Cartas de Iwo Jima


Clint Eastwood merece palmas. Nâo é qualquer um, próximo a completar 77 anos (em 2007), que teria a coragem e a energia de rodar dois filmes ao mesmo tempo, buscando retratar visões opostas de uma mesma guerra – no caso, a batalha de Iwo Jima, entre Estados Unidos e Japão, pela Segunda Guerra Mundial. Ainda mais sendo ele norte-americano, um dos lados do conflito – algo parecido foi realizado no irregular “Tora! Tora! Tora!”, de 1970, sobre o ataque a Pearl Harbor, também utilizando os dois lados da batalha.  Ele poderia muito bem cair no erro de retratar compatriotas com heroísmo, e os oponentes como os vilões. Mas não só desfez mitos no bom “A Conquista da Honra”, a visão norte-americana, como tratou com respeito japoneses no excelente e superior “Cartas de Iwo Jima”.

A batalha pela ilha de Iwo Jima (Operação Detachment) aconteceu entre fevereiro e março de 1945, durante a Campanha do Pacífico da Segunda Guerra Mundial. A ilha – formada de rocha vulcânica e areia acinzentada – era ponto estratégico para os EUA, que visavam capturar os campos aéreos de modo a fornecer um local de aterrissagem e reabastecimento para seus bombardeiros, que também poderiam ser escoltados por caças no local.

O projeto só poderia dar certo, a começar pelas pessoas envolvidas. Steven Spielberg foi produtor ao lado de Clint, e os roteiros contaram com a colaboração de Paul Haggis (diretor e roteirista de “Crash – No Limite”, vencedor do Oscar de Melhor duknw em 2006, e roteirista de “Menina de Ouro”, do qual Clint levou o Oscar de Direção e Filme, em 2004).

E Clint alcançou um belo resultado artístico, concebendo uma obra praticamente toda falada em japonês (algo corajoso, já que o público norte-americano detesta legendas) e incrivelmente de orçamento bem inferior à sua outra metade – enquanto “A Conquita da Honra”, lançado antes no Brasil, custou U$ 55 milhões (teve atores conhecidos e localidades mais caras), os gastos de Cartas… foram de U$ 15 milhões.

A superioridade artística do segundo pôde ser conferida no Oscar e outras premiações. O primeiro foi indicado em Som e Edição de som, enquanto o segundo faturou o prêmio da Academia em Melhor Edição de som e foi lembrado nas categorias Filme, Direção, Roteiro original, tendo vencido também o Globo de Ouro na categoria Filme em língua estrangeira. Apesar de realizados juntos, personagens não se repetem e apenas algumas cenas possuem ligação, como o ataque de um americano a uma caverna utilizando um lancha-chamas.

Com roteiro de Iris Yamashita (nascida e criada nos Estados Unidos), que teve colaboração de Paul Haggis, baseado no livro com as cartas deixadas pelo general Tadamichi Kuribayashi, o longa retrata a preparação japonesa para a invasão do inimigo e a batalha em si, mesclando cenas de guerra com flashbacks e concentrando a maior parte da trama dentro das cavernas utilizadas pelos japoneses como abrigo e meio surpresa no embate.

Três personagens centralizam o drama. O general Kuribayashi (Ken Watanabe, de “O Último Samurai”, que se preparou para o papel lendo as cartas enviadas pelo verdadeiro general à sua família) foi escolhido de última hora pelo Imperador Tojo para defender a ilha, morou e estudou nos Estados Unidos e nutre grande admiração pela terra do Tio Sam. O Barão Nishi (Tsuyoshi Ihara) defendeu sua nação nas olimpíadas de Los Angeles – onde venceu no hipismo – e partilha do mesmo sentimento que o general pelo país ocidental. Já Saigo (Kazunari Ninomiya) é um jovem, como tantos outros, que precisou deixar sua esposa grávida para servir – contra a vontade – aos comandos superiores.

Através desse trio, o diretor dá uma série de recados. Na cena em que Nish faz amizade com um soldado americano capturado (uma das mais bonitas) ele alerta: não fossem as circunstâncias do conflito e o “dever” em honrar a pátria, soldados rivais poderiam ser amigos. E quando mostra combatentes ianques matando dois japoneses que se entregaram, revela uma crueldade que pode estar em qualquer lado. Outro debate é sobre a deserção. Soldados nipônicos desertores são vistos como desonrados por colegas e comandantes. A morte é a única saída para a honra numa estupidez como a guerra? Já Saigo (que protagoniza os momentos de humor do filme), é a imagem de alguém completamente despreparado para uma batalha, obrigado a seguir os dogmas – distorcidos – de uma nação imperialista.

A bela fotografia esparsa de Tom Stern, deixando a película próxima do preto e branco e realçando o vermelho da bandeira japonesa, e a bela trilha sonora do próprio Clint com Michael Stevens, corroboram para um dos mais sensíveis filmes de guerra já feitos. Uma dica é conferir “Cartas de Iwo Jima” logo após “A Conquista da Honra”. Juntos, comprovam o talento do antes machão Clint Eastwood, agora um sensível inveterado, e há tempos, um baita cineasta, autor de um bonito libelo antibelicista em uma época que a humanidade está mergulhada em violência. Uma guerra não é norteada apenas de feitos heróicos, mas por pessoas simples, cheias de sonhos, qualidades e defeitos, como retrata este belo trabalho.

CARTAS DE IWO HIMA
(Letters from Ijo Hima, EUA, 2006).
Direção: Clint Eastwood.
Roteiro: Iris Yamashita, a partir de história escrita por Iris Yamashita e Paul Haggis, baseada em livro de Tsuyoko Yoshido.
Elenco: Ken Watanabe, Tsuyoshi Ihara, Kazunari Ninomiya, Shidô Nakamura, Ryo Kase.
Drama / Guerra / História.
141 min.

Estreia nos cinemas brasileiros: 16/02/2007.

Principais prêmios e indicações:

– Oscar: Edição de som.
– Indicação ao Oscar: Filme, Diretor, Roteiro original.
– Academia japonesa de cinema: Filme estrangeiro.
– Globo de Ouro: Filme em língua estrangeira.
– Indicação ao Globo de Ouro: Melhor filme/drama.
– Crítica de Los Angeles: Prêmio LAFCA de Melhor filme.

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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