Encarnação do Demônio

Encarnação do Demônio (Idem, Brasil, 2008). Direção: José Mojica Marins. Roteiro: José Mojica Marins e Dennison Ramalho. Elenco: José Mojica Marins, Débora Muniz, Milhem Cortaz, Jece Valadão, Luís Melo, Rui Resende, José Celso Martinez Corrêa, Raymond Castile, Giulio Lopes, Eduardo Chagas, Cléo de Páris. Terror. 80 min. (Cor).

Para Jigsaw – personagem central de “Jogos Mortais”, série que adquiriu fãs pelo mundo inteiro nessa década – a tortura não é uma punição, mas uma bênção. E sobreviver à ela significa a beleza de estar vivo. E  “Encarnação do Demônio”, o desfecho da trilogia do mais conhecido personagem do raríssimo gênero do terror nacional, Zé do Caixão, iniciada em 1963 com “À Meia-noite Levarei sua Alma” e seguida em 1966 por “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver”, José Mojica Marins prova que a idéia de tortura como redenção de “Jogos Mortais” não foi genuína.

Dirigido pelo próprio José, também autor do roteiro feito em parceria com Denisson Ramalho (do comentado curta de horror “Amor Só de Mãe”), o filme foi produzido com um orçamento quase irrisório (se comparado a outras produções nacionais e aos filmes de terror feitos em outros países), porém histórico para a carreira do cineasta: R$ 2 milhões – valor que em meio século de carreira ele jamais havia levantado.

O baixo orçamento não freou a criatividade de Mojica e na nova história, após 40 anos preso, Zé do Caixão é libertado da prisão, e encontra novas pessoas que aceitam (literalmente) servi-lo com a própria carne, para que o agora velhinho, mas não menos assustador, possa encontrar uma mulher que lhe dê a chance de gerar seu filho perfeito.

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Pessoalmente José Mojica parece o avô que todo mundo gostaria de ter, aquele velhinho de fala mansa, simpática, mas é só incorporar seu célebre personagem para que a transformação de sua feição seja radical, parecendo realmente tomado pelo demônio. E isso mostra o poder de interpretação dele. O restante do elenco (formado em boa parte por rostos desconhecidos do grande público) não tem muito a inventar:  as mulheres possuem belos corpos mostrados – lógico – nus, quem é torturado se põe a berrar e implorar perdão e os policiais são os estereótipos de tiras corruptos e chulos, falando um monte de palavrões.

Das caras mais famosas, destacam-se Jece Valadão como o coronel Valdomiro Pontes, Milhem Cortaz (que parece estar presente em todas as produções recentes do cinema brasileiro), de “Tropa de Elite”, faz o padre com tom psicótico que busca vingança pela morte do pai, Rui Resende, interpreta o fiel escudeiro do vilão, que soa assustador e engraçado ao mesmo tempo, e Giulio Lopes (“Meu Nome Não é Johnny”) é um dos moradores da favela.

Entre os novatos, vale prestar atenção na bela Cléo de Páris. E na maneira como os atores se dedicaram, mesmo quando precisaram enfrentar sequências asquerosas, como a mulher que sai de dentro de um porco  – e isso não foi filmado com efeitos visuais! – ou uma outra que literalmente come um pedaço da própria bunda.

“Encarnação do Demônio” não é uma obra espetacular, e talvez todo esse hype (a crítica adorou, premiando o longa com 7 prêmios no Festival de Paulínia, em Filme, Fotografia, Direção de Arte, Edição, Edição de Som, Trilha Sonora e Prêmio da Crítica, e as principais redes de cinema do país colocaram o filme em inúmeras sessões) criado em torno dela seja pelo fato da demorada espera para o desfecho dessa trilogia. Porém é um filme divertido, superior a “O Albergue” e tantas outras cópias do gênero.

E diferencia-se principalmente por sua, se é que se pode chamar assim, ideologia:, ridiculariza as religiões organizadas (como entoa o protagonista em certo momento, “Deus não foi convidado para a festa”, e em outro sentido, o padre que critica a tortura, mas se auto-flagela, não passa de um hipócrita), o sistema carcerário, os usuários de drogas, e faz uma crítica à polícia que invade a favela para matar as crianças, mas deixa os traficantes e assassinos livres.

Obviamente quem tem estômago fraco ou é religioso fervoroso vai detestar. Já quem sabe encarar um tipo de trama como essa de bom humor tem tudo para conferir um pouco mais de uma hora e meia de muita diversão, e porque não, várias risadas.

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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