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300 (Idem, EUA, 2007). Direção: Zack Snyder. Roteiro: Kurt Johnstad, Zack Snyder e Michael Gordon, baseado em graphic novel de Frank Miller e Lynn Varley. Elenco: Gerard Butler, Rodrigo Santoro, Lena Headey, Dominic West. Aventura / Épico. 117 min. (Cor).

Em 480 a.C., durante a Segunda Guerra Médica, num estreito montanhoso chamado Termópilas (“portões quentes”), no nordeste da Grécia, trezentos espartanos sob o comando do rei Leônidas, acompanhados por não mais de 7000 (os dados variam) aliados de outras cidades gregas, enfrentaram cerca de 250 mil persas liderados pelo rei Xerxes. Os gregos das outras cidades fugiram, temendo o desfecho inevitável, mas os trezentos espartanos, os guerreiros mais disciplinados da época, continuaram lutando e resistiram por três dias, aproveitando a geografia local, antes de serem aniquilados.

Esse exemplo de bravura, somado à grande quantidade de baixas persas, serviu de incentivo para que um tempo depois toda a Grécia afugentasse os invasores. Considerado um dos maiores combates da história, a Batalha das Termópilas é o tema de “300”, longa que catapultou a carreira do diretor Zack Snyder (que depois faria o bacana “Watchmen”), foi sucesso de bilheteria e é um filme belo, violento, adaptação praticamente perfeita dos quadrinhos de Frank Miller, com o brasileiro Rodrigo Santoro em papel importante.

A HQ – Em 1962, Miller, então com cinco anos, teve sua visão de cinema transformada após assistir “The 300 Spartans”, de Rudolph Maté. O motivo? Pela primeira vez presenciava uma história onde os heróis morriam; diferente do clichê “bonzinho sempre se dá bem no final”. Ele cresceu, tornou-se um dos maiores nomes dos gibis, trabalhando nas duas grandes empresas do ramo – Marvel e DC – e dando vida nova a personagens como Batman e O Demolidor. Em 1998, escreveu e desenhou a graphic novel “300 de Esparta”, em parceria com a colorista e ex-esposa Lynn Varley, com quem trabalhou em clássicos HQs, entre eles “Ronin” – uma das próximas adaptações cinematográficas do autor.

Miller se baseou nos relatos do historiador Heródoto, cujos números das batalhas são questionáveis – no período da guerra, Heródoto tinha quatro anos. Segundo o historiador, o exército persa teria dois milhões de soldados, quando no máximo somaria um quarto de milhão. Nada pra diminuir o valor do feito espartano.

O filme – Zack Snyder é jovem, na época da produção de “300” tinha 40 anos, pode ser considerado um novato na sétima arte, estudou pintura e tem no currículo trabalhos com videoclipes e comerciais, nos quais utilizava grande quantidade de efeitos especiais. É um nerd de carteirinha. Estreou no cinema com o divertido e elogiado “Madrugada dos Mortos” (remake do clássico sobre zumbis “O Despertar dos Mortos”, de 1978, dirigido por George Romero – cujos créditos iniciais rolam ao som de “When The Man Comes Around”, de Johnny Cash) e sendo nerd dos bons, leu e apaixonou-se pela batalha nas Termópilas.

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Resolveu dirigir um longa sobre o assunto. Poderia fazer como Rudolph Maté e se mandar com elenco e todo aparato cinematográfico para a Grécia ou qualquer localidade a céu aberto para rodar o embate. Mas não. Trancou-se num estúdio, assim como Robert Rodriguez fez em “Sin City” (outra obra de Frank transportada para as telonas, que de real mesmo, só o elenco), reuniu atores praticamente desconhecidos do grande público norte-americano, filmou durante sessenta dias e depois ficou um ano fazendo a pós-produção, entregue às mãos de dez empresas de efeitos visuais. E alcançou um lindo resultado visual, onírico, e praticamente perfeito enquanto adaptação, dando vida a cada frame do gibi.

A princípio seria complicado alguém do público comum (aquela pessoa que busca apenas entretenimento e não é fã especificamente de HQs ou épicos), se envolver nos dias atuais com as motivações espartanas (no caso, os espartanos seriam os “bonzinhos” da trama). Em Esparta, meninos de sete anos eram obrigados a enfrentar um treino impiedoso por onze anos, longe das mães, na intenção de tornarem-se grandes guerreiros, glória maior da cidade-grega – caso não fossem sacrificados por nascerem imperfeitos.

Para cativar a platéia, certas liberdades foram tomadas pelos roteiristas em relação ao gibi. Paralelamente ao conflito, foi dado um tom de sacrifício ao romance entre Leônidas (Gerard Butler, de “O Fantasma da Ópera”) e a Rainha Gorgo (Lena Headey, linda). Se na HQ, ela aparece em poucos quadros, aqui precisa convencer os velhotes do conselho de Esparta a permitirem o envio do resto do exército para auxiliar o marido, pois estão em uma época festiva onde guerras são proibidas. Há uma sacada esperta com a frase “combateremos à sombra” e cenas belíssimas. Mesmo o sexo entre rei e rainha é bonito, jamais apelativo. Noutro instante, uma bela jovem – representando um oráculo – dança, em transe, recriando o quadrinho original à letra. A atriz na verdade se encontrava em um grande tanque de água, possibilitando que sua roupa flutuasse ao redor do corpo nu.

Todos cenários e o sangue foram produzidos em computador, num estúdio digital (algo parecido foi feito em “Capitão Sky e o Mundo do Amanhã”, de Henry Conran). Nisso ajudou o desempenho do elenco, entregue a um set de filmagem vazio, num galpão gigante em Montreal, apenas com um pano ao fundo, atuando quase como numa peça teatral, imaginando possíveis cenários – a única gravação externa foi a que precisou dos cavalos.

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Gerald Butler encarnou com perfeição Leônidas, um rei frio em situações de alegria ou perigo, jamais deixando-se amolecer em durante o conflito, sujeito fodão de barba grande e cara de mau, porém leal e justo com os companheiros. Apaixonado pela esposa e filho, apesar de não dizer uma vez “eu te amo”. Num certo instante dá vontade de gritar pra ele: “diz que a ama, seu idiota!”. O papel caiu tão bem e lhe rendeu um convite para a nova versão de “Fuga de Nova York”, na pele do antigo personagem interpretado por Kurt Russel, Snake Plissken.

Os outros artistas desempenham bem seus personagens. Sejam os guerreiros espartanos, todos fortões (os atores tiveram oito semanas de dietas, exercícios rigorosos de musculação e treinos de artes marciais – ganhando barrigas de tanquinho de dar inveja a muito marombado), a rainha, uma companheira tão forte e durona quanto o marido, e Rodrigo Santoro.

Após aparecer de corpo sarado, impressionar Cameron Diaz e não abrir a boca em “As Panteras Detonando”, mandar alguns “Hello Sarah” no inglês e fofo “Simplesmente Amor”, o brasileiro galgou mais degraus no mercado internacional. Foi chamado para o seriado “Lost” e consegue provar seu talento no papel de um rei Xerxes de quase três metros de altura. Se na graphic novel, a figura do governante asiático, amedronta e é mais insana, no filme parece mais um ser andrógino, de corpo depilado e cheio de piercings e adereços. Mesmo com a voz alterada digitalmente (pra ficar mais grave), Santoro convence com olhares e expressões de desespero, deslumbre e ambição, salvando o personagem do ridículo – a primeira aparição do ator ocorre lá pelos 50 minutos de projeção numa carruagem ancestral dos carros alegóricos do carnaval tupiniquim.

Utilizando linguagem de videoclipe, acelerando momentos dramáticos e pausando a câmera em instantes de ação, Snyder concebeu uma obra estilizada, dando um quê de beleza à violência e tratando com igual importância tanto as cenas principais, como a atuação dos coadjuvantes.

O orçamento do filme foi de U$ 60 milhões, pouco para um épico, e rendeu mais que o triplo, liderando as bilheterias norte-americanas nas duas primeiras semanas de exibição. Recebeu críticas negativas por parte da imprensa gringa, por dar à guerra um ar de glorificação – diferente de, por exemplo, “Cartas de Iwo Jima” e “A Conquista da Honra”, de Clint Eastwood, olhares críticos aos campos de batalha. Até taxado de fascista foi. Nâo é bem assim. “300” deve ser encarado como entretenimento, e só. Não há a intenção de soar realista ou fiel à história. É uma ótima adaptação dos quadrinhos, com fantástica trilha sonora de Ryler Gastes (espécie de heavy metal medieval), tecnicamente impecável (fotografia, edição de arte e figurinos excelentes), rendeu paródias no cinema, e provavelmente revolucionará o gênero épico, que esteve em baixa após “Alexandre”, “Tróia” e “Cruzada”.

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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