Não Estou Lá + documentários sobre Bob Dylan

Não Estou Lá (I’m Not There, EUA / Alemanha, 2007). Direção: Todd Haynes. Roteiro: Oren Moverman e Todd Haynes. Elenco: Christian Bale, Heath Ledger, Cate Blanchett, Richard Gere, Julianne Moore, Michelle Williams, Bruce Greenwood, Marcus Carl Franklin, Ben Whishaw. Drama / Biografia. 136 min. (Cor).

O cineasta Todd Haynes já havia filmado, em 1998, parte da história do rock em “Velvet Goldmine”, quando combinou as biografias de artistas como David Bowie, Iggy Pop, Lou Reed, Brian Ferry, entre outros, para explicar o movimento glam. Em “Não Estou Lá” ele resolveu filmar a trajetória de outro ícone da cultura pop: Robert Allen Zimmerman, também conhecido como Bob Dylan. O filme não é uma cinebiografia convencional, como “Johnny e June” ou “Ray”, e divide Dylan em suas diferentes “personalidades”. Afinal, não é qualquer um que se torna ídolo do folk e ícone das músicas de protesto, eletrifica seu som e se torna “traidor do movimento”, se converte ao cristianismo para depois renegar Deus.

Para viver essas diferentes facetas do músico, foram escolhidos seis atores que vivem cada Bob. Marcus Carl Franklin interpreta o Dylan criança que fugiu de casa várias vezes, utilizando o nome Woody Guthrie, lenda do folk e ídolo de Bob; Ben Whishaw é o lado poeta do astro, focalizado sempre em close e conversando diretamente com o público; o atual Batman, Christian Bale, faz Jack Rollins, representando duas fases do cantor: quando ele era um artista de “protesto”, e depois quando se converteu ao cristianismo (Dylan é filho de judeus) e gravou discos religiosos; o falecido Heath Ledger dá vida ao Dylan ator (há referências a “Renaldo and Clara”, dirigido pelo músico em 1978). Já Richard Gere numa inteligente metáfora, representa o período em que o astro ficou longe da mídia, vivendo no campo. A alegoria usada é levá-lo ao velho oeste com o nome de Billy (referência ao antigo fora da lei Billy the Kid). Mas é Cate Blanchett, a escolha mais ousada para o papel, que se sai melhor ao encarnar a fase em que o músico rompeu com o folk, virou roqueiro, foi vaiado, roubou a namorada de Andy Warhol e apresentou a maconha aos Beatles. A grande interpretação rendeu a ela o Globo de Ouro de Atriz Coadjuvante, a indicação ao Oscar na mesma categoria e o prêmio do Festival de Veneza 2007.

dylanum

Mas o público que vai ao cinema à procura de mero entretenimento poderá sair da sala de projeção boiando. Além de não contar apenas com um ator protagonista, o roteiro (do próprio Haynes com Oren Moverman) não é linear, e ainda não explica exatamente quais eventos a platéia está conferindo. Os fãs irão adorar, e para quem não conhece a história do músico a fundo, a dica é ler “Dylan – A Biografia”, de Howard Sounes, e assistir os documentários “Dont Look Back”, do diretor D.A. Pennebaker, “No Direction Home”, de Scorsese, “Dylan Speaks – The Legendary Press Conferency in San Francisco”, e “Festival!” de Murray Lerner, todos lançados em DVD no país recentemente (resenhas dos DVDs abaixo).

Assim, o espectador irá entender quando Bob recebe o prêmio Tom Paine do National Emergency Civil Liberties Committe na época do assassinato do presidente John F. Kennedy, e ao sentir-se manipulado, agradece bêbado com um discurso inflamado sobre as coincidências entre sua personalidade e a de Lee Harvey Oswald, assassino do antigo presidente americano. A turnê inglesa de 1965, as sequências das vaias da platéia no Newport Folk Festival, por causa do rompimento com o folk, que culminou no conflito com o público no Manchester’s Free Trade Hall em que o compositor foi chamado de “Judas” pelos espectadores enraivecidos, em 1966. As cenas hilárias em que ele está com os Beatles (num clima que remete ao filme “A Hard Day’s Night”), seu encontro com o poeta Allen Ginsberg (“ele quer te comer”, dizem para Bob a certo momento), sua única coletiva na carreira e a ira que despertou em um repórter da BBC (Bruce Greenwood). E poderão sacar que o papel de Julianne Moore trata-se de Joan Baez, cantora que dividiu o palco com Dylan em inúmeras ocasiões e foi seu “affair” durante muito tempo.

O elenco tem ótimo desempenho e tecnicamente a obra também surpreende, ao utilizar diversos recursos da linguagem cinematográfica como slides, preto e branco, cor, granulações e edição ritmada de acordo com a dramaturgia encenada. Destaque para a fotografia de Edward Lachman.

”Não Estou Lá” acaba sendo uma experiência cinematográfica muito interessante e cai como uma luva como versão para a telona da vida (ou das vidas) contraditória e intensa de Bob Dylan, um sujeito inteligente que mentiu muito no início da carreira, criando lendas sobre ele próprio, e soube como ninguém manipular sua própria imagem e a relação com a imprensa. Só parece forçado quando as pessoas o tratam como um ET. Ele mesmo deve rir de tanta bajulação.

O Dylan real

”Don’t Look Back” (1965)

“Uma banda de covers”. Assim Dylan definiu os Stones quando foi apresentado a Brian Jones. O flagra dá idéia de como o famoso documentário de D. A. Pennebaker deixa Dylan nu. Um dos mais importantes filmes do rock, acompanha os bastidores da tour inglesa de 1965, último suspiro do folk, revelando sua intimidade, ensaios fechados e contraditória personalidade.

”Festival! Newport Folk Festival” (1963-1966)

A obra de Murray Lerner sintetiza quatro edições do Newport Folk Festival e retrata um período crucial na evolução do folk. São 44 canções de artistas lendários, incluindo a famosa vaia da platéia contra as guitarras elétricas de Dylan. As performances incluem ainda Joan Baez, Peter, Paul and Mary, Son House, Pete Seeger e até Johnny Cash. Uma verdadeira celebração da boa música.

”Dylan Speaks – The Legendary 1965 Press Conference in San Francisco” (1965)

Dylan eletrificou seu som em 1965. E no mesmo ano deu a única coletiva de imprensa de sua carreira. Não há música nesse DVD, mas 50 minutos em que o artista destila toda sua habilidade em manipular a própria imagem, mentir e ironizar num clima tenso em que a “platéia”, hipnotizada, contava com figuras como o crítico musical Ralph Gleason e o poeta beat Allen Ginsberg.

”No Direction Home” (2005)

Trata-se da biografia definitiva de Dylan, dirigida pelo mestre Martin Scorsese, que compila material de arquivo e entrevistas com o próprio músico, Joan Baez e outros para captar com magnitude o período entre a chegada de Bob a Nova York em 1961, até o misterioso acidente de carro, que o fez sumir de cena em 1966. Fã declarado, Scorsese é amigo do cantor há 30 anos, desde que o filmou em “The Last Waltz”.

Falando em DVD, também vale conferir “Uma Garota Irresistível” (“Factory Girl”), que tem Sienna Miller na pele da polêmica modelo Edie Sedgwick, que foi amante de Andy Warhol e trocou o artista plástico por Bob Dylan, interpretado no filme por Hayden Christensen. Na verdade, Dylan é chamado de “o músico” ao longo da projeção. O intuito, provavelmente, foi evitar algum processo contra a produção do longa.

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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