado um pouco mais liberal, da mãe de Ali, que o ajuda a frequentar a escola de música no Teerã às escondidas; e a família de Azar (a tal garota, também aluna do local e que toca um tipo de tamborim), que tem situação financeira um pouco melhor e cujos pais apóiam o estudo das artes. O recado, jamais escancarado, é que não há só pobreza e radicalismo no Irã. Aliás, a dupla de criaturas angelicais do título pode ser representada no casal de jovens.

Mas a obra tem seus problemas e eles residem basicamente ao redor do ator Siavash Lashkari (Ali). Como pode a figura principal de um filme ser praticamente inexpressiva? O artista não consegue dar sentimento ao personagem nem no conflito com o pai e menos ainda na relação com Azar. E é de uma bobagem tremenda Ali sair correndo e gritando toda vez que se encontra numa situação em que não sabe como reagir, o que tem um pouco de culpa do roteiro e da direção. Já Mehran Rajabi (o pai) também não é dos melhores. Merece palmas mesmo o trio de mulheres formado pela bonita Golshifte Farahani (Azar), Sharareh Dolat Abadi (mãe da menina) e Fahimeh Rahimnia (mãe de Ali). As três roubam a cena sempre que aparecem.

No sentido religioso, o camponês (também vivido por Mehran) pode ser interpretado como o Messias, por cuidar de um rebanho (metáfora manjada) e por dar luz ao futuro do garoto (em contrapartida ao rigor implantado pelo pai). Luz essa representada pelo instrumento. Acertadamente o filme é curto (80 minutos), já que devido às suas passagens vagarosas e inúmeros instantes de silêncio, poderia se tornar algo extremamente chato se ultrapassasse, por exemplo, as duas horas de projeção.

Entre erros e acertos, “Dois Anjos” é um trabalho que trata de descoberta adolescente e conflito de gerações, e acaba se tornando interessante, por ser uma produção de um país cuja realidade é praticamente desconhecida por esses lados, e quando é retratada de alguma forma por cineastas, principalmente os ocidentais, acaba sendo distorcida.

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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