Memórias de uma Gueixa

Memórias de uma Gueixa (Memoirs of a Geisha, EUA, 2005). Direção: Rob Marshall. Roteiro: Robin Swincord, baseado em livro de Arthur Golden. Elenco: Zhang Ziyi, Michelle Yeoh, Ken Watanabe, Gong Li, Suzuka Ohgo. Drama. 145 min. (Cor).

Há algum tempo o cinema oriental vem ganhando espaço no mercado do ocidente. Basta lembrar das regravações dos filmes japoneses de terror como “O Chamado” e “O Grito”, ou dos prêmios e da repercussão das obras chinesas lideradas pelo vencedor de quatro estatuetas do Oscar, “O Tigre e o Dragão”, de Ang Lee, e o maravilhoso “Herói”, de Zhang Yimou. Até a sétima arte feita na Coréia mereceu destaque com o fabuloso “Old Boy”. E esse sucesso é merecido, pois atualmente a criatividade (ou boa parte dela) parece estar do outro lado do oceano.

Mas faltava um filme que fosse além das premiações e dos elogios da crítica e ganhasse o grande público na América. “Memórias de Uma Gueixa” foi realizado com essa intenção.

Para isso foram convocados atores já conhecidos dessas bandas, como o japonês Ken Watanabe (de “O Último Samurai”, “Batman Begins”, “Cartas de Iwo Jima“), a chinesa Zhang Ziyi (“Herói”) e da Malasia, Michelle Yeoh (que ao lado de Ziyi atuou em “O Tigre e o Dragão”). Elenco de primeira e orçamento de U$ 85 milhões. Tudo nos conformes para o trabalho dirigido por Rob Marshall (de “Chicago”), ok? Não foi bem assim.

Nessa salada asiática (que para nós, ocidentais, soa tudo igual, e não é), algo acabou não dando certo.

O filme é bonito, bem feito e mereceu  os prêmios que recebeu: três estatuetas no Oscar (Direção de Arte, Fotografia e Figurino), trilha sonora no Globo de Ouro, e mais três premiações no BAFTA (Fotografia, Figurino e Trilha Sonora). Só que “Memórias de Uma Gueixa” teve um alto orçamento, mas não correspondeu nas bilheterias.

A trama conta a trajetória de Chiyo (Suzuka Ohgo), que é vendida a uma casa de gueixas quando menina, em 1929, onde é maltratada pelos donos e por Hatsumomo (Gong Li), a gueixa que mais dá lucro para o local e que passa a ter inveja da beleza da novata. Certo dia, ainda pequena, ela se apaixona pelo presidente de uma firma (Ken Watanabe), e a partir de então tudo o que faz é para reencontrá-lo. Acolhida por Mameha (Michelle Yeoh), a principal rival de Hatsumomo, Chiyo ao crescer ganha o nome de Sayuri (Zhang Ziyi), tornando-se a gueixa mais desejada pelos figurões da sociedade, e passa a desfrutar de riquezas e privilégios, até que a Segunda Guerra Mundial modifica radicalmente sua realidade no Japão.

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O início é louvável, com uma boa intenção dos autores, já que explica a vida difícil que as gueixas levam e, além disso, que elas não são prostitutas como muitos pensam. A partir da Segunda Guerra Mundial,  mulheres passaram a se vestir como gueixas e fazer qualquer tipo de serviço para sobreviver, e com a invasão dos americanos no Japão, essa imagem é a que acabou ficando para esse lado do planeta.

Merece destaque a interpretação de Zhang Ziyi, que dá sensibilidade e sutileza à personagem. Ela, que é ótima atriz, foi indicada ao Globo de Ouro em Atriz/Drama, mas acabou esquecida pela Academia nas indicações ao Oscar. A reconstituição do Japão também é digna de nota.

Porém há alguns problemas na concepção do longa. A língua do filme é o inglês. Até aí, para quem queria conquistar o mercado americano, tudo bem. Só que em alguns momentos surgem falas em japonês, o que deixam um pouco de artificialidade no ar. Outro ponto a ser questionado é que, por mais que a história se passe no início do século passado, quando a personagem de Yeoh vai explicar a perda da virgindade para Chiyo, ela tenta dar a explicação dizendo que a “enguia vai entrar na caverna”, o que não soa bem e retrata a nova gueixa como uma idiota.

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Na balança, apesar de ser uma obra irregular, “Memórias de Uma Gueixa” merece ser conferido. Basta ter um pouco de paciência e a noção de que é um filme que trata da cultura oriental na visão de alguém ocidental. E se puder, procure assistir “Herói”, “O Clã das Adagas Voadoras”, “O Tigre e o Dragão”, “Old Boy” e “2046”. Nesses, além das belíssimas imagens de praxe, é possível ficar embasbacado, apaixonado e ter uma aula de cinema.

Estreia nos cinemas brasileiros: 03/02/2006.

Disponível em DVD.

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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