O Cheiro do Ralo é cinema brasileiro cult

Até que ponto um ser humano resiste à tentação de usar o poder que tem sobre outra pessoa em determinada situação? Vale se sujeitar a tudo, como por exemplo, tirar a roupa ou enfiar o braço num ralo cheio de bosta, para conseguir uns míseros trocados, mesmo quando se está desesperado?
Esses são alguns dos motes de “O Cheiro do Ralo”, longa dirigido pelo cineasta e publicitário Heitor Dhalia, também autor do roteiro em parceria com o quadrinista Marçal Aquino (repetindo a dobradinha à frente do ótimo “Nina”, 2004), num filme à primeira vista estranho e afetado, porém capaz de arrancar boas gargalhadas e mandar alguns recados, inclusive políticos, sobre abuso de poder.
O êxito do longa já começa pela capacidade da produção ter conseguido realizar uma obra bacana com pouco dinheiro, culminando na escolha para a Mostra Oficial do Festival de Sundance, a Meca do cinema independente mundial.
O orçamento original seria de R$ 2,5 milhões, mas acabou ficando em R$ 315 mil, verba conseguida entre sócios privados e os produtores executivos – valor pífio até para o cinema brasileiro.
Na trama, Lourenço (Selton Mello), é dono de uma loja que compra e vende objetos usados. No início parece um cara comum, come estrogonofe com batatinha ao lado da noiva, leva a vida simples. Mas com o aumento gradativo do cheiro desagradável do ralo no banheiro de seu caótico escritório, crescem também a paranoia e a sensação de poder dele. A cada pessoa que chega, ele explica o mau cheiro do lugar. “Esse cheiro é do ralo lá no banheiro”, como querendo camuflar a sujeira de sujeitar pessoas à humilhação.
E tudo começa a desabar quando fica obsessivo pela bunda de uma garçonete (Paula Braun, grande revelação, e que realmente tem uma bela bunda!). E por mais que ela lhe dê mole, e se mostre suscetível a dormir com ele, para Lourenço, só há graça se pagar para ver o traseiro. Soma-se outra obsessão, por um olho de vidro, o qual apresenta a funcionários e clientes dizendo: “esse é o olho do meu pai, ele morreu na Segunda Guerra Mundial”.
Apesar do eficiente texto e do bom elenco coadjuvante, destacando, além de Paula, o escritor Lourenço Mutarelli (cujo livro inspirou o longa), hilário como segurança, Fabiana Guglielmetti encarnando a noiva rejeitada, uma ponta divertida de Suzana Alves (sim, a Tiazinha) fazendo uma professora de ginástica na TV, estilo Solange Frazão, e a viciada feita por Sílvia Lourenço, papel fundamental da história, o que segura mesmo o longa é o personagem principal.
Selton Mello, na melhor interpretação de sua carreira (muito acima da superestimada atuação em “Meu Nome Não é Johnny”) – que lhe rendeu o prêmio de melhor ator no Festival do Rio – cria uma figura cínica, arranca risadas e ao mesmo tempo desprezo. De atitude blasé, voz rouca e postura sempre curvada, o protagonista é uma figura trash, entediada e envelhecida, deliciosamente perturbada.
“O Cheiro do Ralo” é o tipo de obra cult. Não lotou salas Brasil afora. E não nasceu para isso. No Festival do Rio também arrebatou o prêmio de Melhor Filme – Júri Oficial, e na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o Prêmio da Crítica Nacional.
O CHEIRO DO RALO
(Idem, Brasil, 2007).
Direção: Heitor Dhalia.
Roteiro: Marçal Aquino e Heitor Dhalia, baseado em livro de Lourenço Mutarelli.
Elenco: Selton Mello, Paula Braum, Lourenço Mutarelli, Silvia Lourenço, Fabiana Guglielmetti, Suzana Alves.
Comédia.
112 min.